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NA APRESENTAÇÃO DE "VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ

por Francisco Galego, em 21.01.18

Vou tentar recomeçar de maneira a ligar esta nossa conversa, a outra que eu fiz, no passado dia 16 de Setembro, ao apresentar uma obra em dois volumes intitulada – Campo Maior na Obra de João Dubraz – porque, efectivamente, este livro que agora apresento, é o último da trilogia dedicada à Vida e Obra de João Dubraz.

Assim sendo, permitam-me que antes recorde uma frase do filósofo e escritor, Jean Jacques Rousseau, que viveu entre os anos de 1712 e 1778.

Escreveu ele que:

A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que a dos seus discípulos; pois é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que ainda não se sabe.

Aí têm a razão porque eu fui entendendo que, a arte de ensinar consiste principalmente, em adquirir a capacidade de fazer perguntas para, com as respostas adequadas, podermos adquirir os conhecimentos que nos são necessários.  

Assim, voltando a falar de João Dubraz, coloco hoje novas perguntas:

- Quem foi João Dubraz?

- O que fez de notável?

- Que importância teve a sua acção no tempo em que viveu?

- Que valor têm hoje os seus escritos, para melhor conhecermos a História e a Cultura de Campo Maior?

 

Estas perguntas apontam para o objectivo fundamental da obra que agora apresento que o é de:

- Analisar a imensidade de escritos que João Dubraz produziu, para o podermos conhecer, como homem, como cidadão, como intelectual e, ao mesmo tempo, ficarmos a conhecer os factos mais notáveis da História, da Cultura e das condições de vida, em Campo Maior, no século XIX.

Por isso, como o seu título - Vida e Obra de João Dubraz – indica, a obra que agora apresento, tem como primeiro e mais importante objectivo, tentar responder da maneira mais apropriada, mais completa e mais fundamentada que me for possível, a estas e a outras perguntas que possam ser formuladas.

 

Vou, portanto, avaliar a vida e a obra de alguém que fui conhecendo durante muitos anos, ao ler e analisar os muitos textos que ele tinha escrito e publicado e que eu depois, fui descobrindo e divulgando.

 

Devo, porém, confessar que, quanto mais ia aprofundando o meu conhecimento, mais ia crescendo a minha admiração pelo homem que produzira os textos que eu ia lendo.

 

 

 

 

Chamava-se João Dubraz. Era filho de um comerciante com loja aberta no então chamado “Terreirinho”, vulgarmente conhecido como o “Terreiro”, e que, actualmente, tem o nome oficial de Largo Barão de Barcelinhos. Tendo, desde muito novo, aprendido a ler e a escrever, dedicou-se, com tanto empenho à leitura e ao estudo que, atingiu um nivel impressionante de conhecimentos e de importantes informações em várias e vastas áreas do saber.

Nos seus escritos, não fez qualquer referência aos professores que poderá ter tido. Mas, podemos calcular que, naquele tempo, os seus primeiros professores, terão sido frades do Convento de S. Francisco. Naquela época, os que assumiam a função de ministrar o ensino básico às crianças entre os seis e os doze anos de idade, eram designados como “os gramáticos”. É interessante lembrar que, a pequena rua que liga a Rua Direita ao Largo da Misericórdia, era antes chamada a Rua dos Gramáticos.

É, portanto, muito provavel que, o jovem João Gonçalves Brás – pois este era o seu nome de baptismo – tenha feito o essencial da sua aprendizagem, com esses “gramáticos”. A única indicação que temos é a de que, por volta dos dez anos de idade já saberia ler e escrever razoavelmente. Foi o próprio João Dubraz que, nas suas memórias, deixou disso testemunho. Quanto à sua aprendizagem, podemos também considerar a possibilidade de ter recorrido aos ensinamentos de D. Diego Muñoz Torrero ou de algum dos discipulos que este deixara em Campo Maior.

Este sábio bispo espanhol, que esteve exilado nesta vila, entre os anos de 1823 e 1828, para sobreviver, dava aulas de filosofia, de latim e de francês. Ora, na verdade, João Dubraz tinha um razoável conhecimento em todos estes domínios.

  1. Diego Muñoz Torrero era uma das figuras mais notáveis de Espanha. Ainda muito jovem, fora ordenado sacerdote e, pelo seu valor intelectual, adquiriu tal notabilidade que foi convidado a assumir o lugar de professor catedrático de Filosofia na Universidade de Salamanca, tendo sido depois eleito seu reitor.

