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O MODELO DAS FESTAS NOS ANOS DO SÉC. XX - I

por Francisco Galego, em 23.02.15

Repare-se como na notícia que se segue vão aparecer rebaptizadas as Festas que, desde há muito, Campo Maior organizava em honra de São João Baptista: Festas do Povo. A criação desta expressão genial porque designava a situação real das festas, que já não eram obra de um grupo socioprofissional, os artistas, mas de todo o povo de Campo Maior. A expressão teve como seu criador, o homem que animou a vida cultural de Campo Maior nesta época, João Ruivo. Ele era de facto a alma e o corpo do jornal e foi ele que redigiu todas as notícias que se seguem e se referem às Festas

O Campomaiorense, Ano II, Nº 37, 15 de Setembro de 1922

Festas do Povo

Nos dias 3 a 6 do corrente realizaram-se nesta vila as tradicionais Festas do Povo, cumprindo-se à risca o programa que publicámos no nosso último número.

A banda União Artística de Castelo de Vide apresentou-se com galhardia, com distinção e executou com muito brilho o seu repertório. Muita pontualidade, muita correcção. Castelo de Vide, a Sintra do Alentejo, pode orgulhar-se de ter sido muito bem representada pela sua filarmónica, que teve a gentileza de nos vir cumprimentar. Da janela da casa do nosso amigo Sr. José Ramos, onde se acha provisoriamente instalada a redacção, agradeceu o nosso camarada João Ruivo. Serviu-se um modesto copo-de-água, brindando o nosso camarada Eduardo Ramos e agradecendo em nome da direcção da filarmónica, o Sr. António de Almeida Bucho, que teve também a amabilidade de vir apresentar-nos os seus cumprimentos de despedida. (…)

No primeiro dia, as ruas da vila surgiram vistosamente engalanadas como que numa apoteose de mágica. Cordões de verdura, bandeira multicolores, galhardetes, arcos de triunfo a quebrarem a monotonia dos dias normais.

A destacar, a ornamentação da Praça da República onde o nosso amigo José Valente pôs uma nota de bom gosto; a Rua Miguel Bombarda, ornamentação dirigida pelo hortelão Mourato, bom velhote, com grande jeito para coisas bonitas; a Rua da Misericórdia e a de Pedroso; o labirinto do Largo do Barão de Barcelinhos; as entradas da Rua Major Talaya; as iluminações à veneziana da Rua 13 de Dezembro e à moda do Minho da Rua da Poterna; as varandas do Srs. Manuel Joaquim Correia, Diogo Chouriço, Manuel Prateiro e João Gonçalves Júnior, artisticamente ornamentadas.

Festa de igreja regularmente concorrida de senhoras; sermão péssimo como obra literária e como meio de propaganda religiosa. Procissão com numeroso acompanhamento de gente do povo; as janelas apinhadas de senhoras a verem passar.

Três touradas à vara larga, características, regionais, Alentejo puro. Muito sol, animação, interessante matiz de cores, pitoresco desde a construção da praça à disposição do povinho pelo círculo de carros. Algumas caras bonitas nos camarotes. Gado regular e menos trambolhões do que no ano passado. O núcleo de ‘caixeirato’ local, apresentou-se em quadrilha com uma capa que não teve ocasião de servir por motivo do gado ser fraco. Um verdadeiro sucesso…

A última tourada foi em benefício da Misericórdia. Todos os proprietários de camarotes os cederam gratuitamente apesar da maior parte não ter sido feliz na receita dos dois primeiros dias, que quase não deu para a despesa. O Sr. Pedro Ruivo, além de ceder o camarote, ainda pagou os bilhetes para todas as pessoas da sua família. O serviço de venda de bilhetes, fiscalização, etc., foi todo feito por elementos categorizados da vila, cujos nomes nos é impossível mencionar neste pequeno relato. A comissão de festas não quis ter a gentileza de ter convidado nosso jornal para o seu camarote. Escusado será dizer que ‘O Campomaiorense’, não deixaria de pagar o lugar do seu representante em todas as touradas, mesmo que fosse convidado.

Arraiais muito concorridos. Vimos muitos forasteiros. O fogo de artifício pouco e fraquito, por falta de verba para coisa de mais efeito. Culpa de quem não contribui como deve para festas tão interessantes. Muitos bailes populares, onde os camponeses alentados e as moçoilas de trajos garridos se desafiavam em quadras singelas, numa toada lenta, que revela a índole bonacheirona do nosso povo. Iluminação deficiente no jardim. Será bom que, nos anos futuros, as comissões das festas tomem em conta este pormenor.

Serviço de policia regular… as festas decorreram sem incidentes desagradáveis. Não houve uma única desordem; o povo comportou-se à altura…

As festas terminaram deixando as melhores e mais gratas impressões. A comissão de festas, à parte pequenas falhas devidas à influência do meio, merece um louvor pelo trabalho extenuante e sacrifício que representa o seu esforço e boa vontade.

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publicado às 09:24



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