Segunda-feira, 25 de Junho de 2018

Quando bate uma tristeza ou o desencanto nos atormenta, a poesia, se bem escolhida, pode servir de bálsamo que nos dê algum alívio. Foi isso que me trouxe à memória, um belo texto e que, depois de o ler com muito consolo, resolvi partilhar com quem tiver a oportunidade ou a vontade de o ler ou reler. 

Trata-se de um poema que se apresenta como uma modesta brincadeira, mas que, bincando, toca em sentimentos que nos tomam com frequência e que, parcendo um quase nada, nos ajudam bastante a reequilibrar a nossa estabilidade emocional. 

A sua doce toada, numa linguagem simples, directa, tão própria do doce tropicalismo que o português frequentemente assume nas terras do Brasil, foi a melhor forma  que encontrei para me desentristecer...

Permitam que partilhe convosco, esta tão doce opção de ir espairecer até esta terra imaginada - Pasárgada -, onde esquecendo, recuperamos o alivio, na esperança do melhor que poderá vir e que decerto virá, para nosso aconchego. Dele recolhi este recado: Quando tudo parece muito mau, devemos acreditar que há sempre um modo de voltar a ser melhor, mesmo que seja, apenas, recorrendo ao sonho de uma irrealidade apenas imaginada ...

 

Vou-me Embora p'ra Pasárgada (1)

 

Vou-me embora p'ra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

 

Vou-me embora p'ra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!


E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
P'ra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar

Vou-me embora p'ra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização

Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora p'ra Pasárgada.

 

 Manuel Bandeira

(1) Pasárgada foi a capital do antigo Império Persa. É hoje um importante sítio arqueológico, classificado como Património Mundial da Unesco.


  Poema extraído do livro de Manuel Bandeira -  "
Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90



publicado por Francisco Galego às 00:01
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