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MINHA TERRA E MINHAS RAÍZES ...

por Francisco Galego, em 10.05.19

Nasci nesta vila do Alto Alentejo, mesmo encostada à fronteira, que se chama Campo Maior. Embora colocada num recanto, afastada de importantes vias de comunicação foi, no passado, povoação de considerável importância militar, económica e demográfica. A presença num ponto da fronteira bastante frágil, em termos de estratégia de defesa, constituiu-a como importante praça de guerra, enquanto existiu o perigo de invasões a partir do território do poderoso vizinho que fica do outro lado. Mas, em termos económicos, a fronteira teve também efeitos positivos. O contrabando foi sempre fonte de consideráveis rendimentos e houve mesmo épocas em que se tornou fonte de fácil e rápido enriquecimento.

A agricultura em terras com aptidão para a produção dos cereais, dos gados, do vinho e do azeite, favorecia a fixação de uma considerável população.

 Sendo concelho de pouca extensão, devido à variedade das terras que o compõem, sustentou uma agricultura bastante próspera em tempos em que predominava uma economia de subsistência, em regime de acentuado isolamento. Foi o café, produto essencial do contrabando, depois da guerra civil de Espanha, que lançou as bases da economia campomaiorense na actualidade. Do contrabando veio uma primeira acumulação de capitais que gerou uma  produção que constitui actualmente, a principal base da sua prosperidade: a torrefacção de cafés.

            Nasci numa rua modesta como modesta foi a minha origem familiar: Os meus quatro avós e as duas bisavós que ainda conheci, estavam ainda muito envolvidos na sua condição campesina. Os avós maternos vinham directamente de gente secularmente ligada ao trabalho nos campos. A mãe da minha mãe, minha avó Maria Catarina Cainço, descendia de uma família de camponeses naturais e residentes na  aldeia de Degolados, muito próxima de Campo Maior mas que, à época do seu nascimento, estava administrativamente ainda ligada ao concelho de Arronches. Esta minha avó veio com seus pais residir no monte de uma herdade, em Campo Maior, onde conheceu o jornaleiro Jacinto de Jesus, natural de Elvas, freguesia de S. Pedro. Do casamento de minha avó Maria com o meu avô Jacinto, nasceram 12 filhos, dos quais - , como então era muito frequente entre a gente pobre, devido às doenças epidémicas que grassavam por aquele tempo -, mormente a pneumónica -, apenas sobreviveram quatro filhas: Palmira, minha mãe, era a mais velha, seguindo-se Mariana, Alice e Ana Maria.

O meu avô Jacinto era, em toda a família da parte de minha mãe, o único que tinha frequentado regularmente a escola e que, por conseguir ler e escrever razoavelmente, largou a enxada, ingressando na Guarda Nacional Republicana. Minha mãe, por vontade e esforço pessoal, conseguiu, por sua iniciatva, tornar-se modestamente letrada.

Da parte de meu pai, os meus avós estavam já bastante desligados do trabalho agrícola. Minha avó, Ana do Carmo Serra, como as gerações anteriores na sua família, estava basicamente ligada ao contrabando, actividade que, na nossa terra, era tão digna como qualquer outra, pois que, só podia ser exercida por gente de muita coragem e de grande seriedade. Aliás, aqui na raia de Espanha, todos eram um pouco contrabandistas e o contrabando gerou sólidas fortunas, tanto no domínio da agricultura, com no campo das poucas indústrias que se foram constituindo.

Tal como minha avó, também meu avô, Francisco, fazia do contrabando a sua principal ocupação, se bem que este tivesse sido arrastado para esta actividade pelo casamento – pois os seus irmãos eram, na sua maioria, gente muito ligada ao trabalho nos campos.

 Embora analfabetos, os meus avós paternos cuidaram de escolarizar os seus dois filhos varões: meu pai, José e meu tio Francisco. De minha tia Maria, foi entendido por meus avós que, sendo rapariga, não necessitaria de tal investimento.

