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MINHA TERRA E MINHAS RAÍZES ...

por Francisco Galego, em 10.05.19

Nasci nesta vila do Alto Alentejo, mesmo encostada à fronteira, que se chama Campo Maior. Embora colocada num recanto, afastada de importantes vias de comunicação foi, no passado, povoação de considerável importância militar, económica e demográfica. A presença num ponto da fronteira bastante frágil, em termos de estratégia de defesa, constituiu-a como importante praça de guerra, enquanto existiu o perigo de invasões a partir do território do poderoso vizinho que fica do outro lado. Mas, em termos económicos, a fronteira teve também efeitos positivos. O contrabando foi sempre fonte de consideráveis rendimentos e houve mesmo épocas em que se tornou fonte de fácil e rápido enriquecimento.

A agricultura em terras com aptidão para a produção dos cereais, dos gados, do vinho e do azeite, favorecia a fixação de uma considerável população.

 Sendo concelho de pouca extensão, devido à variedade das terras que o compõem, sustentou uma agricultura bastante próspera em tempos em que predominava uma economia de subsistência, em regime de acentuado isolamento. Foi o café, produto essencial do contrabando, depois da guerra civil de Espanha, que lançou as bases da economia campomaiorense na actualidade. Do contrabando veio uma primeira acumulação de capitais que gerou uma  produção que constitui actualmente, a principal base da sua prosperidade: a torrefacção de cafés.

            Nasci numa rua modesta como modesta foi a minha origem familiar: Os meus quatro avós e as duas bisavós que ainda conheci, estavam ainda muito envolvidos na sua condição campesina. Os avós maternos vinham directamente de gente secularmente ligada ao trabalho nos campos. A mãe da minha mãe, minha avó Maria Catarina Cainço, descendia de uma família de camponeses naturais e residentes na  aldeia de Degolados, muito próxima de Campo Maior mas que, à época do seu nascimento, estava administrativamente ainda ligada ao concelho de Arronches. Esta minha avó veio com seus pais residir no monte de uma herdade, em Campo Maior, onde conheceu o jornaleiro Jacinto de Jesus, natural de Elvas, freguesia de S. Pedro. Do casamento de minha avó Maria com o meu avô Jacinto, nasceram 12 filhos, dos quais - , como então era muito frequente entre a gente pobre, devido às doenças epidémicas que grassavam por aquele tempo -, mormente a pneumónica -, apenas sobreviveram quatro filhas: Palmira, minha mãe, era a mais velha, seguindo-se Mariana, Alice e Ana Maria.

O meu avô Jacinto era, em toda a família da parte de minha mãe, o único que tinha frequentado regularmente a escola e que, por conseguir ler e escrever razoavelmente, largou a enxada, ingressando na Guarda Nacional Republicana. Minha mãe, por vontade e esforço pessoal, conseguiu, por sua iniciatva, tornar-se modestamente letrada.

Da parte de meu pai, os meus avós estavam já bastante desligados do trabalho agrícola. Minha avó, Ana do Carmo Serra, como as gerações anteriores na sua família, estava basicamente ligada ao contrabando, actividade que, na nossa terra, era tão digna como qualquer outra, pois que, só podia ser exercida por gente de muita coragem e de grande seriedade. Aliás, aqui na raia de Espanha, todos eram um pouco contrabandistas e o contrabando gerou sólidas fortunas, tanto no domínio da agricultura, com no campo das poucas indústrias que se foram constituindo.

Tal como minha avó, também meu avô, Francisco, fazia do contrabando a sua principal ocupação, se bem que este tivesse sido arrastado para esta actividade pelo casamento – pois os seus irmãos eram, na sua maioria, gente muito ligada ao trabalho nos campos.

 Embora analfabetos, os meus avós paternos cuidaram de escolarizar os seus dois filhos varões: meu pai, José e meu tio Francisco. De minha tia Maria, foi entendido por meus avós que, sendo rapariga, não necessitaria de tal investimento.

Minha mãe, sendo a primogénita dos filhos sobreviventes, aprendeu o ofício de costureira de alfaiate, ou seja, de vestuário masculino. Meu pai tinha mais dois irmãos, minha tia Maria, a mais velha e meu tio Francisco, o mais novo. Mas, nunca aceitou o destino de contrabandista que o fatum familiar lhe parecia traçar – o risco e a incerteza desse tipo de vida, não quadravam com a timidez e a ânsia de segurança que lhe moldavam o carácter. Por isso, desde muito cedo, foi destinado ao comércio. Daí que, depois de um longo aprendizado de mais de seis anos em loja alheia, pôde, com o apoio dos pais, estabelecer-se por conta própria, pouco antes de casar e de eu ter nascido.

            A rua onde nasci era modesta, encostada às muralhas que ainda limitavam quase por completo o perímetro da vila. A minha casa ficava, entre as casas dos meus avós -, quase a igual distância de ambas -, o que foi estrategicamente muito importante no quadro do mapa dos meus afectos. Subindo a rua chegava a casa de minha avó Ana. Descendo-a e virando a esquina, chegava a casa de minha avó Maria.

Entre o tesouro de afectos que encontrava numa e a largueza de recursos que a outra me propiciava, a minha infância decorreu de forma muito favorável. De certo modo, não sentia falta de quem me apaparicasse: era filho único, sobrinho único, neto e bisneto único de um grupo considerável de gente.

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