Mais tarde, fora escolhido para bispo de Guadix, na província de Granada.

Mas, porque era o tempo da Inquisição e a Igreja era então muito repressiva, o papa Pio VII negou-lhe o beneplácito, impedindo-o de assumir a função episcopal. A razão desta atitude explica-se pelo seu empenhado envolvimento na defesa dos ideais liberalistas, por defender a extinção da Inquisição em Espanha e por se ter destacado na elaboração dos princípios fundamentais da chamada “Constituição de Cádiz”, a primeira constituição liberalista espanhola, aprovada em 1812 e que muito influenciou a Constituição Portuguesa de 1820, a nossa primeira constituição liberalista.

Perseguido pelos absolutistas, quando estes tomaram o poder, D. Diego Muñoz Torrero refugiou-se em Portugal para escapar à prisão e à quase certa condenação à pena de morte.

 

 

Fixou residência em Campo Maior, terra de fronteira, entre 1823 e 1828, ou seja, até que os absolutistas tomaram o poder, em Portugal, tendo-se D. Miguel proclamado rei absoluto. Começou então um tempo de perseguições que originou uma terrível guerra civil, que durou desde 1828 a 1834.

  1. Diego Muñoz Torrero foi então preso e encarcerado na torre-prisão de S. Julião da Barra, no concelho de Oeiras, junto ao Tejo. Em salas subterrâneas que eram por vezes inundadas pelas águas que chegavam a subir até à cintura dos presos, acumulavam-se pessoas de todas as classes e condições sociais. Aí, devido aos maus tratos sofridos, morreu D. Diego Muñoz Torrero, no ano de 1828, tendo sido sepultado, em campa rasa, num terreno junto à torre que lhe servira de prisão.

Mas, era tal a notabilidade de D. Diego Muñoz Torrero que, quando os liberalistas voltaram ao poder, o governo espanhol reclamou a entrega dos seus restos mortais que foram transferidos para o cemitério de S. Nicolau em Madrid e, mais tarde, em 1912, foram trasladados para o Panteón de Hombres Ilustres, onde estão os restos mortais das figuras mais notáveis de Espanha.

Ora, assim sendo, poderá ter sido, primeiro com o bispo e depois com algum dos seus discipulos, que João Dubraz adquiriu as bases que lhe permitiram ter bons conhecimentos de gramática, conhecer bastante bem o latim e de ler e escrever com desenvoltura o francês.       

        

Talvez por isso, mais tarde, quando começou a escrever e a publicar os seus escritos, afrancesou o nome, adoptando como pseudónimo, o nome de João Dubraz, aproveitando o facto de ser conhecido como o João, filho do Braz.

Mas, na verdade, João Dubraz foi principalmente um verdadeiro autodidata, pois que, pelo seu próprio esforço, conseguiu adquirir um elevado nível de formação cultural.

 

Voltando à crescente admiração que fui sentindo pela obra de João Dubraz, convém esclarecer que, quando quero avaliar alguém, parto sempre do princípio de que não há homens, nem mulheres perfeitos, pois que, em todas as pessoas encontramos qualidades e defeitos. Por isso, quando me proponho fazer a avaliação de uma pessoa, faço-o numa espécie de “balança mental”, comparando os seus defeitos com as suas virtudes.

 

Os resultados configuram-se-me de três maneiras:

- Há casos de acentuado desequilibrio devido ao maior peso dos defeitos;

- Noutros, é maior o peso das virtudes;

- E noutros, fica a balança mais ou menos equilibrada.

 

Vem isto a propósito de tentar explicar a razão porque, durante tantos anos, dediquei tanto do meu tempo a tentar descobrir, analisar e compreender, os documentos criados pelo homem que é a figura central deste livro que aqui apresento hoje.

Não foi tarefa fácil. Mas, porque o que deve ser feito, deve ser bem feito, fui ultrapassando os obstáculos que me foram surgindo. Finalmente, a grande dificuldade foi a opção, tomada por João Dubraz - e por ele rigorosamente cumprida -, de falar muito pouco de si, e quase nada dos elementos da sua família.

Mas, voltando à avaliação que fui fazendo do homem João Dubraz, a “balança” pendeu sempre mais para o lado das virtudes, ficando quase vazio o dos defeitos.