Minha mãe, sendo a primogénita dos filhos sobreviventes, aprendeu o ofício de costureira de alfaiate, ou seja, de vestuário masculino. Meu pai tinha mais dois irmãos, minha tia Maria, a mais velha e meu tio Francisco, o mais novo. Mas, nunca aceitou o destino de contrabandista que o fatum familiar lhe parecia traçar – o risco e a incerteza desse tipo de vida, não quadravam com a timidez e a ânsia de segurança que lhe moldavam o carácter. Por isso, desde muito cedo, foi destinado ao comércio. Daí que, depois de um longo aprendizado de mais de seis anos em loja alheia, pôde, com o apoio dos pais, estabelecer-se por conta própria, pouco antes de casar e de eu ter nascido.

            A rua onde nasci era modesta, encostada às muralhas que ainda limitavam quase por completo o perímetro da vila. A minha casa ficava, entre as casas dos meus avós -, quase a igual distância de ambas -, o que foi estrategicamente muito importante no quadro do mapa dos meus afectos. Subindo a rua chegava a casa de minha avó Ana. Descendo-a e virando a esquina, chegava a casa de minha avó Maria.

Entre o tesouro de afectos que encontrava numa e a largueza de recursos que a outra me propiciava, a minha infância decorreu de forma muito favorável. De certo modo, não sentia falta de quem me apaparicasse: era filho único, sobrinho único, neto e bisneto único de um grupo considerável de gente.

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publicado às 00:04

Na tentativa de derimir razões de conflito entre Portugal e Castela, veio Alonso Peres de Gusman, como procurador do rei de Castela, ao encontro de D. Dinis que se encontrava em Coimbra. Foi combinado que as pessoas reais se reunissem no lugar de Alcanices, em Castela e aí se encontraram no mês de Setembro de 1297, com as suas comitivas constituidas pelas mais altas figuras das suas cortes.

O Tratado de Alcanices foi acordado entre D. Dinis e D. Fernando IV de Castela e firmado em 12 de Setembro de 1297.

Nele foi acordada uma paz por quarenta anos.

Fernando IV de Castela cedeu as vilas de Olivença, Campo Maior e Ouguela (no Alto Alentejo) e São Félix de Galegos (a norte de Ciudad Rodrigo).

Tratou-se de um tratado de paz para Castela e de um acordo de novas fronteiras para Portugal. Além disso, contratou-se que ambos os lados assumiam o compromisso de serem “amigos de amigos” e “inimigos de inimigos”.

Para Portugal, o Tratado de Alcanices traçou, para Portugal, uma fronteira estável que é a mais antiga da Europa e uma das mais antigas do mundo.

Por ele, Campo Maior tornou-se uma das vilas que, há menos tempo, integrou o território português, pois que o reino de Portugal já existia desde meados do séc. XII e a vila de Campo Maior só foi nele integrada cerca de século e meio depois, quase a terminar o séc. XIII.

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NOTA: Este texto foi elaborado com base em informções retiradas da obra  de Margarida Garcez Ventura – História de PortugalGuerras e Campanhas MilitaresDefinição das Fronteiras (1096-1297), QUIDNOVI, 2007

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publicado às 00:07


SOBRE AS ORIGENS DA VILA DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 25.04.19

Campo Maior fica no Alentejo, Comarca de Elvas.

Não há indicações certas acerca da sua formação, o que se deverá ou à sua muita antiguidade ou ao descuido dos antigos. Só se sabe que principiou com as famílias ilustres dos Vaz, Galvões, Mexias e Sequeiras, que vieram povoá-la.dos quais sómente existe memória nos alvarás e provisões dos reis D. Fernando, D. Afonso V, D. Manuel, D. João III, D. Sebastião e dos Filipes de Castela, quando governaram este reino.

Foi antigamente dominada pelos mouros esta terra, aos quais foi ganha por D. Afonso II, no ano de 1219, sendo a família dos Peres de Badajoz os laureados nesta conquista. Para engradecerem mais o seu nome, os Peres deram-na à fábrica da Igreja de Santa Maria do Castelo, governando então o bispado de Badajoz D. Pedro Peres, o qual lhe deu por armas(1) Nossa Senhora e um cordeiro, com um circulo em volta, que dizia Sigillum Capituli Pacensis. (2)

Com a mudança dos tempos e do governo, gozando já esta terra do título e do foral de vila, deram-lhe por armas três caras: Uma de um menino, outra de um moço e a última de um velho, com outra mais distante das três, representando esta um varão perfeito. Entraram em divergência quanto ao crescimento da vila. Este, divergindo dos outros pela circunstância de estar a vila em sítio alto, se devia estender para um campo mais plano, bradou aos outros: Aqui é  o campo maior! Agradaram-se todos deste arbitrio e foi para aquele local que dilataram a vila. Daqui ficou o título de Campo Maior. Tudo isto consta em monumentos antigos, pois a mesma pedra em que se achavam esculpidas as “Armas” (1) com as cabeças, vê-se hoje na janela de umas casas situadas nos Cantos de Baixo, no princípio da Rua das Pereiras.  

