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NOTÍCIAS ANTIGAS DE CAMPO MAIOR (2)

por Francisco Galego, em 15.09.19

 

FOI HÁ 287 ANOS:

NOTÍCIA DO LASTIMOSO ESTRAGO QUE, NA MADRUGADA DO DIA 16 DE SETEMBRO DO ANO DE 1732, PADECEU A VILA DE CAMPO MAIOR, CAUSADO PELO INCÊNDIO COM QUE UM RAIO, CAINDO NO ARMAZÉM DA PÓLVORA, ARRUINOU AS TORRES DO CASTELO E, COM ELAS, AS CASAS SA VILA.

Escrita por António Dias da Silva e Figueiredo, natural da mesma vila.

Campo Maior, antiga povoação que, dividida primeira em duas pequenas aldeias, torna ociosa a disputa de quem foram os seus primeiros fundadores, e bem fundada a conjectura de que o acaso lhe deu o nome, quando se conjecturava a eleição do lugar para onde se havia de estender a povoação unida, terminando a controversia com o ajuste de que seria para o Campo Maior que se devia continuar a vila.

Por doação del’rei D. Afonso o Sábio, aquando do casamento de sua filha, a infanta D. Brites, a vila foi separada de Castela e unida à Coroa Portugal, para nunca mais dela sair.

El’rey D. Dinis, o primeiro a cuja posse veio, enobreceu-a com o foral de vila e fortificou-a com um vistoso castelo, no ano de 1310, o qual, fundado em sítio eminente, parece que estava, desde então ameaçando a ruina da mesma vila (...)

Seis pequenas torres acompanhavam uma grande a que chamavam  a da homenagem que tinha de altura pouco mais de 160 palmos e de circunferência 240. No seu interior, além de um grande armazém de munições de guerra, sobrava campo para um largo caminho que, por suave subida conduzia a um espaçoso eirado, do qual se descortinava até à distância de muitas léguas. Tinha uma abóboda tão forte, toda de cantaria à prova de bomba e de tanta grossura que, sobre ela, laboravam duas peças de artilharia de bom calibre que se conservaram até aos primeiros anos das guerras de 1704 em que se experimentaram e que, com os seus tiros, causaram grande abalo nas casas, tendo por isso sido descidas para outro lugar.

Este castelo era cercado por uma povoação de 1.076 fogos, nos quais se contaram, neste ano, 5.743 pessoas.

A povoação é guarnecida por uma forte e moderna muralha, defendida por 9 baluartes, um orelhão e uma praça baixa. Tem duas portas principais e uma falsa, um fosso coberto já em grande parte por uma contra escarpa e com um lago que a cobre numa parte desse fosso.

Esta forte Praça-de-armas está situada nos últimos confins do reino, como árbitra dos sucessos de guerra. Dista três léguas da cidade de Elvas, pela parte do Meio-dia e outras três de Badajoz, pela parte do Nascente. São fortíssimas praças que fazem com que os reinos de Portugal e da Andaluzia se respeitem mutuamente. Sempre leal ao seu rei, rebateu, desde as antigas guerras, os ímpetos dos inimigos.

No ano de 1712, coroou os seus triunfos com a fortíssima resistência que, durante 34 dias, se opôs ao numeroso exército de Castela o qual, sob comando do Marquêz de Bay, tentou a conquista desta Praça para fortalecer a sua posição, nas capitulações das pazes que brevemente se concluiram, tendo as muralhas de Campo Maior sustido o ímpeto das armas de Castela mantendo sempre firmes as Quinas de Portugal.

Se a natureza a dotou com a fertilidade dos seus campos, a Graça Divina a tornou também fecunda de insígnes heróis em santidade, nas letras e nas armas. Nela nasceram dois esclarecidos santos, fundadores de duas instituições sagradas: o Beato Amadeu, na vida secular chamado D. João de Menezes da Silva e sua irmã a Beata Brites da Silva, exemplos de santidade e nobreza.

