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NOTAS SOBRE O JORNALISMO CAMPOMAIORENSE

por Francisco Galego, em 04.12.15

           O primeiro jornal que Campo Maior teve apareceu no ano de 1921, vivia Portugal um período agitado e de grande instabilidade social e política. Os governos mudavam devido a uma alucinante sucessão de golpes-de-Estado, de revoltas, de desencontradas votações no parlamento.

            Muito desencantados e cansados de tanta perturbação, os portugueses procuravam formas alternativas de intervenção social desviando-se da turbulência dos acontecimentos políticos.

             As povoações viviam muito fechadas sobre si mesmas. O isolamento gerava a tendência para buscar soluções e formas de vida que as dotavam de uma acentuda autosuficiência, procurando cada uma produzir aquilo de que mais necessitava.

         Um grupo de jovens campomaiorenses que viriam a constituir-se numa associação que significativamente adoptou o nome de Pró Terra Nostra, (Pela Nossa Terra), resolveu criar um jornal – O Campomaiorense em torno do qual se pudessem realizar acções que promovessem o desenvolvimento cultural de Campo Maior. Eram jovens que podemos considerar de classe média, com algumas bases culturais, distribuídos por diversas profissões e condições sociais: Funcionários públicos, comerciantes e empregados no comércio, agricultores, estudantes e, muitos deles, dedicados aos ofícios artesanais que então existiam em número significativo na vila. O nivel de vida das famílias, os ofícios e o terem frequentado a escola, separava-os da massa dos assalariados agrícolas. A diferença de fortuna, distanciava-os das famílias dos grandes proprietários.

            O Campomaiorense foi o primeiro jornal que Campo Maior teve. Este projecto fez-se sob a liderança de um homem que marcou profundamente a vida política e cultural de Campo Maior durante os anos vinte do século passado. Chamava-se João Ruivo. Era filho de um mestre-de-obras que deixou algumas construções notáveis na vila, como o Lagar União - frente ao actual hotel Santa Beatriz - já desaparecido e o Bairro Operário. O próprio João Ruivo começou por se dedicar à profissão de seu pai que tinha enraizada tradição na sua família.

           João Ruivo, que se destacara como militante dos ideais republicanos e que tinha combatido como voluntário na 1ª Grande Guerra, tendo sido sido condecorado pela sua sua acção como militar, regressado à sua terra, exerceu funções importantes como funcionário da câmara municipal, onde chegou a chefiar os serviços administrativos e a ocupar, por algum tempo, o cargo de administrador do concelho. Autodidacta, inteligente e aplicado, conseguira adquirir uma sólida cultura. Foi correspondente de vários jornais de Lisboa, entre eles “O Século” e o “Diário de Notícias”. Colaborou depois em vários jornais regionais como “Brados do Alentejo” de Estremoz, “Montes Claros” de Borba, “Democracia do Sul” e “Notícias D’ Évora”, “A Fronteira” e “Linhas de Elvas” da vizinha cidade de Elvas.

           João Ruivo foi a alma do jornal O Campomaiorense, numa primeira fase de publicação que durou de 1921 a 1923. Durante este período o jornal procurou manter-se imparcial, perante as questões partidárias. Embora João Ruivo fosse um activo militante republicano, era seu entendimento e sua prática que o jornalismo devia usar do máximo de neutralidade e democraticidade mantendo-se equidistante em termos de opiniões políticas.

            A falta de recursos económicos, o peso excessivo das despesas e a fraca adesão dos leitores numa terra onde imperava o analfabetismo, ditaram a necessidade de procurar uma solução que viabilizasse a continuação do jornal.

            Outro grupo de jovens, quase todos ligados a famílias de grandes proprietários agrícolas, alguns com cursos superiores, tomaram o encargo de fazer sair o jornal. Começou assim a 2ª fase da sua publicação que iria durar de 1924 a 1927. Este grupo agia sob a liderança do Dr. Francisco Telo da Gama, personalidade que, durante muito tempo, marcou profundamente a vida de Campo Maior, na chefia do município, como governador civil do distrito , chegando mais tarde, no promeiro período do Estado Novo, a ocupar um cargo como membro do governo.

             A partir de certa altura, a colagem do jornal a tendências que pugnavam por soluções políticas de carácter autoritário, levou João Ruivo, o antigo grupo fundador, a reagir, criando outro jornal – o Notícias de Campo Maior – ficando assim a vila com dois jornais nos anos de 1926 a 1928.

            Depois, seguiu-se a Ditadura Militar que resultou da vitória do golpe levado a efeito por militares em 28 de Maio de 1926. A acção inibidora da censura, a suspensão das liberdades democráticas e a saída de Campo Maior de João Ruivo, ditaram o encerramento do Notícias de Campo Maior, a partir 1 de Junho de 1929.

            O Campomaiorense que já tinha suspendido a sua publicação em 14 de Abril de 1928, voltaria a publicar-se nos anos de 1933 a 1935, então já com um total alinhamento com o Estado Novo e com a ideologia salazarista.

             Entretanto, já na fase posterior ao 25 de Abril, apareceram outros jornais em Campo Maior como A Palavra que se publicou desde 30 de Janeiro de 1988 ao último trimestre de 1989 e o Jornal Campo Maior no início dos anos 90. Em 16 de Outubro de 1996 reapareceu o Notícias de Campo Maior, por iniciativa da empresa proprietária do Linhas de Elvas, que o manteve em publicação até 2005.

            Contas feitas, o Notícias de Campo Maior foi o jornal que se publicou durante mais tempo em Campo Maior.

              Na sua fase final, no ano de 2003, este jornal mudou o título para Região em Notícias - Campo Maior.

            

(Texto elaborado, revendo outro publicado em Abril de 2006, por Francisco Pereira Galego)

 

                                                                        

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