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AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – IV

por Francisco Galego, em 13.02.15
  1. O Recomeço das Festas que deixaram de ser “Festas dos artistas” e passaram a ser “Festa do povo”

 

 

O recomeço das “Festas” deu-se quando a sociedade reencontrou alguma estabilidade.

Ao contrário do que acontecia no país, os ventos pareciam voltar a soprar de feição para os campomaiorenses. Do ponto de vista económico, a vila inicia um período de desenvolvimento. De novo volta a parecer que Campo Maior constitui um caso de excepção, pois esta situação parece não poder generalizar-se. Perto, na vizinha Elvas, a população revolta-se com a subida do preço do pão, o que parece indicar graves dificuldades económicas.

Em Campo Maior, a vida comunitária reanima-se. Regressa de novo a vontade de voltar às Festas em Honra de São João Baptista que, desde 1909 não se realizavam. As festas voltam em força, recuperando o modelo tradicional conforme foi noticiado pelo recém-criado jornal – O Campomaiorense. Vão-se realizar três anos seguidos, no total de cinco vezes nos anos vinte: 1921; 1922; 1923; 1927; 1928.

É na segunda década do século XX, que a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas dos Artistas, para Festas do povo significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

A tradição foi reatada desenvolvendo-se segundo o projecto que se iria manter durante o século XX: A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções, ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.  

 

 

 

 

 

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publicado às 08:46


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – III

por Francisco Galego, em 09.02.15

           

  1. O MODELO DAS FESTAS NAS SUAS ORIGENS

 

 

Correio Elvense, Ano IX, nº843 de 10 de Setembro de 1898, p.2

Eis o programa dos grandiosos festejos que se hão-de realizar na vila de Campo Maior, em honra de S. João Baptista, nos dias abaixo designados:

Dia 10

Grandes ornamentações por todas as ruas e largos, tudo transformado em jardins por diferentes gostos.

Às 3 horas da tarde, Grande arraial no sítio de São Joãozinho, extra-muros da vila, tocando a filarmónica União, composta de elementos das duas filarmónicas desta vila, escolhidas peças dos seu vasto repertório.

Às 10 horas da noite arraial e iluminação à veneziana em todas as ruas e junto da Igreja de São João, tocando a filarmónica União até à meia noite, terminando com um balão confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão.

Dia 11

Às 6 da manhã alvorada por música em diferentes pontos da vila.

Às 11 horas, festa na Igreja de S. João Baptista, em que toma parte a reputada orquestra Campomaiorense, dirigida pelo Exmo. Sr. José Gonçalves Niza. Ao Evangelho subirá à tribuna sagrada o distinto orador, reverendo padre José Vitorino Alves Captivo.

Às 5 horas da tarde sairá a procissão, que percorrerá as ruas do costume, saindo a imagem de S. João com a sua irmandade e as do Santíssimo, S. Pedro, S. Sebastião, etc.

Às 9 horas da noite, iluminação em todas as ruas e largos, arraial, fogos de artifício, bailes populares e música na Avenida às portas de S. Pedro. O fogo é confeccionado pelo pirotécnico, David Nunes e Silva, da Sertã, que tanto agradou nos centenários Antonino e de Vasco da Gama, terminando com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 12

Às 6 horas da manhã, alvorada por música na praça D. Luís 1º.

Às 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde grande tourada ao uso da terra. Gado bravíssimo, escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. António Pereira Claro.

Às 9 horas da noite, brilhante iluminação em toda a vila e na Avenida às Portas de S. Pedro, fogos-de-artifício de grande novidade, do mesmo pirotécnico da noite anterior, danças populares e música. Findou o fogo com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 13

ÀS 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde, grande tourada; gado bravíssimo escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. Manuel Pereira Nunes.

Às 9 horas da noite, grande marcha aux flambeuax, dirigida pelos Ex.mos. Srs. José Augusto Leitão e Joaquim Manuel de Sousa Bexiga, indo à frente a comissão promotora dos festejos, seguida pelas classes artísticas campomaiorenses, percorrendo todas as ruas da vila, com a filarmónica União, dirigida pelo maestro Exmo. Sr. José Francisco Soares – em sinal de reconhecimento às pessoas que auxiliaram a comissão com os seus donativos. Terminam os festejos com um balão, confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão, e que subirá ao ar na Praça de D. Luís I.