Pode-se também dizer que, no ano de 1521, a vila foi de novo povoada porque os seus moradores, por aviso do Céu, foram restituidos às suas casas, donde a peste os fizera fugirem, durante os dois anos que infestou o país.

O “Grande Baptista” deu o aviso de que tinha acabado o contágio, aparecendo a um Gonçalo Rodrigues, iluminado para que convecesse o seus naturais a voltarem para Campo Maior, deixando o lugar em que se tinham refugiado, a quase uma légua da vila, retribuindo o milagre com a construção de uma igreja.

Mas, deixemos em silêncio outras glórias de Campo Maior, para descrevermos o grande desastre que sofreu na madrugada do dia dezasseis de Setembro de 1732.

Desde o dia 14 de Setembro começou o céu a dispor-se para este estrago, encapotando-se na primeira noite os ares e fuzilando com alguns relâmpagos os quais, acompanhados de trovões, causaram muito sustos que não passaram de ameaços.

 Chegou enfim a tristíssima noite de dia 15 que havia de reduzir a cinzas aquela máquina que, por quase cinco séculos, resistiu às injúrias do tempo e aos combates da guerra. Principiou com a carranca dos ares a atemorizar os corações, anunciando-lhes com alguns trovões a ruína em que, daí a poucas horas, se haviam de encontrar sepultados. Seriam as 3 horas da madrugada quando, cruzando-se duas trovoadas, uma da parte do Poente, outra da parte do Meio-dia, fizeram despertar com horríveis trovões os moradores. Quase uma hora durou o horror da tormenta em que as duas trovoadas pareciam travar um combate disputando qual delas devia assolar a vila. Até que, unindo as suas forças num horrível estampido, saiu de uma nuvem o fogo que tinha sido concebido por tamanha ira. Caiu o raio na torre maior, ignorando-se de que parte a feriu. Uniu-se o fogo vindo do céu ao da terra quando rebentaram as bombas, granadas e pólvora que se guardavam no interior da torre. Havia nela 5.732 arrobas e 6 arráteis de pólvora, 4.816 granadas ordinárias, 830 granadas reais, 711 bombas, 2.575 granadas desatacadas. Tudo isto com o seu impulso deu ruína ao castelo e sepultura à vila.

Ateando-se o fogo do raio em tanta, tão arrumada e tão activa matéria, arrancou dos alicerces a torre de menagem e com ela mais quatro das seis torres pequenas. A este estrago seguiu-se o da vila: primeiro pelo impulso violento da explosão; depois pelo chuveiro de pedras, algumas de notável grandeza, despedidas do castelo arruinado.

Com o repentino abalo e ruína de suas casas, os assustados moradores que ficaram vivos pensaram, cada um deles, que era apenas o seu estrago particular, ou seja, o que um raio tinha feito na sua própria casa. Até que, clamando uns por misericórdia, outros por confissão e outros por socorro, entenderam que se não podiam valer uns aos outros porque a ruína era de todos. Mas, no princípio, no meio da confusão e do horror, ignoravam qual tivesse sido verdadeiramente a causa.

O impulso foi tão violento que as casas caíram ao mesmo tempo parecendo que disputavam umas às outras o terreno para se derrubarem. Ficaram arruinadas 840 casas e mesmo as poucas que resistiram ao estrago, tiveram seu dano em telhados e portas. Foi tal o impulso que, mesmo as portas que não estavam voltadas para o castelo, foram violentamente arrancadas das suas ombreiras. Serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficaram de pé o grande edifício da Igreja Matriz que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abobada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abobadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto.

O mais sensível estrago foi o que padeceu a Igreja, Convento e Hospital de S. João de Deus, onde não ficou casa alguma que não padecesse ruína. Mas o mais lamentável foi o que ofendeu o mais sagrado. Porque, caindo o tecto da Igreja e quebrando o Sacrário onde estava o Santíssimo, se achou a Ambula fora do seu lugar e as formas consagradas caídas em terra e despedaçadas, ainda que juntas debaixo da hóstia grande que ficou inteira.

A Misericórdia e Hospital desta vila também tiveram o seu dano.

