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O MODELO DAS FESTAS NOS ANOS DO SÉC. XX - IV

por Francisco Galego, em 04.03.15

O Notícias de Campo Maior, 30 de Outubro de 1927

 

AS FESTAS DO POVO

 

Como se esperava, as festas realizadas nos dias 12 a 14 do mês findo tiveram um brilho e um entusiasmo excepcional.

Pode afoitamente afirmar-se que, as festas deste ano com as de 1923 e as de 1911 [1909], foram as melhores até hoje levadas a efeito em Campo Maior.

Os milhares de forasteiros que nos visitaram, vindos de Elvas, Arronches, Santa Eulália, Portalegre, Évora, Lisboa e outras terras do País e que foram recebidos galhardamente por esta hospitaleira terra, retiraram encantados, imensamente satisfeitos e com o desejo de voltarem no próximo ano, porque das festas levaram as mais gratas recordações.

A Comissão de Festas viu os seus esforços coroados do melhor êxito, tendo cumprido briosamente o programa anunciado, granjeando por isso os maiores elogios de toda a população, que teve quatro dias de festa rija, divertindo-se, gozando, folgando entusiasticamente.

Pode dizer-se pois, que as festas representaram um grande triunfo, atraindo enorme afluência de forasteiros e conquistando para Campo Maior novos louros, para o que muito contribuiu também a cooperação desinteressada das entidades oficiais, da Agricultura, do Comércio, da Indústria e das classes operárias.

Também a activa propaganda da imprensa muito contribuiu para o êxito das festas.

Devemos destacar ‘O Século’, que fez delas desenvolvida reportagem, merecendo aplauso de todos os campomaiorenses e constituindo uma honra para Campo Maior.

O nosso periódico fez quanto pode e preza-se de ter sabido cumprir o seu dever.

Embora com atraso, motivado em circunstâncias diversas, damos hoje um colorido relato das festas, que tantas saudades deixaram no povo desta briosa vila.

No dia 10, à tarde, chegou a ‘Banda União Artística’ de Castelo de Vide que goza nesta vila de gerais simpatias. Foi esperada pela Comissão de Festas, pela ‘Banda Artística Campomaiorense’ e por muito povo, percorrendo depois as ruas da vila dirigindo-se a cumprimentar as autoridades locais e os senhores Viscondes de Olivã.

As festas foram iniciadas com a alvorada na madrugada do dia 11, executando as bandas lindos ordinários pelas ruas, lançando-se ao ar foguetes e morteiros e reinando sempre o maior entusiasmo.

Às primeiras horas da manhã, as ornamentações ofereciam um aspecto encantador.

A missa a grande instrumental e vozes, foi celebrada na Igreja de São João pelo Revº Dr. Gabriel da Costa Gomes, acolitado pelos Rev.os Padres Joaquim Nunes de Andrade e Dr. Martinho Lopes Maia.

            Foi regularmente concorrida, predominando o elemento feminino. A capela da regência do maestro José Cachudo, cumpriu modestamente a sua missão.

A seguir à festa foi ministrada a comunhão a trinta crianças.

A procissão, à tarde foi imponente. Formando alas: as confrarias, as irmandades e crianças da comunhão. Ao palio os Srs. Visconde de Olivã, Dr. João Carreiras, capitão Rodrigues Lavadinho, Domingos Aguiar Serra, João Canhão Botelho e João Sousa Niza. Depois, a banda castelovidense e alguns milhares de pessoas. Nas janelas, das quais pendiam vistosas colgaduras, viam-se lindos rostos femininos, formando um lindo conjunto.

As três touradas tiveram farta concorrência de público, calculando-se a assistência em cerca de cinco mil pessoas, em cada dia. Na do dia 12, o gado, cedido pelo lavrador Sr. Francisco Dias, da Herdade de Xévora, mostrou-se manso e fraco para a lide. Na do dia 13, o gado foi cedido pelo lavrador Sr. Pompeu Corado Caldeira de Elvas. Era mais bravo e fizeram-se algumas pegas rijas, em que se destacaram os moços de Santa Eulália, apaixonados por este género de diversão. O gado do dia 14, do lavrador Sr. Francisco Rasquilha Corado, cumpriu também.

Os arraiais foram deslumbrantes. Povo à farta, calculando-se a assistência em dez mil pessoas. O jardim oferecia um aspecto feérico.

As iluminações vistosas e bem dispostas pelo electricista Sr. Norberto Corado, competente e hábil, produziram belo efeito.

O fogo de artifício do Sr. Amarante, das Mouriscas, agradou imenso e teve fases emocionantes e de surpreendente efeito.

Os concertos musicais agradaram também. Ambas as bandas foram muito aplaudidas. A de Castelo de Vide é um belo núcleo de artistas: execução correcta, firme, belo timbre e sonoridade. Honra a terra. O maestro Cachudo merece todos os aplausos.

A nossa improvisada banda local apresentou-se afinada e executou muito bem o seu repertório. Em menos tempo, não podia fazer mais. Tem bons executantes, mas muita falta de treino. O maestro Sr. Pedro António trabalhou esforçadamente e algo conseguiu digno de encómio.