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(1) Brazão ou escudo de armas. 

(2) Selo do capitulo de Badajoz, que se chamara antes "Pax Julia"

NOTA: O texto foi elaborado com base na obra a seguir indicada. Não se trata de uma transcrição, mas da recolha de informações, fazendo o possível por actualizar tanto quanto possível a ortografia e a linguagem de modo a tornar a sua leitura o mais clara possível. Quanto à fidelidade dessas informações devemos tomar em consideração que terão sido escritas de boa-fé e com convicção por quem as escreveu, mas devemos também ter em consideração que poderão não estar fundadas em factos confirmados de modo inquestionável. Alguns deles ter-se-ão baseado apenas numa tradição oral que os foi transmitindo ao longo dos tempos. E, porque, quem conta um conto, lhe pode acrescentar mais um ponto... mesmo aceitando que isso não foi feito de má-fé, torna-se necessário manter alguma prudência.

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Fr. JERONYMO DE BELEM – CHRONICA SERAFICA DA SANTA PROVÍNCIA DOS ALGARVES – Lisboa, 1753. LIVRO XII. CAP. I

Em que se trata das fundações de dez conventos de frades e três mosteiros de freiras.

Princípio e Fundação do Convento de Santo António de Campo Maior. Ano de 1494. Undécimo Convento que pela sua antiguidade pertence a esta província e na sua divisão lhe coube o sétimo lugar.

 

 

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publicado às 00:04

As fronteiras e as políticas regionais e de cooperação transfronteiriça

As questões fronteiriças marcaram desde sempre a História e o território da Europa, como em nenhum outro continente: conflitos bélicos e rivalidades que afectaram a cultura, a economia, a arquitectura e o modo de vida, principalmente nas regiões raianas. Em épocas de frequentes conflitos, foram barreiras de separação. Mas, também, sobretudo em tempos de maior tranquilidade, foram zonas de intensos contactos, encontros e de trocas de carácter cultural e civilizacional.

Desenvolvem-se actualmente, nos centros urbanos fronteiriços, no âmbito do aprofundamento da construção de uma “União Europeia”, e ao encontro de iniciativas como o Tratado Schengen de 1995 e da adesão à “Moeda Única” de 2002, claras tendências para uma maior colaboração territorial, para trocas de serviços, e desenvolvimento de sinergias e complementaridades que propiciem e assegurem um desenvolvimento mais  harmonioso, seguro e equilibrado. De certo modo, o sentido de fronteira vai-se atenuando na medida em que se desenvolvem novas oportunidades de esbater diferenças, dando lugar a uma maior coesão territorial, a um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável, através de acções e soluções que vão ao encontro de problemas comuns.

São passos dados neste sentido:

         - A criação pelo Conselho da Europa de instrumentos legais para a Cooperação Transfronteiriça, como as Comunidades de Trabalho e as Euroregiões;

         - O tratado de Schengen (1985) permitindo a circulação de pessoas, mercadorias e de capitais para investimentos;

         - O Acto Único Europeu (1986) com o objectivo de desenvolvimento de uma nova política regional europeia;

         - O Tratado de Maastricht (1992) que formalizou a cooperação transfronteiriça;

         - O INTERREG programa de financiamento comunitário;

         - A Convenção de Valência (2002), uma Convenção Quadro Europeia, entre Portugal e Espanha, sobre a cooperação transfronteiriça entre os dois estados ibéricos.

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publicado às 00:04

O Conceito de Eurocidade e a rede europeia de Eurocidades

Inicialmente o conceito era referido ao protagonismo que algumas cidades alcançavam pela sua dimensão económica, populacional, pela função administrativa, ou mesmo pela sua estratégica localização.