 

 

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publicado às 08:42


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – II

por Francisco Galego, em 04.02.15
  1. O Arranque inicial das Festas dos Artistas

 

 

Em 1893, foi um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, que resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que, mais uma vez, tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas.

Nesta modalidade, as “Festas” realizaram-se nos anos de 1893, 1894, 1895, 1896, 1897, 1898, 1902, 1904 e 1909.

As famílias mais dotadas de posses começaram a decorar as salas de rés-do-chão, com janelas que abriam para serem admiradas pelo que passeavam pelas ruas nos dias de festa que ocupavam um fim-de-semana.

As famílias mais modestas punham vasos de plantas ao longo das frontarias. Todos, na medida das suas posses, procuravam iluminar as frontarias das casas e as janelas com lamparinas e candeias, pois que a iluminação pública era ou inexistente ou insuficiente.

Havia bailes com descantes e desafios, nos largos e nos cruzamentos das ruas. As touradas à vara-larga, era o principal acto de animação.

Neste período começou o hábito de ornamentar os largos com mastros que eram enfeitados com ramos de verdura, com bandeirolas de papel e com balões de papel iluminados.

As festas foram ganhando dimensão e prestígio, começando mesmo a atrair populações de terras próximas, principalmente de Elvas. As Festas de Campo Maior começavam tornar-se um fenómeno de cultura popular e lugar de romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

Este primeiro ciclo acabou porque acontecimentos com muito impacto social e política, alteraram o viver habitual da população. O primeiro foi a Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, um importante facto a nível interno que mudou o regime político e desencadeou um período de sucessivos confrontos na sociedade portuguesa. Esta instabilidade interna foi agravada com a eclosão da 1ª Grande Guerra que durou de 1914 a 1918 e deixou marcas muito graves por mais alguns anos. Entre 1909 e 1921, as “Festas” não se realizaram.

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publicado às 08:39


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – I

por Francisco Galego, em 26.01.15
  1. AS REMOTAS ORIGENS – Festas em Honra de S. João Baptista

           

 

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Sobre as Festas de Campo Maior, as fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos os anos, no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista. Esta data celebrava o fim do Sítio de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como a Guerra Peninsular, no início do século XIX, a Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis entre absolutistas e liberalistas que se sucederam até meados desse século. Quase no final do século, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

 

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publicado às 17:36


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – II

por Francisco Galego, em 14.10.14

A sua evolução

 

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e, mais tarde, flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.          

            Desde o recomeço em 1893, decorridos que são mais de 100 anos, as festas realizaram-se 36 vezes. Nos primeiros cinquenta anos, mantiveram-se com uma expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com crescente projecção para lá da fronteira, aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela emigração e pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. As Festas do Povo de Campo Maior foram-se tornando um fenómeno de cultura popular, lugar de grande romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

 No ano de 2011, verificou a sua última realização que foi a 36ª realização destas Festas. A vila de Campo Maior, nesse final de Agosto, decidiu de novo transfigurar-se como se renascesse num turbilhão de formas e de cores. Da noite para o dia, tudo se transfigurou. Os tectos de cordões de flores protegeram as ruas do esbraseamento do Sol. Cada rua procurou encontrar uma maneira de se cobrir de ornamentos. Por todos os recantos apareceu a magia das flores e das ramagens. Rosas, cravos, tulipas e uma miríade de outras flores, feitas com tal perfeição que chegam a confundir-nos mais parecendo flores naturais e não flores de papel. Perante tamanha beleza, tornar-se-á inevitável o espanto causado por uma obra colectivamente realizada. Seremos levados a pensar como terá sido possível gerar este sortilégio, trazido através do tempo por sucessivas gerações de campomaiorenses. Até quando poderá subsistir tanta magia se vivemos tempos de tão escassos valores e de tão rasteiro pragmatismo?

Provavelmente as Festas do Povo de Campo Maior terão o destino de todos os milagres: existirão até que existam em Campo Maior, mulheres e homens capazes de acreditar que estes milagres podem acontecer. Como todos os fenómenos sociais, as Festas de Campo Maior, para garantirem a sua sobrevivência, vão de ter de evoluir adaptando-se às novas condições da sociedade campomaiorense.