Nos arraiais, duas importantes deficiências foram notadas por toda a enorme multidão que ali se juntou: o jardim já não comporta o público que ali costuma afluir em dias de festa ou de concerto – urge que a nossa Câmara execute o projecto a que já nos temos referido, de alargamento do jardim, cortando todas as estradas inúteis; a outra foi a enorme poeirada que se levantou do solo movediço. Na pavimentação do passeio deve aplicar-se material que não produza tanta poeira e é de grande necessidade que a Câmara adquira uma auto bomba de regas, da máxima utilidade para a higiene da vila.

A concorrência de forasteiros foi enorme. As hospedarias estiveram à cunha. Os visitantes foram encantados com as ornamentações que se viam em quase todas as ruas e largos da vila, sendo unânimes em elogiar a paciência, a iniciativa e o bom gosto dos habitantes.

As ruas melhor ornamentadas eram as da Misericórdia, Direita, Miguel Bombarda, General Rodrigues da Costa, Pedroso, Afonso Costa, Soalheira, João Rosado e Visconde de Seabra.

O júri constituído pelos Srs. José Costal, Manuel Amâncio, Leopoldo Ruivo, Manuel Lata e João Gonçalves, arbitrou à primeira o 1º prémio de 200 escudos, à segunda, terceira e quarta, respectivamente, o 2º, 3º e 4º prémios de 100 escudos.

O prémio que coube à Rua da Misericórdia, foi distribuído por 40 pobres.

Apesar de ser grande a afluência de público, não se registou o menor incidente. Não houve desordem, não houve um furto, o que prova o carácter ordeiro e correcto do povo campomaiorense. O serviço de polícia foi feito por 24 praças da G.N.R. e 10 guardas de polícia de segurança.

No dia 11, pelas 23 horas, chegou o Sr., general Alves Pedrosa, ministro da Agricultura, acompanhado de um secretário, o qual veio aqui a convite da Câmara Municipal, tendo sido hóspede do respectivo presidente, Sr. Dr. Tello da Gama. Houve recepção solene nos Paços do Concelho, a que assistiu o elemento oficial, algumas senhoras e outras pessoas convidadas para esse fim. O presidente do município apresentou as boas vindas ao ministro, que agradeceu, dizendo-se encantado com a recepção, recebendo em seguida os cumprimentos das pessoas presentes. O Sr. general Pedrosa assistiu no dia seguinte a diversas cerimónias e retirou para Lisboa na madrugada de 13.

Também pelas 7 horas do dia 12 chegou aqui, de volta de Lourdes, o Sr. Arcebispo de Évora, D. Manuel da Conceição Santos, ficando hospedado em casa dos Srs. Viscondes de Olivã, que lhe haviam feito o convite. S. Ex.ª Rev.ma fazia-se acompanhar de Monsenhor Vieira e do Rev.º Dr. Manuel de Sousa Peres e foi cumprimentado pelas entidades oficiais, clero, comissão das festas, etc.

O ilustre prelado celebrou diversas cerimónias nas igrejas da Matriz e de S. João Baptista e regressou a Lisboa no dia 13, à tarde.

No dia 12 foi descerrada uma lápide colocada no lado esquerdo do átrio da Igreja Matriz, contendo os seguintes dizeres: ‘ Aos Srs. Viscondes de Olivã, que restauraram este grandioso templo, salvando-o da ruína com o seu gesto fidalgo, prestam os campomaiorenses a homenagem da sua gratidão’.

A lápide foi descerrada pelo Sr. ministro, tendo discursado, a propósito, além deste magistrado, mais os Srs. Dr. Gama e Carreiras, arcebispo de Évora, Revº Andrade e, por último, o Sr. Visconde de Olivã que agradeceu comovido todas as manifestações.

Dali seguiram todos os presentes para a fábrica de moagem da ‘União Industrial’, a cuja inauguração se procedeu. O acto foi simples. Depois de lançar a bênção aos maquinismos, o prelado eborense proferiu uma breve alocução, enaltecendo o trabalho e formulando votos de prosperidades pela empresa. A seguir, foi servido um abundante copo de água a todos os convidados e accionistas, tendo falado os Srs. general Pedrosa, Dr. Gama e Carreiras, Visconde de Olivã e capitão Rodrigues Lavadinho. A assistência a ambas estas cerimónias foi numerosa, vendo-se entre ela muitas senhoras.

O majestoso templo da Matriz foi muito visitado durante os dias das festas.

Todos os altares estavam lindamente decorados. O trabalho da restauração das imagens foi feito pelo hábil artista campomaiorense e nosso querido amigo Sr. Francisco Xara, diplomado das Belas Artes. Também foram muito admirados os frontais executados pelas hábeis bordadoras Sras. D. Maria da Encarnação Ruivo, D. Mariana do Espírito Santo Daniel e Violante Gonçalves da Cal, que honram a indústria local.

 

 

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