Maior dano experimentou o Convento de São Francisco, onde não ficou porta inteira, nem mesmo a mais interior, abrindo grandes roturas nas suas abobadas as muitas e grandes pedras que sobre elas caíram. Arruinou-se também o frontispício da sua Igreja, obra recém acabada, caindo em terra a imagem de Santo António que estava nesse frontispício, tendo caído os pedaços na cabeça de um pobre homem que procurava refúgio no espaço sagrado da Igreja, provocando-lhe a morte.

Como a veneranda imagem do grande Baptista estava depositada na pública capela, que tem nas suas casas o governador desta praça, por estar demolida a Igreja do Santo devido ao projecto de se edificar uma nova, maior e de melhor arquitectura, foi aquela capela a única que foi respeitada pela ira do céu, pois que, caindo grandes pedras nas casas do governador, com grande dano, nem de leve elas ofenderam o lugar onde estava o Santo, ficando ilesa toda aquela numerosa família do governador. Benefício que também experimentaram todos os irmãos que, no presente ano, servem na mesa do Santo.

Confessamos que também a Ermida do invicto Mártir S. Sebastião, que está num baluarte da muralha, não sofreu ruína, mas não é tão notável o prodígio por ficar numa parte para onde não se encaminhou o ímpeto da explosão.

Dentro do próprio castelo, sofreram ruína os “armazéns de outras provisões de guerra” e ainda duas torres que ficaram em pé, sofreram seu dano ficando descoberta uma que conservava em si alguns barris de pólvora, os quais não rebentaram. Também ficou isenta de estrago uma pequena capela que a devoção dos moradores desta vila tinha erigido a uma pintura do Padre Eterno, que se achou quando se demoliu a antiga Igreja que fora matriz desta vila e que depois foi, por alguns anos, ocupada pelos religiosos de S. Francisco. Esta imagem é muito venerada pelos frequentes prodígios que obra.

Ficaram também demolidas as casa da Câmara e a cadeia desta vila.

A fortificação sofreu seu dano, principalmente nas portas da Praça que, sendo fortíssimas, foram arrancadas como impulso da explosão. Tão activa foi ela que, estando três canhões desmontados e quase subterrados junto do reduto, arrancou dois do chão e arrojou-os para fora das muralhas. O mesmo sucedeu a dois morteiros que estavam junto da porta do castelo.

Mesmo à distância de quatro léguas se fez sentir o efeito da explosão pois os moradores de Arronches e Albuquerque deram notícia de terem sentido, nessa hora, um extraordinário abalo nas suas casas.

Observou-se que em todas as boticas que há nesta vila ficaram isentas de estrago, havendo mesmo algumas que não sofreram dano apesar de ter caído o tecto das casas em que estavam. Parece que o Céu, depois de dar o golpe para nossa emenda, teve providência em conservar ilesos os remédios para a cura. Assim se conjectura que, apesar de ter desembainhado a espada, não descarregou o seu golpe com toda a violência. Porque, sem tantos prodígios, não podiam tantos ter escapado com vida no meio da total ruína das suas casas. Apesar de ter havido famílias inteiras em que todos ficaram mortos, foi muito maior o número dos que saíram das mesmas ruínas sem qualquer lesão, causando admiração o modo como, sem advertência, evitaram o perigo.

Não se pode averiguar o número certo das pessoas que morreram nesta ruínas. Alguns estimam que chegaram a duzentas. As de que temos certa notícia pelo distribuidor da Igreja e que rondam as duzentas, são as seguintes:

- Na Igreja Matriz enterram-se 76 pessoas de comunhão e 28 crianças pequenas;

- No Convento de S. Francisco, 17 crianças pequenas;

- No Hospital de S. João de Deus, 6 soldados e uma criança pequena;

- Na Misericórdia, enterrou-se apenas o seu provedor Francisco Pires Cotão que foi a pessoa principal diante do Regimento de Cavalaria e um sargento de Infantaria;

