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DAS SURPRESAS DUMA VISITA BREVE...

por Francisco Galego, em 20.02.16

 

No regresso de Évora, resolvemos parar em Estremoz. Tivemos uma primeira surpresa de carácter gastronómico com os petistos que nos foram servidos na “ Mercearia do Gadanha” que consegue a arte de conjugar os produtos tradicionais com toques de verdadeiro requinte.

Agradados, resolvemos revisitar a cidade. Gostamos muito da riqueza arquitectónica dos seus  edifícios, tão valiosos e, por vezes, votados a confrangedor abandono. O acaso levou-nos à Praça do Municipio, onde estão os Paços do Concelho.

A nossa atenção focou-se no Palácio dos Marqueses da Praia e Monforte e tivemos nova surpresa: Fachadas restauradas com rigor, interiores primorosamente  recuperados, realçando a beleza deste edifício que sempre admirámos, lamentando a ruína a que chegara. É sempre agradável constatar que há já bastantes municípios que tendem a focar a sua atenção nos valores  patrimoniais que lhes cabe preservar e gerir com eficácia.

Como a porta estava aberta, entrámos e vimos que estava aberta ao público uma exposição :

“Pintura – 2 eus”.

(Os dois “eus” apontavam para duas exposições):

 

- Fernando Gil – “objectos inúteis”

– Homenagem aos poetas do Orfeu. (2006-2015)

 

- Álvaro Marvão – “bichos d’infãncia”

– Homenagem aos pintores naturalistas portugueses (2006-2015)

 

            Talvez porque algumas experiências com “exposiçôes” nos tenham desmotivado, não criámos muita expectativa. Mas, porque tínhamos muita curiosidade de ver o restauro do interior do palácio, resolvemos entrar.

            Grande surpresa tivemos! A começar pela amável recepção da funcionária em serviço e a culminar no contacto com as obras expostas.

            A senhora da recepção foi ao nosso encontro e, percebendo o nosso surpreendido agrado, começou a dilogar conosco e a  comunicar-nos informações sobre a obra e a sua autoria. Eram de facto dois “eus”, mas consubstanciados numa só pessoa. Um, com o seu próprio nome; o outro, como pseudónimo, em coerência com a opção por outra estética, outra temática e outras soluções técnicas.

           A nossa surpresa, já definida pela qualidade do que víamos, acrescentou-se com esta revelação. Num caso, o artista, partindo do abstracionismo das pinceladas divergentes na forma e na côr, chegava à formulação dos animais que sugeria. No outro caso, o artista, partindo do realismo naturalista dos objectos representados, levava-nos, através da ironia ou das ideias sugeridas, até às mensagens.

           Na verdade, estas  surpresas foram a solução para um dilema em que me encontro e que posso expôr partindo de um texto que li, recentemente.

Em “E – A Revista do Expresso”, Ed. 2255 de 16/1/2016, pág.s 54 a 59,  numa entrevista feita ao consagrado artista Julião Sarmento, este deu a seguinte resposta:

O que se passa hoje na esfera da arte contemporânea, não me interessa. Conheço as regras, tenho de viver nesse mundo, mas não me interessa.

A arte tornou-se numa “commodity”.

Para um artista ser “successfull”, é irrelevante o trabalho  que faz. Qualquer um pode fazer o que quer que seja, desde que conheça as pessoas certas e se movimente nos circulos certos. Não foi isso que assinei quando quis ser artista.

Estas afirmações aliviaram-me da questão que trago comigo, desde há muito tempo: de facto não consigo aceitar certos objectos que me apresentam como “arte ”. E, porque entendo que, com a frequência das cadeiras sobre arte, no meu curso de História, não me posso considerar um especialista, custumo guardar para mim a reserva que sinto perante objectos que me são apresentados como manifestações artísticas. Devo desde já esclarecer que, não tenho preconceitos sobre qualquer forma ou estilo de arte. Grande parte das obras de arte que me têm despertado o mais vivo interesse, situam-se nos domínios mais divergentes, de todas as épocas e ambientes culturais e que vão deste as que são consideradas dentro dos "naturalismos realistas" às que se enquadram  nos chamados “abstraccionismos”.

Mas, no meu entendimento, a arte raramente resulta de facilitismo, de exibição de coisas que só se destacam pelo sua total ausência de sentido. No meu entender a arte não deve consistir na intenção de nos surpreender, por nos provocar apenas espanto. Deve, acima de tudo suscitar a adesão da nossa sensibilidade, quer através da mensagem, quer pela forma como se nos apresenta.

Citando, de memória, uma frase de Oscar Wilde, na sua obra "O Retrato de Dorian Gray": A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada. Frase que traduzo deste modo: Não basta que algo me cause espanto; tem de me despertar forte admiração, para que o entenda como arte.

É assim que sinto e penso. Se com isto me engano, paciência...

Para mim, a arte resulta de uma ideia que se concretiza pela laboriosa acção que, começando por ser ideia,  - recorre aos materiais, às técnicas, aos conhecimentos e aos sentimentos -, traduzindo essa ideia em composições de traços, cores, manchas, formas, jogos de luz e sombras, volumes. 

Se isto é ignorância, então eu prefiro permanecer nela. Recuso-me a entrar no jogo de considerar com valor artístico, coisas em que só vejo o valor comercial de troca que lhes é atribuido em certos circuitos.

Afirmo isto, perfeitamente consciente de que, para alguns, provavelmente mais esclarecidos do que eu sou, não passo de facto de um grande ignorante, no que se refere às questões da arte. Até porque, esse juízo não anda muito longe daquilo que eu mesmo, nesse domínio, me considero.

 

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publicado às 11:23



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