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SOBRE CAMPO MAIOR (Ensaio)

por Francisco Galego, em 20.08.14

 

Fica situada a vila de Campo Maior na fronteira oriental de Portugal, na sua maior largura, a 220 quilómetros do Cabo da Roca. É vila do norte da província do Alentejo, sede de concelho, comarca de Elvas e distrito de Portalegre, donde dista 50 quilómetros. Ergue-se sobre duas colinas que dominam num largo raio os formosos campos da planície alentejana. Quem subir ao seu castelo, nos lindos dias da nossa primavera, desfrutará um soberbo e majestoso panorama: a sua vista pousará logo, junto das muralhas, sobre os campos de trigo e dos prados verdejantes; passará pelos olivais e vinhas e irá perder-se, através de infindáveis montados, nas longas campinas do território espanhol. O clima é benigno apesar das amplitudes nítidas de temperatura que lhe dão um carácter de excessividade. Nos meses de inverno, principalmente em Dezembro, o frio chega a arroxear as unhas das mãos e no verão, “caem os pássaros assados”, como diz o povo em sua linguagem simbólica.

                A constituição geológica do termo da vila, é de antigos terrenos pertencentes à Meseta Ibérica ou Planalto Central Ibérico, em volta do qual se formaram as condensações que vieram constituir a Península.

                O solo é de terrenos calcários, argilosos e arenosos donde provêm o seu uberismo[1] e variedade de produtos, pois que, ali se cultivam todos os da flora mediterrânea.

                As águas não abundam e, exceptuando as quintas e as hortas onde, no verão, a água é captada de nascentes por meio da clássica nora, as terras não podem ser regadas, motivo porque só se cultivam os cereais e outras plantas que apenas necessitam de água durante a época das chuvas.

                Todo o concelho de Campo Maior é essencialmente agrícola e toda a sua riqueza é filha da terra mãe. É abundante em cereais, azeites, vinhos, carnes de porco e excelentes frutas. Nas hortas e quintas cultivam-se os legumes e as hortaliças para abastecimento do mercado local. E, para que nada falte das benesses que a terra dá, na primavera florescem os vales e os outeiros, transformando a região num grandioso jardim. Refere a tradição que, passando antigamente por estes sítios em vistosa cavalgada, D. Afonso V tanto se admirou deles e da sua formosura em hortas e jardins que lhe chamou “campo de flores”.

                As suas indústrias são derivadas da agricultura e só no último decénio se têm desenvolvido com certa rapidez. Os lavradores começaram a fugir à rotina e a adoptar novos métodos com maquinaria moderna – tractores, ceifeiras e debulhadoras – nos serviços agrícolas. Os antigos lagares para fabrico do azeite, insalubres e anti-higiénicos, foram substituídos por outros mecânicos e em conformidade com as exigências da técnica moderna. Uma bela fábrica de moagem de trigo veio tomar o lugar das arcaicas azenhas, tendo também progredido as indústrias de conserva de frutas em compota, fábrica de cal branca e de cal preta e a dos “potes” (talhas de barro) onde se fabrica o vinho. O comércio vive da agricultura e da indústria locais. Exportam-se grandes quantidades de cereais, azeite, vinho, animais vivos – principalmente porcos –, conservas de fruta e talhas de barro. Importam-se, só para os gastos da terra, máquinas e alfaias agrícolas, géneros de mercearia, lanifícios, algodões e ferragens.

                Tem Campo Maior, nas quatro freguesias[2] que constituem o concelho, uma população de 8.000 habitantes aproximadamente. O maior número destes cabe às duas freguesias que formam o centro urbano. As outras duas poderão ter um milhar e meio de pessoas, pouco mais ou menos. Podem considerar-se nesta povoação três classes sociais distintas: a dos lavradores, a dos proprietários e dos trabalhadores rurais ou jornaleiros; e, se quisermos, uma quarta classe social, “a dos artífices” ou operários – ferreiros, carpinteiros, alfaiates, sapateiros, etc. …

                No século passado foi a classe dos proprietários que predominou, quando foram parcelados e divididos pelo povo os grandes baldios e latifúndios que andavam incultos. Esta reforma, porém, como não foi acompanhada das necessárias medidas económicas e financeiras de protecção aos novos proprietários, não produziu plenamente os resultados que se esperavam. E assim é que, muitos dos possuidores dessas parcelas não tendo capital para o seu amanho, tiveram de aliená-las mal as receberam e a outros foram-lhe executadas e vendidas judicialmente para pagamento de contribuições relaxadas. Desta forma, as glebas foram-se acumulando num número cada vez menor de indivíduos, trazendo como resultado a diminuição do número de ricos e o aumento do número de pobres. Consequentemente, a classe dos jornaleiros começou a predominar e hoje a família rural é a mais numerosa.

                Pode, todavia, afirmar-se que alguns benefícios trouxeram a Campo Maior esses parcelamentos, porquanto, é só nas épocas do cultivo e das colheitas dos produtos das terras desses novos proprietários que conseguiram mantê-las – uns porque arranjaram crédito, outros com algum rendimento que já possuíam –, que o trabalho abunda. Como há trabalho, há sorrisos de paz em todos os rostos e pão, azeite e lume nos lares de todos os pobres. É que o trabalho continua sendo o grande regenerador dos homens! E o trabalhador da nossa terra, bom por índole, só tem maus pensamentos e maquina na vindicta quando o deixam ocioso e vê seus filhos famintos sem que lhes possa dar pão.

 

Texto publicado por João Ruivo no jornal de Estremoz, Brados do Alentejo, nº 118, 30/3/1933.

[1] Palavra, ao que parece, inventada por João Ruivo, para significar que se trata de uma terra de grande fertilidade, ou seja, ubérrima.

[2] João Ruivo refere quatro freguesias. Ouguela, só em 1941 foi anexada à freguesia de S. João Baptista.

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publicado às 15:48



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