- Morreu também um religioso de S. João de Deus, chamado Frei José de Santa Catarina, sacerdote, confessor, a quem, partindo-lhe uma pedra a cabeça e lançando-lhe fora os miolos, não rompeu a túnica em que estavam metidos, de sorte que, pondo-lhos outro religioso no seu ligar e unindo-lhe a cabeça, ficou tão composto como se não tivesse lesão alguma; era religioso de vida exemplar;

- No Convento de S. Francisco morreram 3 dos monges que estavam orando no coro – o padre Frei Pedro de S. Boaventura, pregador, que logo ficou morto; o padre pregador Frei António das Chagas, que ainda pôde receber a extrema-unção; o padre confessor Frei António de S. Faustino, a quem uma pedra quebrou ambas as pernas e molestou de sorte que durou poucas horas; ficaram gravemente feridos mais três religiosos da mesma comunidade;

- Morreu também o padre Domingos Gonçalves Pires, mestre de latim nesta vila, de idade de quase70 anos, mas em todos de tão justificado procedimento que, desde menino, se não soube dele nem a mais leve verdura.

- E, fazendo-se reflexão sobre todas as pessoas que morreram, acha-se serem quase todas elas timoratas e de boa consciência. E, observou-se em especial que se achava coberto de cilicio o corpo de uma bem morigerada donzela que morreu nesta desgraça.

Estes são os mortos de que se fez especial memória, mas, fora deles, se enterraram muitos outros, muitos pela piedade de seus parentes e amigos de que se não pode saber o número certo, porque a mesma piedade que o fazia o ocultaria.

Sabe-se contudo (e pode este número acrescentar-se ao dos mortos) que, constando ao Doutor Juiz de Fora que passavam de 20 os mortos que estavam, no segundo dia, no Hospital da vila e que os seus cadáveres tinham corrupção, os mandou conduzir e sepultar à sua custa, a cujo enterro assistiram clérigos castelhanos.

Além disso, teme-se que estejam alguns sepultados nas ruínas das suas casas, como sucedeu a uma menina de tenra idade, a qual, depois de 4 dias foi desenterrada, mas ainda viva que ainda hoje existe.

Os mais gravemente feridos, que ainda hoje se estão curando, são 302, sendo incomparavelmente maior o número dos feridos leves que não chegaram às mão do cirurgião e outros que procuraram remédio nas terras circunvizinhas, buscando amparo de parentes e amigos, cujo número, prudentemente, se conjectura chegar aos 2.000.

Pouco antes do amanhecer do dia 16, começou a tomar conhecimento de que tinha voado a armazém da pólvora e de que, a ruína das quatro torres, tinha causado a ruina da vila. E isto levou a tomar consciência da situação, acrescetando-se o facto de consatar que ainda havia o perigo de mais fogo no castelo, ignorando-se se teria sido consumida toda a pólvora que nele se guardava.

A isto acudiu a prudência de Estêvão da Gama de Moura e Azevedo, Brigadeiro de Sua Majestade e Governador, mandando tocar a recolher a guarnição da Praça para que acudisse ao que necessitasse de mais pronto remédio. Foram poucas as casas que escaparam do estrago, sendo que todas foram danificadas.

Houve também muito cuidado da parte do Juiz de Fora, Doutor Simão da Costa e Medanha, que prontamente tratou de que se acudisse a fazer desenterrar os que estavam debaixo dos escombros, chegando mesmo a acolher algumas pessoas na sua casa, repartindo roupas, e esmolas aos mais necessitados.

Por todo o lado se viam pessoas procurando acudir aos feridos e desenterrando os mortos. Muitos começaram logo a procurar sair da vila em busca de socorro.

         O Conde de Alva, Governador das Armas da Província do Alentejo, acudiu com cirurgiões de Elvas, Portalegre e de Olivença, medicamentos, picaretas e outros instrumentos para remoção das ruinas. Vieram logo muitos religiosos das terras próximas em socorro dos necessitados.  

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Nota: Descrição feita por um monge que, vivendo num convento em Lisboa e tendo vindo visitar a sua família, em Campo Maior, assistiu à dramática situação que descreve neste texto.

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