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RETALHO DE HISTÓRIA FAMILIAR

por Francisco Galego, em 10.09.15

A investigação de documentos antigos, de quando em vez, consegue surpreender-nos com a descoberta de coisas e casos que, sem que tal o fizesse prever, nos dizem pessoalmente respeito.

No âmbito da investigação que tenho em curso, com vista à elaboração de uma biografia sobre a grande figura da cultura campomaiorense que foi João Dubraz, tive de ler muitos jornais antigos.

Ao fazer a leitura do jornal A Democracia Pacífica – Jornal Alentejano, publicado em Elvas, no seu nº 92, datado de Domingo, 23 de Agosto de 1868, na sua 1ª página, deparei com a seguinte notícia:

 

Tribunais

). “Dia 13 do corrente, julgamento em Elvas de uma causa de sevícias em que era autora Ana do Carmo Cunha Serra e réu seu marido Joaquim Caetano Cerejo. Foi este o primeiro julgamento de tal espécie na comarca, com o processo novíssimo. (…)

Recolhido o conselho à sala das deliberações com o juiz, o delegado e o escrivão, votou por unanimidade a separação dos conjuges e alimentos provisionais.

A autora, residente em Campo Maior, teve por procurador um advogado provisional daquele julgado” (João Dubraz)

 

Acontece que, sendo o dito advogado o meu biografado, João Dubraz, a autora deste processo, Ana do Carmo Cunha Serra, era a minha trisavó.

Fiquei muito orgulhoso de que, na minha ascendência, tivesse existido uma mulher, pelos vistos a primeira que em Campo Maior, num tempo em que isso seria uma decisão muito difícil, tivera a coragem de enfrentar um divórcio, tendo como motivo atitudes de violência doméstica por parte do marido.

Consegui lembra-me de que, várias vezes, na minha infância, tinha ouvido referências a um tal Cerejo, quase sempre relacionadas com alcoolismo. Lembrei também que minha bisavó tivera duas filhas, Ana do Carmo Serra e minha tia-avó Maria Serra. Mas estas tiveram dois irmãos mais novos, um de nome José que teria morrido muito novo, outro Manuel que eu bem conheci, pois morreu de idade avançada. Mas estes, ao apelido Serra que vinha da mãe, juntaram o apelido Toureiro, do segundo marido da minha bisavó Mariana Serra. Os filhos de minha avó que se chamou, como a sua avó, Ana do Carmo Serra  e que era também mulher de grande “garra”, foram baptizados com o apelido Toureiro de seu pai, incluído nos seus nomes.

 

Nota

O “Tempo” que, para alguns, é apenas uma medida para situar actos e factos, para outros é um fio contínuo de memórias. Quando se trata de reconstituir o passado, o que resta da memória encontra-se nas provas e relatos conservados nos documentos.

Neste caso, o fio contínuo dessas memórias, elabora um conhecimento que é a História. Mas, se o fio contínuo das memórias é elaborado pela sequência de factos referidos a um só individuo, então ele constitui aquilo que se designa como “história de vida”..

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publicado às 09:33


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