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publicado às 09:30


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – I

por Francisco Galego, em 11.10.14

REMOTAS ORIGENS

 

Trata-se de uma festa popular que inicialmente tinha um carácter estritamente local e que remonta ao século XVIII.

Foi evoluindo desde uma fase, em que era penas uma celebração religiosa para comemorar um pretenso milagre e daí foi evoluindo para uma festa pagã, até se tornar numa evento de dimensão que vai para além dos limites da povoação onde nasceu e para além das fronteiras de Portugal. Originalmente eram designadas como Festas em Honra de São João Baptista.

Esta festa que se tem realizado nos finais de Agosto, princípio de Setembro – não todos ao anos, nem com periodicidade regular – consiste em ornamentar as ruas da povoação como elementos que começaram pelo uso de elementos naturais - folhagens e flores – mas que a partir de inícios do século XX, começou a usar ornamentos em papel, como predomínio das flores. Essa acentuação nas decorações florais acentuou-se de tal modo que hoje o evento é designado muitas vezes como a Festa das Flores.

As festas começaram por se realizar num fim-de-semana, sendo mais tarde alargada a sua duração para uma semana.

As ruas de Campo Maior são completamente cobertas de ornamentações feitas de papel que reproduzem uma grande variedade de flores naturais. O recurso ao papel talvez tenha sido a solução própria dum clima de verões muito quentes e muito secos duma região muito no interior de Portugal. De qualquer modo tornou-se notável que as ruas, de uma povoação de razoável dimensão, se torne por vezes num fantástico jardim em que as flores são o elemento dominante.

 

           

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. As fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos aos anos no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista, na qual participavam solenemente as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa popular com iluminação nocturna das ruas, havendo bailaricos e descantes populares. Estranha data para tal celebração pois esse dia era consagrado a um outro santo: era o dia de S. Simão.

Mas, em Campo Maior, esta data celebrava o fim do Sítio de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como:

- A Guerra Peninsular, no início do século XIX;

- A Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis que se sucederam até meados

 desse século.

Quase no final do século XIX, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptistaque tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício, não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da maioria da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas. Só mais tarde, na segunda década do século XX, a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas do Povo, significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

Desde que a tradição foi reatada em 1893, os jovens que promoveram as Festas, traçaram-lhe os projectos que se iriam manter durante quase todo o século XX: A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas banda local ou pelas bandas convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

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publicado às 09:27


FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR - O MODELO INICIAL

por Francisco Galego, em 01.10.11

As “Festas do Povo” têm-se desenvolvido ao longo de mais de um século em várias etapas que correspondem a sucessivas adaptações às mudanças políticas e sociológicas por que foram passando o país e vila de Campo Maior. Isto sem falar das suas raízes, mais remotas, no início do século XVIII, em que a “Festa” não passava de uma celebração religiosa em honra de S. João Baptista e que tinha lugar no dia 28 de Outubro de cada ano.

Contudo, foi em 1893 que surgiu o modelo que iniciaria o processo que verdadeiramente originou as “Festas” que conhecemos na actualidade. Nesse ano surgiu o primeiro modelo que iria perdurar até meados do século passado e que consistia fundamentalmente em ornamentar os espaços públicos com ramos, com pequenas lamparinas de azeite, com balões de papel para protecção das velas de cera para iluminar as ruas à noite. Os mais abastados, tinham por hábito ornamentar e iluminar os átrios das suas casas que mostravam, mantendo abertas as portas e as janelas. Alguns artesãos construíam habilidosos engenhos ou interessantes cenários que exibiam nos largos ou em frente às suas casas.

 Neste primeiro modelo, as “Festas” consistiam em missa solene, procissão, mastros enramados, touradas, arruadas e concertos pelas bandas, iluminações nocturnas, cantares e bailes de roda.

Nos anos trinta e quarenta do século XX, começaram a aparecer as ornamentações de papel. Primeiro muito timidamente, consistiam em bandeirolas e franjas a ligar os mastros, mas ainda sem flores de papel.

O modelo a que poderemos chamar “das flores de papel”, só surgiu no início dos anos cinquenta. Concretamente foi nas “Festas” de 1952 e 1953 que apareceram as primeiras ruas que fizeram das flores o elemento principal da sua ornamentação. Os mais velhos lembrar-se-ão das “trapaças”, flores muito simples e singelas que substituíram as franjas e as bandeirolas na formação dos tectos e dos cadeados que substituíram os festões em ramagem de bucho.