<<<<<>>>>> 

Essa é uma das razões porque considero que foi importante e muito gratificante o ter-me dedicado ao conhecimento do que foi a sua vida e da obra que nos deixou. Devido a isso, não hesito em afirmar que, considero que João Dubraz foi um homem de um valor excepcional e uma das figuras que mais elevou e divulgou o nome desta “mátria”, ou terra-mãe, onde muitos de nós, os que agora aqui estamos, fomos gerados e criados. E isto é ainda mais importante, se consideramos que João Dubraz viveu num tempo em que não era nada fácil proceder da maneira que escolheu como o seu modo de vida.  

 

Devemos também tomar em consideração que, uma grande parte daquilo que escreveu, se destinava a ser publicado nos jornais que foram existindo na cidade de Elvas, havendo mesmo períodos em que, era quase só ele quem produzia a maior parte dos textos que compunham esses jornais.

Talvez tenha sido essa a razão para que, quando em Campo Maior começaram a perseguí-lo, atacando-o e difamando-o, tenham sido alguns dos mais destacados vultos da cultura elevense – à frente dos quais se colocaram Vitorino d´Almada e António Tomás Pires – que, em textos publicados em Dezembro de 1883, nas páginas do jornal “O Elvense”, vieram em sua defesa, denunciando, a má-fé das calúnias, a falsidade, a ingratidão e a injustiça dos ataques que lhe dirigiam.

Entre outras, estas foram a razões de eu ter concluido que, tomando em consideração o seu valor, seria muito justo que me dedicasse a dar a conhecer os aspectos mais importantes relatados nas obras de João Dubraz que considero um dos nomes mais ilustres da Cultura e da História de Campo Maior.

 

Mas, convém entender claramente que procurei sempre enquadrar este trabalho no domínio da investigação histórica que, como sabemos, cuida apenas de analisar e tentar dar a conhecer os factos e as personagens que pertencem ao passado.

 

Logo, daí resulta que fica excluida qualquer comparação com os que ainda vivem, por mais importantes que possam ter sido, sejam, ou que venham a ser, no desenvolvimento, na divulgação e na notabilidade desta nossa terra. Para aqueles que ainda vivem, o futuro cuidará de que, outros, pertencentes às novas gerações, chegada a sua vez, cumpram a missão de os estudarem e de darem a conhecer o valor das obras que realizaram.

Mas, voltemos, a João Dubraz, pois que é por ele e pela sua obra, que aqui estamos reunidos neste momento. Ele é, sem dúvida, digno de grande destaque, não apenas por aquilo que realizou em vida, mas também pela influência com que, mesmo depois da sua morte, tanto marcou as gerações que se lhe seguiram. Não foi por acaso que, depois dele, se formou uma pequena elite cultural que teve uma importante intervenção nesta vila de Campo Maior, com a criação de filarmónicas, associações recreativas, clubes de futebol e mesmo de dois jornais locais: o Campomaiorense e o Notícias de Campo Maior.

 

Durante anos, fui recolhendo informações. Mas só recentemente, me pude dedicar mais intensamente a este projecto, pois que, na situação de reformado e tendo voltado a residir em Campo Maior, pude dispor de mais tempo e de ter mais fácil acesso a importantes documentos existentes nas bibliotecas e arquivos de Elvas e de Portalegre.

 

Durante um período relativamente extenso, pude aí recolher dados que foram enriquecendo os meus conhecimentos, permitindo-me desenvolver o trabalho em curso e poder elaborar as obras que fui publicando nestes últimos anos.

Convém assinalar que o objectivo principal do livro que agora apresento, foi dar a minha contribuição para que seja assinalado o “Bicentenário” do nascimento de João Dubraz que nasceu em Campo Maior no início da madrugada do dia 21 de Janeiro de 1818, tendo falecido, nesta sua mátria, com 76 anos de idade, em 24 de Setembro de 1895.

 

 

Na obra apresentada no passado mês de Setembro, incluí os escritos publicados por João Dubraz no seu livro intitulado Recordações dos Últimos Quarenta Anos, do qual se esgotaram rapidamente as duas edições publicadas em 1868 e 1869. 

Na primeira parte dessa obra foram referidas as memórias históricas, ou seja, os factos memoráveis da história militar da importante praça de guerra que Campo Maior foi até meados do séc. XIX.

