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TERRAMOTO DE LISBOA (1755) ... Há 263 anos

por Francisco Galego, em 01.11.18

Na manhã de 1 de Novembro de 1755, dia de Todos os Santos, um violento terramoto fez-se sentir com grande incidência em Lisboa, mas também em muitas outras terras, como Setúbal e no Algarve. Na capital, local onde atingiu maior intensidade - grau 9 na escala de Ritcher -, foi acompanhado por um maremoto (Tsunami) com ondas que parecem ter chegado aos 20 metros, cujo efeito chegou até às costas dos Estados Unidos da América.

O terramoto e o marenoto que varreu o Terreiro do Paço, seguidos de um gigantesco incêndio que durou 6 dias, completaram o cenário de destruição de toda a Baixa de Lisboa. Este trágico acontecimento foi tema de vasta literatura que se desenvolveu um pouco por toda a Europa e de que é exemplo o poema de Voltaire Le Désastre de Lisbonne (1756).

Lisboa já havia sentido muitos terramotos. Existem refências a oito no século XIV, cinco no século XVI - incluindo o de 1531 que destruiu 1.500 casas, e o de 1597 que destruiu três ruas. No século XVIII foram mencionados os terramotos de 1724 e 1750. Este último precisamente no dia da morte de D. João V, mas ambos de consequências menores.
Em 1755, ruíram importantes edifícios, como o Teatro da Ópera, o Palácio do duque de Cadaval, o Palácio Real e o Arquivo da Torre do Tombo, cujos documentos foram salvos, o mesmo não acontecendo com as bibliotecas dos Dominicanos e dos Franciscanos. Ao todo, terão sido destruídos cerca de 10.000 edifícios e terão morrido entre 12.000 a 15.000 pessoas, ou talvez muito mais. Estudos modernos indicam que numa cidade com 275.000 habitantes poderiam ter morrido entre 70 a 90.000 pessoas.
O sismo fez-se sentir na manhã de 1 de Novembro, dia que coincide com o feriado do Dia de Todos-os-Santos. O epicentro não é conhecido com exactidão, pois que  diversos sismólogos propõem, para sua localização, pontos distanciados, alguns por centenas de quilómetros. No entanto, todos convergem para um epicentro no mar, entre 150 a 500 km a sudoeste de Lisboa.

Com os vários desmoronamentos, os sobreviventes procuraram refúgio na zona portuária e assistiram ao recuo das águas, revelando o fundo do mar cheio de destroços de navios e de cargas perdidas. Poucos minutos depois, um maremoto de grandes proporções, que actualmente se supõe ter atingido 20 metros de altura, fez submergir o porto e o centro da cidade. Nas áreas que não foram afectadas pelo tsunami, o fogo logo alastrou, tendo os incêndios durado pelo menos 5 dias.

Lisboa não foi a única cidade portuguesa afectada pela catástrofe. Todo o sul de Portugal, sobretudo o Algarve, foi atingido e a destruição foi generalizada. Além da destruição causada pelo sismo, o tsunami que se seguiu, destruiu fortalezas costeiras e habitações no Algarve, registando-se ondas com cerca de 30 metros de altura. As ondas de choque do sismo foram sentidas por toda a Europa e no norte da África. Cidades marroquinas como Fez e Meknès sofreram danos e consideráveis perdas de vida. Ainda não há muito tempo que, numa visita guiada na cidade de Salamanca, a guia que orientava a visita, chamou a atenção para uma racha numa das torres da catedral. Em Campo Maior não são conhecidos quaisquer efeitos, mas há referência a que a igreja de Ouguela terá sofrido graves danos em consequência das ondas  de choque  que ali chegaram.

Os maremotos originados pela movimentação tectónica varreram locais desde o norte de África - como Safim e Agadir - até ao norte da Europa, nomeadamente até à Finlândia.  Afectaram os Açores e a Madeira e locais tão longínquos como Antígua, Martinica e Barbados. Diversos locais em torno do golfo de Cádis foram inundados. O nível das águas subiu repentinamente em Gibraltar. As ondas chegaram até Sevilha através do rio Guadalquivir e chegaram também a Huelva e a Ceuta.

Crê-se que, em Lisboa, de uma população de 275 mil habitantes terão morrido cerca 90 mil. Em Marrocos, cerca de 10 mil foram vitimados. Aproximadamente 85% das construções de Lisboa terão sido destruídas, incluindo palácios famosos, bibliotecas, conventos, igrejas, hospitais e muitas outras importantes estruturas. A isto juntam-se as construções que sofreram poucos danos pelo terramoto, mas que foram destruídas pelo fogo que se seguiu ao abalo sísmico.

A recém construída Casa da Ópera, aberta apenas seis meses antes, foi totalmente consumida pelo fogo. O Palácio Real, que se situava na margem do Tejo, onde hoje existe o Terreiro do Paço, foi destruído pelos abalos sísmicos e pelo tsunami. Dentro, havia uma biblioteca de 70 mil volumes e centenas de obras de arte foram perdidas, incluindo pinturas de Ticiano, Rubens, e Correggio. O precioso Arquivo Real com documentos relativos à exploração oceânica e outros documentos antigos também foi destruido.

O terramoto destruiu também algumas das maiores igrejas de Lisboa, nomeadamente, a Catedral de Santa Maria, as Basílicas de São Paulo, de Santa Catarina, de São Vicente de Fora, e a da Misericórdia. As ruínas do Convento do Carmo que ainda hoje podem ser visitadas no centro da cidade, são testemunho dessa destruição. O túmulo de Nuno Álvares Pereira, que existia nesse convento, perdeu-se também.

O Hospital Real de Todos os Santos foi consumido pelos fogos, tendo centenas de pacientes morrido queimados.

Registos históricos das viagens de Vasco da Gama e Cristóvão Colombo foram perdidos. Foram arrasadas muitas importantes construções, incluindo notáveis  exemplares da arquitectura do período manuelino, em Portugal.

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FONTE: Domingos Amaral - QUANDO LISBOA TREMEU. Leya SA, 3ª ed., Alfragide, 2013

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