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CAMPO MAIOR – A CATÁSTROFE DE 1732

por Francisco Galego, em 31.03.19

Por Frei Manuel de Figueiredo:

 Eremita Augustiniano, cronista da sua província (1), e muito acreditado pregador no seu tempo, de seu nome António Dias da Silva e Figueiredo, foi natural de Campo Maior e morreu no Convento da Graça de Lisboa a 19 de Novembro de 1774.

Estava de visita à sua família, em Campo Maior, quando se deu a explosão do paiol na torre de menagem, provocando a terrível destruição de grande parte da vila de Campo Maior. Testemunhou, portanto, este trágico acontecimento por vivência directa, que descreveu em documento que publicou em Lisboa, com o seguinte título:

“Notícia do lastimoso estrago, que na madrugada do dia 16 de Settembro, deste presente anno de 1732, padeceu a Villa de Campo-Maior, causado pelo incêndio, com que hum raio, cahindo no armazém da pólvora, arruinou as torres do castello, e com ellas as casas da Villa. Escrita por António Dias da Sylva, e Figueiredo, natural da mesma Villa”, Lisboa Oriental, na Officina Augustiniana, 1732

 Transcrevo apenas algumas partes do relato que este nosso conterrâneo publicou:

"Desde o dia 14 de Setembro começou o céu a dispor-se para este estrago, encapotando-se na primeira noite os ares e fuzilando com alguns relâmpagos os quais, acompanhados de trovões, causaram muitos sustos, mas que não passaram de ameaços  (...)

 Seriam as 3 horas da madrugada quando, cruzando-se duas trovoadas, uma da parte do Poente, outra da parte do Meio-Dia, fizeram despertar com horríveis trovões os moradores. Quase uma hora durou o horror da tormenta em que as duas trovoadas pareciam travar um combate disputando qual delas devia assolar a vila. Até que, (...) caiu o raio na torre maior, ignorando-se de que parte a feriu. Uniu-se o fogo vindo do céu ao da terra quando rebentaram as bombas, granadas e pólvora que se guardava no interior da torre. Havia nela 5.732 arrobas e 6 arráteis de pólvora, 4.816 granadas ordinárias, 830 granadas reais, 711 bombas, 2.575 granadas desatacadas. Tudo isto com o seu impulso deu ruína ao castelo e sepultura à vila. (...)

O impulso foi tão violento que as casas caíram ao mesmo tempo parecendo que disputavam umas às outras o terreno para se derrubarem. Ficaram arruinadas 840 casas e mesmo as poucas que resistiram ao estrago, tiveram seu dano em telhados e portas. Foi tal o impulso que, mesmo as portas que não estavam voltadas para o castelo, foram violentamente arrancadas das suas ombreiras. Serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficaram de pé o grande edifício da Igreja Matriz que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abóbada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abóbadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto (...)

O mais sensível estrago foi o que padeceu a Igreja, Convento e Hospital de S. João de Deus,(2)onde não ficou casa alguma que não padecesse ruína. (...) A Misericórdia e Hospital desta vila também tiveram o seu dano.  Maior dano experimentou o Convento de São Francisco, onde não ficou porta inteira, nem mesmo a mais interior, abrindo grandes roturas nas suas abobadas as muitas e grandes pedras que sobre elas caíram. Arruinou-se também o frontispício da sua Igreja, obra recém acabada, caindo em terra a imagem de Santo António que estava nesse frontispício, tendo caído os pedaços na cabeça de um pobre homem que procurava refúgio no espaço sagrado da Igreja, provocando-lhe a morte. (...) a Ermida do invicto Mártir S. Sebastião, que está num baluarte da muralha, não sofreu ruína, (...), por ficar numa parte para onde não se encaminhou o ímpeto da explosão.

Dentro do próprio castelo, sofreram ruína os “armazéns de outras provisões de guerra” e ainda, duas torres que ficaram em pé, sofreram seu dano ficando descoberta uma que conservava em si alguns barris de pólvora, os quais não rebentaram. Ficaram também demolidas as Casas da Câmara e a Cadeia desta vila. (3)

A fortificação sofreu seu dano, principalmente nas portas da Praça que, sendo fortíssimas, foram arrancadas como impulso da explosão.

Mesmo à distância de quatro léguas se fez sentir o efeito da explosão, pois os moradores de Arronches e Albuquerque deram notícia de terem sentido, nessa hora, um extraordinário abalo nas suas casas. (...)

(...) Não se pode averiguar o número certo das pessoas que morreram ou ficaram feridas nestas ruínas cujo número, prudentemente, se conjectura chegar aos 2.000 (...)

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(1) Pertencia à Ordem dos Agostinianos Eremitas, conhecida como Ordem dos Gracianos, sedeada no Convento da Graça de Lisboa.  

(2) A Igreja, Hospital Militar e o Convento de São João de Deus de Campo Maior, ocupavam todo o quarteirão que, actualmente fica limitado por: a Oeste e a Norte pela Rua de Santa Cruz; a Sul pela Rua Vasco Sardinha; a Leste pela Rua Visconde de Seabra, antiga Rua de Pedroso.

(3) Estes dois edifícios localizavam-se na Praça Velha, encostados à muralha do antigo castelo.

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NOTAS:

A partir de meados de Século XVI, quando a artilharia já se tinha tornado dominante como arma de guerra, a situação antes descrita tornou-se bastante frequente, como dão a entender as notas que fui recolhendo das leituras que fui efectuando e que refiro seguidamente. Infelizmente, não tive o cuidado de tomar nota das fontes onde foram recolhidas. 

Juromenha:1644 / 1658 - Grandes obras de adaptação do castelo a uma fortaleza para uso da artilharia durante a Guerra da Restauração, alterando significativamente a fortificação medieval.

Em 1659 - Grande explosão do paiol de pólvora que destruiu a maior parte da fortaleza incluindo o antigo paço.

Parte do castelo de Estremoz foi destruída por explosão do paiol de pólvora em 1698.

A Alcáçova do castelo da cidade de Miranda do Douro foi arrasada pela violenta explosão do paiol da pólvora em 8 de Maio de 1762 que destruiu uma grande parte do núcleo urbano.

No Cerco de Almeida que ocorreu entre 15 e 28 de Agosto de 1810, no início da Terceira Invasão Francesa, a praça-forte de Almeida estava sob o comando do Coronel William Cox. As forças sitiantes estavam sob comando do Marechal Ney. Uma forte explosão no paiol deixou a praça sem meios de defesa. Nessa explosão morreram à volta de 500 homens (cerca de 200 eram artilheiros) e os danos materiais foram muito grandes. Uma parte da povoação de Almeida desapareceu e o resto ficou muito danificado. Só seis casas tinham conservado os seus telhados. Perante reacção adversa de alguns oficiais portugueses, Cox acabou por aceitar a capitulação. A guarnição entregou a praça aos franceses no dia 28 de Agosto.

Torres Vedras: Em 1810, o Castelo passou a forte das Linhas de Torres e, em Dezembro de 1846, serviu de quartel às tropas do Conde de Bonfim, de que resultou o agravamento do seu estado de ruína provocado pela explosão do paiol da pólvora.

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