Foi nesses anos que começou uma nova evolução que não parou até aos dias actuais.

 

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publicado às 18:08

Em mais de cem anos as festas realizaram-se 35 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.

            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, tornaram-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.

            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?

 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?

            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem dependerá o seu direito a perdurarem ou a sentença da sua extinção. A lei da vida e da história não deixa lugar para as inadaptações.

            É nosso desejo e nossa fé que haja um futuro ainda mais glorioso para as Festas do Povo de Campo Maior.

 

(In, Francisco Pereira Galego, Campo Maior - Cantar e Bailar as Saias
 

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publicado às 10:29


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 08.09.11

           

Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Sobre as Festas de Campo Maior, as fontes mais antigas apontam para uma origem ligada ao culto de São João Baptista, o santo patrono que figurava no seu antigo brasão. Todos aos anos no dia 28 de Outubro, realizava-se uma missa solene seguida de uma procissão em honra de São João Baptista, na qual participavam solenemente as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa popular com iluminação nocturna das ruas, havendo bailaricos e descantes populares. Estranha data para tal celebração pois esse dia era consagrado a um outro santo: era o dia de S. Simão.

Mas, em Campo Maior, esta data celebrava o fim do Sítio de de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como, as tropas espanholas sitiantes, tinham inesperadamente retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João Baptista, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que, nesse dia, se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.

Esta tradição foi mantida, mas com interrupções mais ou menos longas em períodos de grandes crises como a Guerra Peninsular, no início do século XIX, a Revolução Liberalista de 1820 e as guerras civis que se sucederam até meados desse século. Quase no final do século, com a pacificação da sociedade portuguesa, a tradição foi retomada. Mas, devido à instabilidade meteorológica do mês de Outubro, as Festas foram recuadas para o mês de Setembro.

            Em 1893, foi um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, que resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que, mais uma vez, tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas. Só mais tarde, na segunda década do século XX, a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas do Povo, significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

Desde que a tradição foi reatada em 1893, os jovens que promoveram as Festas, traçaram-lhe os projectos que se iriam manter durante quase todo o século XX: ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.  

            Desde o recomeço em 1893, decorridos que são 118 anos, as festas realizaram-se 35 vezes. Nos primeiros cinquenta anos, mantiveram-se com uma expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.

            Depois da Segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com crescente projecção para lá da fronteira, aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações. As Festas do Povo de Campo Maior foram-se tornando um fenómeno de cultura popular, lugar de grande romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

 Estamos, neste ano de 2011, perante a 36ª realização destas Festas. A vila de Campo Maior, neste final de Agosto, decidiu de novo transfigurar-se como se renascesse num turbilhão de formas e de cores. De uma noite para o dia, tudo se irá transfigurar. Os tectos de cordões de flores protegerão as ruas do esbraseamento do Sol. Cada rua terá procurado encontrar uma maneira de se cobrir de ornamentos. Por todos os recantos aparecerá a magia das flores e das ramagens. Haverá rosas, cravos, tulipas e uma miríade de outras flores que, pela sua perfeição, chegam a confundir-nos de tão bem dissimulado estar o artifício de serem flores de papel. Perante tamanha beleza, tornar-se-á inevitável o espanto perante uma obra colectivamente realizada. Seremos levados a pensar como terá sido possível gerar este sortilégio, trazido através do tempo por sucessivas gerações de campomaiorenses. Até quando poderá subsistir tanta magia se vivemos tempos de tão escassos valores e de tão rasteiro pragmatismo?

Provavelmente as Festas do Povo de Campo Maior terão o destino de todos os milagres: existirão até que existam em Campo Maior, mulheres e homens capazes de acreditar que estes milagres podem acontecer. Como todos os fenómenos sociais, as Festas de Campo Maior, para garantirem a sua sobrevivência, vão de ter de evoluir adaptando-se às novas condições da sociedade campomaiorense.

 

 

                                                           FRANCISCO PEREIRA GALEGO (In, Programa das Festas de 2011)

 

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publicado às 12:11


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS LXI

por Francisco Galego, em 31.08.11

Nos anos 40, a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e a Segunda Grande Guerra (1939-1945), grandes dificuldades, excassez de recursos. As Festas foram muito pobres: paus enramados e tectos em franjas de papel.

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publicado às 10:59


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