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VI - ERMIDAS, IGREJAS E CONVENTOS DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 16.11.16

 

A "IGREJA NOVA" (OU MATRIZ)

 

“ No ano de 1574, os vereadores: Thomé Affonço, António de Payva e Jorge do Rego, cavaleiros fidalgos, estes fizeram um acórdão em que se juntou todo o povo e propuseram que a Igreja da Matriz, era velha e muito pequena, em que não cabia o povo, porque quando se fizera não tinha mais de 300 vizinhos e agora passava de mil, se pedisse a El-Rei faculdade para se fazer outra e ao Bispo uma ajuda do custo”. (Estêvão da Gama, p. 121 e122)

“Ano de 1585… Neste ano veio a Provisão para se fazer a Igreja Nova (1), e se assentou ficasse também a Velha (2) e se partissem os fregueses pelo meio, para que houvesse duas freguesias.”

“Ano de 1610… Neste ano se arrematou a obra da Igreja Nova. No ano de 1645,  ainda não  estava aperfeiçoada, faltando-lhe as torres para os sinos e a guarnição por fora de toda ela. Só no ano de 1662 estava a igreja completada. (Estêvão da Gama, p. 123).

(A nova matriz) é um grande templo de três naves, com duas ordens de colunas de pedra a que chamam "gram". Tem três ao comprimento formando, de umas a outras, arcos sobre que se sustentam as abóbadas. Tem de comprimento sessenta e oito côvados e de largura trinta e quatro. A capela-mor é de bastante grandeza, tem tribuna… O retábulo é todo de alvenaria, com colunas retorcidas, cornijas e cimalhas, tudo estucado e pintado e excelente arquitectura. Tem duas capelas colaterais, uma da parte do Evangelho, de Nossa Senhora da Piedade…onde está sepultado o Bispo de Coimbra D. Martinho Afonso Mexia (3),  Para a parte da Epístola está a de Nossa Senhora do Rosário que é dos soldados do Regimento de Infantaria desta mesma guarnição, por cuja conta corre o ornato dela. Estas duas capelas têm mais vão que aquele que ocupam os altares. Tem outras duas nos lados que formam o grande vão do Cruzeiro: uma do Santíssimo Sacramento para a parte do Evangelho…Outra de Nossa Senhora do Rosário, defronte desta…a imagem da Senhora é de formosa escultura. Segue-se a esta capela, já no corpo da Igreja, a de Nª Senhora do Desterro. A esta segue-se uma porta colateral que fica a nascente. Segue-se-lhe outra capela, de Nª Senhora do Carmo e, no fim dela, corre a parede do frontispício em que está a porta principal que fica ao meio-dia. E em cima dela está o coro espaçoso e claro de que se não servem os clérigos por estar sem ornato nenhum e lhe ser mais cómodo rezarem na capela-mor. A esta porta segue-se a Pia Baptismal (4), que é uma casa de bastante grandeza. Segue-se esta parede a outra e logo a capela de S. Miguel e das Almas…e desta se segue outra porta colateral para o poente e a esta a capela de Nª Senhora da Encarnação e a ela a já referida capela do Santíssimo.

Todas estas capelas foram pintadas entre os anos de 1719 e 1720, de excelente pintura dos Mestres Manuel dos Reis e António Pimenta da cidade de Lisboa, ambos discípulos do grande pintor Bacareley.

Há nesta Igreja três sacristias: uma dos clérigos, outra dos Irmãos do Santíssimo e outra de Nª Senhora do Rosário.

A entrada da porta principal é feita por duas ordens de escadas de pedra. Tem um adro muito espaçoso.

A fábrica desta Igreja(5) são umas terras que no presente rendem setenta e cinco mil réis, cuja arrematação fazem os oficiais da câmara e que foram deixadas por uma mulher de que se não sabe o nome, mas que é coisa muito antiga. Desse dinheiro se paga ao organista e o mais se despende nas obras e reparos da Igreja.”

 (Estêvão da Gama, ( p. 47 a 51 e p.s 122 e 123) 

 

 Notas:

(1) No século passado, o povo designava esta igreja como a Igreja Nova, e o largo onde se encontra como Largo da Igreja Nova. Raramente era designada como a Matriz.

(2) A antiga matriz, dentro do castelo.

(3)Este bispo era natural de Campo Maior.

(4) Segundo documentos antigos, esta pia baptismal teria vindo da antiga igreja matriz, no castelo, que fora demolida e nela teria sido baptizada Santa Beatriz da Silva. De facto, esta peça parece esculpida de uma forma que aponta para uma data bastante anterior à da construção desta igreja.

(5) A "fábrica desta Igreja" significa o conjunto de bens que, com os rendimentos que geram, garantem a sustentação das despesas com os seus serviços e obras de conservação e restauração. Numa perspectiva mais jurídica, a Fábrica da Igreja é a entidade que representa oficialmente a mesma, em todos os assuntos de ordem administrativa. A Fábrica da Igreja é normalmente a proprietária dos bens paroquiais afectos ao exercício do culto. tendo a incumbência de  administrar os bens eclesiásticos da paróquia.

 

 Nota Final:  Com a grande explosão da torre de menagem, em 1732, “arruinou-se o coro e o frontispício da Igreja Matriz, algumas das suas abóbadas e colunas, quebraram-se todas as portas e algumas imagens.”(Estêvão da Gama, p. 138).

A Igreja, serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficavam perto do grande edifício que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo, que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abobada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abobadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

Para remediar a ruína (...) mandou D. João V “aplicar a terça do concelho para a reedificação da Igreja Matriz…” (Estêvão da Gama, p. 141)

 

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