Hoje, aponta para os agrupamentos de cidades que, pela localização fronteiriça e pela  proximidade entre elas e que, embora de reduzida dimensão, se caracterizam pela semelhança ou complementaridade de recursos e de aspirações, tendo propiciado o desenvolvimento de um número considerável de projectos de cooperação transfronteiriça, compatível com a sua condição de membros da U.E.  

Objectivamente trata-se de projectos de constituição de sistemas urbanos plurinucleares, em rede, para a entreajuda na solução de problemas sociais, económicos, políticos ou mesmo socioculturais, visando a optimização dos meios, recursos e conhecimentos para que, agindo em complementarridade no uso das suas capacidades, esbaterem as dificuldades e resolverem os seus problemas.

São objecto das acções da Eurocidade: os equipamentos urbanos; a energia; os transportes e comunicações; a educação; o ensino e a formação profissional; o património, a cultura e as ciências; os tempos livres e os desportos; a saúde; a acção social; a habitação; a protecção civil; o ambiente e o saneamento básico; a defesa do consumidor; o ordenamento do território e o urbanismo; a polícia municipal; a cooperação externa.

A agenda do arranque da “Eurocidade Elvas-Badajoz-Campo Maior”, deve seguir um desenho estratégico que consiste num diagnóstico e reflexão conjunta multissectorial que analisa os problemas, as potencialidades, oportunidades e define os instrumentos de planeamento e ordenamento futuro do território.

Todos estes processos devem ser impulsionados e participados pelos governos centrais de Portugal e Espanha e por equipas de acessoria que, - numa estratégia de cooperação e complementaridade -, integrem, além de especialistas e técnicos, agentes económicos e sociais.

Depois desta fase de planeamento estratégico, terá de ser criado um Observatório da Eurocidade que acompanhe e monotorize a concretização das propostas estratégicas no plano da acção. Este Observatório Transfronteiriço visa melhorar  e desenvolver a cooperação entre os diversos actores e agentes, tanto públicos como privados, na concretização do desenvolvimento dos projectos a realizar.

Haverá também que constituir uma estrutura de governabilidade que deve incluir representantes das administrações nacionais, regionais e locais, bem como das universidades e dos agentes económicos e sociais.

É fundamental a permanente monotorização do processo de construção e de acção da Eurocidade, como garantia de sucesso dos projectos fronteiriços a desenvolver no futuro.

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publicado às 13:05

  1. As fronteiras e as políticas regionais e de cooperação transfronteiriça

As questões fronteiriças marcaram desde sempre a História e o território da Europa, como em nenhum outro continente: conflitos bélicos e rivalidades que afectaram a cultura, a economia, a arquitectura e o modo de vida, principalmente nas regiões raianas. Em épocas de frequentes conflitos, foram barreiras de separação. Mas, também, sobretudo em tempos de maior tranquilidade, foram zonas de intensos contactos, encontros e de trocas de carácter cultural e civilizacional.

Desenvolvem-se actualmente, nos centros urbanos fronteiriços, no âmbito do aprofundamento da construção de uma “União Europeia”, e ao encontro de iniciativas como o Tratado Schengen de 1995 e da adesão à “Moeda Única” de 2002, claras tendências para uma maior colaboração territorial, para trocas de serviços, e desenvolvimento de sinergias e complementaridades que propiciem e assegurem um desenvolvimento mais  harmonioso, seguro e equilibrado. De certo modo, o sentido de fronteira vai-se atenuando na medida em que se desenvolvem novas oportunidades de esbater diferenças, dando lugar a uma maior coesão territorial, a um desenvolvimento mais equilibrado e sustentável, através de acções e soluções que vão ao encontro de problemas comuns.

São passos dados neste sentido:

         - A criação pelo Conselho da Europa de instrumentos legais para a Cooperação Transfronteiriça, como as Comunidades de Trabalho e as Eurorregiões;

         - O tratado de Schengen (1985) permitindo a circulação de pessoas, mercadorias e de capitais para investimentos;

         - O Acto Único Europeu (1986) com o objectivo de desenvolvimento de uma nova política regional europeia;

         - O Tratado de Maastricht (1992) que formalizou a cooperação transfronteiriça;

         - O INTERREG programa de financiamento comunitário;

         - A Convenção de Valência (2002), uma Convenção Quadro Europeia, entre Portugal e Espanha, sobre a cooperação transfronteiriça entre os dois estados ibéricos.