Na segunda parte foi feita a narrativa dos factos em que ele, João Dubraz, participou como militante político, envolvendo-se como combatente voluntário na milícia liberalista e chegando a ser empossado na função de administrador deste concelho.

 

 

Foi devido à sua acção política que, sem acusação, sem culpa provada e sem ter sido julgado, foi mandado para a cadeia civil de Elvas, onde ficou preso durante cinco meses e só recuperou a liberdade graças a ter congeminado um hábil plano de fuga.

 

 

Neste momento, em que aqui estamos a apresentar outro livro que, significativamente, tem o título de VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ, temos que mudar o âmbito e a perspectiva desta apresentação, pois que, o livro que agora se apresenta, tem como objectivo fulcral, comemorar o bicentenário do nascimento de João Dubraz. Daí focar-se prioritariamente, na sua vida e na sua obra.

Naturalmente que, em termos de investigação, este volume exigiu um maior número de pesquisas e um tratamento mais demorado das informações encontradas. Muitos dos materiais utilizados na sua elaboração eram completamente desconhecidos ou porque não tinham sido publicados em livro, ou porque não era fácil descobrir os jornais onde João Dubraz os tinha publicado.

Por outro lado, mesmo no que respeita aos livros publicados, verificou-se também que, alguns se perderam completamente, como os Annaes do Municipio de Campo Maior. E outros, nem chegaram a serem publicados, como os intitulados Os dois Carácteres e O Castigo que, como ele complacentemente escreveu, seriam simples obras de juventude.

Ter-se-á também perdido uma obra, referida por João Ruivo, intitulada Subsídios Históricos para a Guerra da Maria da Fonte no Alto Alentejo, a qual teria hoje um grande interesse porque geralmente se considera que esta terrível guerra civil só terá acontecido nas terras do norte de Portugal.

Outras obras, principalmente os escritos políticos, devido ao seu carácter panfletário, tiveram vida efémera e curta divulgação. Mas, mesmo estes, são importantíssimos, se pretendemos conhecer o pensamento de João Dubraz porque, conhecendo-o, ficamos com uma ideia muito interessante sobre a história das ideias na época em que ele viveu.

Por outro lado, uma parte importante da sua vida e da sua obra, está relacionada com o facto de ter exercido, mesmo até à sua morte, uma empenhada acção como professor.

Ora, sendo então ainda muito escassa a produção de livros destinados ao ensino escolar, João Dubraz, em vez de se lamentar, tomou a iniciativa de escrever compêndios para uso dos seus alunos. Estes compêndios constituem hoje preciosos documentos para conhecermos as condições e as preocupações do ensino no seu tempo.

Na verdade, a obra de João Dubraz, é uma riquissíma fonte de abundantes e preciosas informações sobre o tempo em que viveu.

Do mesmo modo, os escritos, publicados nos muitos jornais em que colaborou, fornecem também importantes informações sobre as condições de vida, na sua época.

Mesmo os folhetins, textos de entretenimento por ele publicados nos jornais, podem conter informações interessantes sobre a mentalidade, as preocupações, os usos e costumes e as condições de vida nesse tempo.

Mas, porque não se inibia de denunciar as situações e as atitudes que lhe pareciam inaceitáveis e merecedoras de pública denúncia e condenação, originou que contra ele se tivesse levantado uma violenta reacção que muito o amargurou, pois que, as polémicas que, quase no fim da sua vida o envolveram, descambaram por vezes para atitudes de muito baixo nível. Moveram-lhe tal perseguição que o impediram de dar aulas em Campo Maior o que o obrigou a ter de ir dar aulas para Amarante, no distante Minho, aos 76 anos idade. Os que ele censurava e denunciava pelos comportamentos abusivos e ilicitos que manifestavam no exercício dos cargos públicos, desciam às mentiras mais infames e às insinuações e acusações mais vis, tentando desacreditá-lo. Esses escritos, por vezes bastante abjectos, permitem-nos comprender as condições, as atitudes e os comportamentos da sociedade local, na fase final da sua vida que era também a fase final de uma época em acentuada decadência: a da monarquia liberal.

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publicado às 20:44


1 comentário

De Anónimo a 21.01.2018 às 22:00

Muito com como sempre. Muitos Parabens pela sua obra, muito sucesso! Só um reparo no seu post. Analisar é com "s" e não com Z

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