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DA SABEDORIA...

por Francisco Galego, em 15.09.15

Não é a primeira vez que alguém sugere temas sobre os quais, no seu entender ou pelo seu interesse, eu deva escrever. Foi essa a motivação de alguns escritos que aqui tenho publicado. Por vezes não o faço por não me sentir habilitado para o fazer com proveito e com interesse.

Desta vez o interesse é maior que a a minha hesitação e insegurança. Por isso,embora com alguma demora, devida a outros questões que me têm ocupado, vou escrever, com a brevidade, clareza e simplicidade que me for possível, o que penso sobre o tema que me foi proposto. É tarefa arriscada pois trata-se duma das questão essenciais do pensamento filosófico. Mas, como nem me considero filósofo, nem isso é esperado por quem me fez esta sugestão, tratarei apenas de expor algumas das minhas ideias sobre esta questão. 

Cita-se muitas vezes uma frase que a tradição atribui a Sócrates (469 a.C. - 399 a. C.), sem que qualquer fonte segura possa confirmar tal atribuição:

Só sei que nada sei, e o facto de saber isso, coloca-me em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa.

Só por ostentação de uma suprema atitude de humildade, que raia quase a vaidade, alguém que consagrou a vida à incansável busca do conhecimento, podia afirmar afirmar tal negação da possibilidade de aquisição do saber.

Por mim, prefiro outra frase que também  é atribuida a Sócrates e que dá o verdadeiro sentido à primeira:

Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.

 

A leitura do pensamento socrático que se pode buscar nas obras do seu genial discipulo Platão, ensina-nos a distinguir as atitudes que cada um de nós pode assumir perante o conhecimento que nos é dado adquirir.

Perante a sabedoria há, no essencial, duas atitudes contrapostas:

- A atitude dos que julgam muito saber e se convencem e tentam convencer os outros de que, o que sabem são sólidas e seguras certezas. São os que, não entendendo bem em que consiste a sabedoria, tomam como saber, o que não passa de uma  acumulação de conhecimentos ou de convicções que, constituem apenas algo que deve ser considerado como opiniões próprias e meros saberes.

- A atitude dos que procuram ter sempre bem presente que, aquilo que sabem, é sempre muito menos do que aquilo que poderão vir a saber e estes são os que estão no caminho certo para adquirirem alguma sabedoria.

 

Entre o acentuado dogmatismo de uns e a clara consciência crítica de outros, haverá sempre um fosso abissal que impedirá a possibilidade de uma clara e satisfatória comunicação.

O posicionamento numa ou noutra das duas atitudes, determina a opção de duas maneiras de se adquirir conhecimento:

- Há os que optam por saber um pouco acerca de todas as coisas, aquirindo assim conhecimentos de um tipo que podemos designar como enciclopédico.

- Há os que optam por tentarem saber o máximo possível acerca de certo domínio do conhecimento, adquirindo assim um saber que podemos designar como especializado e que, aprofundado, está na base de todas as ciências.

 

Segundo Platão, Sócrates escolheu como guia e opção, a frase γνωθι σεαυτόν, (Conhece-te a ii mesmo) que estava inscrita no templo de Apolo em Delfos. Talvez porque Sócrates teve sempre, como base do seu pensamento, a certeza que seria expressa na frase de outro filósofo, seu contemporâneo, Protágoras (490 a.C. - 415 a, C.):

"O homem é a medida de todas as coisas, das coisas que são enquanto são, das coisas que não são, enquanto não são."

Ou seja, Sócrates acentua que os homens devem procurar o conhecimento das suas capacidades para melhor adquirirem a consciência das suas limitações. Dito de outra maneira, no pensamento socrático, o homem deve entender-se não como um elemento acumulador de saberes, mas como o núcleo gerador do processo que conduz à aquisição da "Sabedoria". 

 

 

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publicado às 08:31


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