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publicado às 00:02

 

OS TEXTOS QUE AGORA SE VÃO PUBLICAR, LIMITAM-SE A CHAMAR A ATENÇÃO PARA O PROJECTO DE ACÇÃO INTEGRADA E INTEGRADORA DESTA REGIÃO.

DAÍ O CARÁCTER SUCINTO E SIMPLIFICADO DA SUA APRESENTAÇÃO.

PARA MAIOR DESENVOLVIMETO, RECOMENDA-SE PROCURAR INFORMAÇÃO NA OBRA A SEGUIR INDICADA QUE SERVIU DE FONTE DE DADOS E DE IDEIAS PARA SUA ELABORAÇÃO.

(In, Garrinhas, João Paulo- Elvas, uma cidade de fronteira, 1ª Ed. Julho de 2018). Pág.s 242 a 275).

 

  1. A EUROCIDADE ELVAS-BADAJOZ- CAMPO MAIOR E O SEU OBSERVATÓRIO

O conceito de Eurocidade envolve projectos de integração e de promoção de acções cooperantes que promovam um leque significativo de domínios resolvendo problemas e situações estruturantes do desenvolvimento sustentado duma região.

A Eurocidade de Elvas-Badajoz-Campo Maior situa-se num corredor rodo-ferroviário de ligação de Madrid-Lisboa, num espaço territorial de notável potencial no domínio do turismo, pois envolve sete cidades classificadas como Património Mundial pela UNESCO.

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publicado às 11:50


AS TERRAS COMUNAIS DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 04.04.19

Segundo Albert Silbert que, a propósito de uma informação de 1758, faz referência pormenorizada ao estatuto e utilização destas terras comunais, designadas como "defesas", ou seja, os terrenos possuídos e geridos por uma comunidade local, ou pela administração de um concelho, geralmente terras incultas, ou que serviam para cultivar cereais, para pastos comuns e para logradores postos ao dispor da população local.

A defesa de São de São Pedro, em Campo Maior

A defesa de São de São Pedro, a sudeste da povoação, numa área arborizada e ligeiramente ondulada, era todos os anos dividida em sortes, ou seja, em partes de um moio de semente, cerca de uma dezena de hectares, as quais eram leiloadas e cedidas pela melhor oferta e nelas se praticava um afolhamento trienal, como nas restantes herdades da região. Este afolhamento não era rigorosamente respeitado, pois uma parte da terra em repouso era utilizada com outras culturas.

Como se vê, o cultivo destas sortes da defesa de São Pedro era feito em regime de exploração privada pelos que tinham conseguido, em leilão, arrematar o direito ao seu uso, pelo período que decorria entre uma sementeira e a sua colheita. Era uma prática que nada tinha de trabalho colectivista.

Depois das ceifas, a Câmara vendia os restolhos, destinados à alimentação dos gados, pela melhor oferta. Mas, mesmo no tempo dos restolhos, uma parte da defesa de São Pedro, estava à disposição  dos habitantes da vila. Era numa parte integrante da Defesa de São Pedro – o Rossio – que a população podia realizar anualmente as suas eiras onde, após as ceifas e se procedia à debulha dos cereais. A notícia que a seguir se transcreve mostra a importância que a Defesa de São Pedro tinha para a população de Campo Maior, a qual se vai manter até ao inicio do século XX:

A VOZ DO ALEMTEJO, Nº 258, Elvas, Sábado, 25 de Julho de 1863

Campo Maior (correspondência particular)

“No dia 21 do corrente pelas 3 horas da tarde manifestou-se o fogo nas eiras públicas do Rossio de S. Pedro desta vila … naquele local havia próximo de 3 mil a 4 mil moios de trigo … sendo o Sr. administrador do concelho o primeiro que se apresentou no sítio do fogo, à testa do qual se conservou, para evitar que se comunicasse aos mais celeiros contíguos, que não seriam menos de 800.

