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A FEIRA…

por Francisco Galego, em 10.08.14

 

 

                Em tom enérgico, duro e autoritário – hábito que lhe ficou dos seus tempos de militar – ordena-me o director desta folheca que escreva uma crónica sobre a feira, para ser publicada neste número.

                Aqui têm os leitores um caso difícil de resolver!...

                A feira… A feira…

                Mas valerá a pena gastar tempo e tinta em referências ou descrições da nossa feira?... Não sabemos todos nós que a feira da nossa terra o é apenas no nome? Porventura alguém ignora que a feira é apenas o pretexto para dois dias de folga aos trabalhadores e operários, pretexto para se estrear um vestido da última moda, pretexto para se estrear uma andaina à papo-seco, daquelas que torna os descendentes de Adão uns amorzinhos de elegância e de chiquismo?...

                Noutros tempos – tempos que já lá vão! – sim, que era entusiasmo, animação!... A miudagem, a petizada, lá andava de bolsinha de retalhos de chita que as mães lhes faziam num bocadinho de vagar, na colheita dos cinco réizinhos, entre a parentela e amigos da família. Depois, muito contentes, dispersavam o capital amealhado na compra de uma bola, chichis, apitos, cornetas e, por último, no tradicional capilé de cavalinho, mistura de água e açúcar que, não obstante a sua cor suja e o seu aspecto nojento, bebiam sem repugnância, antes com mostras de prazer, por um canudo de lata ferrugenta, encimado por um galaroz ou cavalinho, donde lhe vinha o nome.

                Era então a feira na Praça Nova[1]. Lá estava a barraca das vistas e dos fenómenos, com a sua mulher liliputiana, o seu macaco provocador, o seu órgão de manivela a buzinar-nos ouvidos com a estafada valsa do Fausto. E os choques eléctricos a provocarem jeitinhos de susto no mulherio que lá entrava. E ia-se ao circo, onde os artistas expunham as suas plásticas correctas, em trabalhos de acrobacia e de ginástica e onde aparecia sempre uma galante vedeta a deliciar-nos com a canção do Chocalhinho (nessa altura não existia ainda a canção das Rosas…) e a excitar paixões amorosas nos leões do burgo – enquanto a fanfarra, à porta da barraca, atroava os ares com uma marcha de guerra, na estridência dos cornetins e dos trombones.

                E lá estava a barraca do Toma Joaquina, a anunciar à bordoada numa lata de petróleo vazia, a arrematação de qualquer lote de louça de Sacavém. E as barracas de quinquilharias e bugigangas, enlevo dos petizes. E as do ouro, tentação das camponesas. E as torrão branco de Alicante e das gemas, fabricadas pelo Barragon, pelos Valadas e pelo Salsinha, que faziam as delícias dos lambareiros. E as das rifas, onde os olhos se esgazeavam para o número premiado. E os lugares dos pucarinhos e bilhas de Estremoz e da louça do Redondo, dos artigos do Algarve, dos objectos de verga, das madeiras da Serra, das cebolas e dos alhos, da melancia de Santa Eulália a tentar o nosso apetite no vermelho da sua polpa…

                Agora, os circos raro aparecem. Os poucos barraqueiros da bufarinha, sórdidos e repelentes, não fazem negócio… porque os miúdos já não usam bolsinhos de chita que, aliás, eram desnecessários para as cédulas[2] nojentas.

                As madeiras, as louças, o torrão… tudo isto está hoje escassamente representado.

                Dificuldades de transporte? Falta de dinheiro? Sei lá!...

                O que abunda são os batoteiros ambulantes, a sugestionarem o campónio ingénuo com os dados a tilintar nos copos de alumínio.

                E, sobretudo, o progresso, a civilização, está nos nossos gaviões, naquele aluvião de gaviões de artística arquitectura, em madeira de preço, que enquadram a Avenida e que a emolduram; nos gaviões pobres onde se bebe moscatel da Godinha que tresanda a azedo e nos gaviões ricos onde se bebem deliciosos sorvetes por uma palhinha e onde, de mistura, se faz a sua paradita…

                Valerá a pena descrever a nossa feira, a feira da nossa terra, sem transacções de gados, sem uma parada agrícola, sem uma exposição de produtos regionais, sem festejos, sem movimento, sem vida, sem cor, reduzida a pouco mais de nada?...

                Não vale, certamente. E, além disso, com 40º à sombra, é impossível tirar ideias da mioleira, nem mesmo espremendo-a como a este belo limão com que vou agora preparar uma limonada refrescativa.

                Eis a razão porque, desta vez, desobedeço o camarada director recusando-me a escrever a tal crónica…

Rui de Castro

 

NOTA: Texto publicado no Notícias de Campo Maior de 15/8/1926, p. 2, por João Ruivo, usando o pseudónimo de Rui de Castro.



[1] Actual Praça da República

[2] Notas de emissão local que circulavam substituindo o dinheiro e que, devido ao excessivo uso e baixo valor, tinham um aspecto repelente.

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publicado às 16:46


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