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CAMPO MAIOR EM MEADOS DO SÉCULO XVII

por Francisco Galego, em 10.09.16

TEATRO DAS ANTIGUIDADES D’ELVAS

 Com a história da mesma cidade e descrição das terras da sua comarca, escrito pelos anos de 1644 a 1655 pelo Cónego Aires Varela, com um prólogo de António Thomaz Pires.

 

O castelo de Campo Maior é obra muito antiga e muito forte, tanto por razão do sítio, como pelas torres e muros. Foi fabricado pelos mouros e reparado por El-rei D. Dinis, que lhe levantou a maior torre que nele há e, por esta razão, quiseram alguns atribuir-lhe a honra de edificador.

Os romanos lhe deram o nome, com muita propriedade porque, daquele sítio se descobre o maior campo que há por aquele distrito.

Havia junto ao castelo duas aldeias da jurisdição de Badajoz e que entraram nesta coroa com as de Olivença e Ouguela em troco de Aroche e Aracena. A mais populosa se chamava Joannes, ou por ser Bartolomeu Joannes a principal pessoa da aldeia, ou porque a água que a ela vinha era do seu campo da Valada. Dela se descobrem vestígios. A outra se chamava dos Luzios, nome que conserva o sítio e algumas famílias que passaram a Albuquerque.

Os habitantes destas aldeias viviam de cultivar os campos, respondiam com os dízimos à Sé de Badajoz que reconheciam no espiritual. E assim foram continuando até ao tempo de El-rei D. João I e ainda neste tempo (anos de 1644 a 1655) se conserva naquela Sé uma dignidade com o título de Prior de Campo Maior.

Logo que estas aldeias ficaram pertencendo à coroa portuguesa, abandonaram os sítio e aproximaram-se do castelo pelas comodidades que daí lhes resultavam, fugindo às rigorosas leis castelhanas, sujeitando-se às piedosas leis portuguesas.

Em favor destes novos moradores, com muita consideração e, sem dúvida, com a aprovação dos moradores de Elvas, desuniu El-rei D. Dinis este castelo de sua jurisdição para o honrar com o título de vila. Foi crescendo pela bondade dos ares, abundância das águas e fertilidade do terreno, até chegar a ser uma das mais populosas do reino. Desta sua origem resulta que, quando alguém quer chalacear com os de Campo Maior, chame à vila Campo Joannes.

São os naturais desta vila robustos, de grandes forças e igual valor, são duros e contentam-se com pão e água. As famílias antigas desta vila são os Vaz, Vicente, Rego, Prioreço, e Galvão. Depois vieram de fora os Mexia, Videira, Pereira, Sequeira, Fouto, Carrascosa, e Carrasco.

Entre a gente do povo conservam-se algumas palavras castelhanas e outras compostas de ambas as línguas, daí que não sejam nem portuguesas, nem castelhanas. E o mesmo acontece quanto aos costumes.

As mulheres que sempre deitam mão aos que favorecem a sua liberdade, mesmo as nobres, quando lhes parece, andam vestidas ao uso de Castela.(…)

Nesta vila apareceu uma imagem de São João Baptista e lhe fabricaram uma igreja que é venerada pelos naturais da vila e frequentada pelos que o não são, pelos muitos milagres que Deus por ela opera. Crê-se que, por intercepção deste santo, nunca tocou mal contagioso neste lugar, mesmo quando todos os lugares vizinhos ardiam em peste.

Afirma a tradição e confirma a pintura do retábulo que, o homem a que esta imagem apareceu, tinha na cabeça um lobinho e, duvidando de lhe darem crédito, lhe disse o santo que serviria de testemunho que, naquele mesmo momento, o lobinho que tinha na cabeça lho mudasse para o pé, o que logo aconteceu. E, assim ficou acreditado o homem e respeitado o Santo. O homem chama-se Gonçalo Rodrigues. Dele há descendência e se conserva uma horta do prazo[1] da mitra, em que se entra por sucessão de sangue. Estava nesta horta quando lhe apareceu a imagem de S. João Baptista, e afirmam que essa imagem é a que é venerada hoje naquela ermida.

A causa deste milagre foi que os moradores da vila estavam há anos a habitar no campo, devido à grande corrupção do ar que a todos matava. Ao que parece, pela intercepção deste grande Santo, de que já antes os de Campo Maior eram grandes devotos, foi Deus servido de lhes levantar o castigo. Três vezes apareceu o Santo a este hortelão, sempre entre chamas de fogo: a primeira, na sua choça; a segunda numa fogueira; a terceira, junto a um regato, onde lhe falou como atrás se disse. Também se afirma que, a fonte chamada de S. João que deu o nome à horta, nasceu milagrosamente aos pés do Santo e, por ser fonte milagrosa, a sua água faz milagres.

No tempo de El-rei D. João I era alcaide do castelo Paio Roriz Marinho que teve voz por Castela e que depois foi morto por Martim Vasquez de Elvas. A Pio Roriz sucedeu Gil Vasquez de Barbuda de quem a Crónica de El-rei D. João I diz estas palavras: Partiu El-rei de Monção e veio a Lisboa, deixou aí a rainha para ir cercar Campo Maior, um bom lugar do seu reino entre Tejo e Odiana, que tinha voz pelo rei de Castela. E estava nela por alcaide Gil Vasquez de Barbuda, primo  do mestre Dom Martin Annes. Estando El-rei sobre esta vila, vieram de Badajoz os mestres de S. Tiago e de Calatrava com muita gente da Andaluzia para a socorrer. Houve muitas escaramuças. Porém, El-rei combateu a vila de tal sorte que a tomou pela força e, dezoito dias depois, tomou os castelo por pleitearia.

 

 

 

[1] Prazo = aforamento

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