Não sendo menos dignos de iguais encómios e felicitações os mui nobres proprietários que acorreram de pronto ao lugar do incêndio… e ainda mais se deve ao geral da povoação que, ouvindo tocar o sino da câmara, abandonaram as suas casas, correndo da melhor vontade, de moto próprio, a acudir a um tão inesperado incidente…tornando-se muito distintos por esta ocasião os serviços prestados pelos senhores: o subdirector da alfândega José das Dores; os artistas (artesãos)José António de Bastos, José Mendes da Mota, e Dâmaso de Albuquerque; os trabalhadores (assalariados) Manuel dos Santos Valadim, José Duarte, Manuel das Chagas e outros muitos cujos nomes ignoramos…

Campo Maior 22 de Julho de 1863”    

            Nota: O mesmo jornal abriu subscrição pública para ajuda aos que tinham sofrido significativas perdas com o incêndio e foi publicando as listas desses contributos recebidos, que foram bastantes e, alguns, bastante avultados.

 

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publicado às 17:02


CAMPO MAIOR – A CATÁSTROFE DE 1732

por Francisco Galego, em 31.03.19

Por Frei Manuel de Figueiredo:

 Eremita Augustiniano, cronista da sua província (1), e muito acreditado pregador no seu tempo, de seu nome António Dias da Silva e Figueiredo, foi natural de Campo Maior e morreu no Convento da Graça de Lisboa a 19 de Novembro de 1774.

Estava de visita à sua família, em Campo Maior, quando se deu a explosão do paiol na torre de menagem, provocando a terrível destruição de grande parte da vila de Campo Maior. Testemunhou, portanto, este trágico acontecimento por vivência directa, que descreveu em documento que publicou em Lisboa, com o seguinte título:

“Notícia do lastimoso estrago, que na madrugada do dia 16 de Settembro, deste presente anno de 1732, padeceu a Villa de Campo-Maior, causado pelo incêndio, com que hum raio, cahindo no armazém da pólvora, arruinou as torres do castello, e com ellas as casas da Villa. Escrita por António Dias da Sylva, e Figueiredo, natural da mesma Villa”, Lisboa Oriental, na Officina Augustiniana, 1732

 Transcrevo apenas algumas partes do relato que este nosso conterrâneo publicou:

"Desde o dia 14 de Setembro começou o céu a dispor-se para este estrago, encapotando-se na primeira noite os ares e fuzilando com alguns relâmpagos os quais, acompanhados de trovões, causaram muitos sustos, mas que não passaram de ameaços  (...)

 Seriam as 3 horas da madrugada quando, cruzando-se duas trovoadas, uma da parte do Poente, outra da parte do Meio-Dia, fizeram despertar com horríveis trovões os moradores. Quase uma hora durou o horror da tormenta em que as duas trovoadas pareciam travar um combate disputando qual delas devia assolar a vila. Até que, (...) caiu o raio na torre maior, ignorando-se de que parte a feriu. Uniu-se o fogo vindo do céu ao da terra quando rebentaram as bombas, granadas e pólvora que se guardava no interior da torre. Havia nela 5.732 arrobas e 6 arráteis de pólvora, 4.816 granadas ordinárias, 830 granadas reais, 711 bombas, 2.575 granadas desatacadas. Tudo isto com o seu impulso deu ruína ao castelo e sepultura à vila. (...)

O impulso foi tão violento que as casas caíram ao mesmo tempo parecendo que disputavam umas às outras o terreno para se derrubarem. Ficaram arruinadas 840 casas e mesmo as poucas que resistiram ao estrago, tiveram seu dano em telhados e portas. Foi tal o impulso que, mesmo as portas que não estavam voltadas para o castelo, foram violentamente arrancadas das suas ombreiras. Serviu de escudo ao pequeno número das casas que ficaram de pé o grande edifício da Igreja Matriz que susteve a maior parte do chuveiro de pedras da torre. Mas o magnífico templo que susteve o maior ímpeto do castelo, sofreu algum destroço, destruindo-se todo o frontispício e a abóbada do coro que estava sobre a porta principal e que era obra de pedraria e muito forte. Também ficaram danificadas as abóbadas das suas três naves e algumas das colunas que são de cantaria. Quebraram-se as portas, tendo as principais sido arrancadas com tal violência que foram parar junto ao altar-mor. Nem as imagens ficaram incólumes de tamanho ímpeto (...)

O mais sensível estrago foi o que padeceu a Igreja, Convento e Hospital de S. João de Deus,(2)onde não ficou casa alguma que não padecesse ruína. (...) A Misericórdia e Hospital desta vila também tiveram o seu dano.  Maior dano experimentou o Convento de São Francisco, onde não ficou porta inteira, nem mesmo a mais interior, abrindo grandes roturas nas suas abobadas as muitas e grandes pedras que sobre elas caíram. Arruinou-se também o frontispício da sua Igreja, obra recém acabada, caindo em terra a imagem de Santo António que estava nesse frontispício, tendo caído os pedaços na cabeça de um pobre homem que procurava refúgio no espaço sagrado da Igreja, provocando-lhe a morte. (...) a Ermida do invicto Mártir S. Sebastião, que está num baluarte da muralha, não sofreu ruína, (...), por ficar numa parte para onde não se encaminhou o ímpeto da explosão.

Dentro do próprio castelo, sofreram ruína os “armazéns de outras provisões de guerra” e ainda, duas torres que ficaram em pé, sofreram seu dano ficando descoberta uma que conservava em si alguns barris de pólvora, os quais não rebentaram. Ficaram também demolidas as Casas da Câmara e a Cadeia desta vila. (3)

A fortificação sofreu seu dano, principalmente nas portas da Praça que, sendo fortíssimas, foram arrancadas como impulso da explosão.

Mesmo à distância de quatro léguas se fez sentir o efeito da explosão, pois os moradores de Arronches e Albuquerque deram notícia de terem sentido, nessa hora, um extraordinário abalo nas suas casas. (...)

(...) Não se pode averiguar o número certo das pessoas que morreram ou ficaram feridas nestas ruínas cujo número, prudentemente, se conjectura chegar aos 2.000 (...)

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(1) Pertencia à Ordem dos Agostinianos Eremitas, conhecida como Ordem dos Gracianos, sedeada no Convento da Graça de Lisboa.  

(2) A Igreja, Hospital Militar e o Convento de São João de Deus de Campo Maior, ocupavam todo o quarteirão que, actualmente fica limitado por: a Oeste e a Norte pela Rua de Santa Cruz; a Sul pela Rua Vasco Sardinha; a Leste pela Rua Visconde de Seabra, antiga Rua de Pedroso.

(3) Estes dois edifícios localizavam-se na Praça Velha, encostados à muralha do antigo castelo.

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NOTAS:

A partir de meados de Século XVI, quando a artilharia já se tinha tornado dominante como arma de guerra, a situação antes descrita tornou-se bastante frequente, como dão a entender as notas que fui recolhendo das leituras que fui efectuando e que refiro seguidamente. Infelizmente, não tive o cuidado de tomar nota das fontes onde foram recolhidas. 

Juromenha:1644 / 1658 - Grandes obras de adaptação do castelo a uma fortaleza para uso da artilharia durante a Guerra da Restauração, alterando significativamente a fortificação medieval.

Em 1659 - Grande explosão do paiol de pólvora que destruiu a maior parte da fortaleza incluindo o antigo paço.

Parte do castelo de Estremoz foi destruída por explosão do paiol de pólvora em 1698.

A Alcáçova do castelo da cidade de Miranda do Douro foi arrasada pela violenta explosão do paiol da pólvora em 8 de Maio de 1762 que destruiu uma grande parte do núcleo urbano.

No Cerco de Almeida que ocorreu entre 15 e 28 de Agosto de 1810, no início da Terceira Invasão Francesa, a praça-forte de Almeida estava sob o comando do Coronel William Cox. As forças sitiantes estavam sob comando do Marechal Ney. Uma forte explosão no paiol deixou a praça sem meios de defesa. Nessa explosão morreram à volta de 500 homens (cerca de 200 eram artilheiros) e os danos materiais foram muito grandes. Uma parte da povoação de Almeida desapareceu e o resto ficou muito danificado. Só seis casas tinham conservado os seus telhados. Perante reacção adversa de alguns oficiais portugueses, Cox acabou por aceitar a capitulação. A guarnição entregou a praça aos franceses no dia 28 de Agosto.

Torres Vedras: Em 1810, o Castelo passou a forte das Linhas de Torres e, em Dezembro de 1846, serviu de quartel às tropas do Conde de Bonfim, de que resultou o agravamento do seu estado de ruína provocado pela explosão do paiol da pólvora.

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publicado às 12:15


O ANTIGO CASTELO DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 28.03.19

Estêvão da Gama de Moura e Azevedo foi governador militar e historiador da vila e do concelho de Campo Maior, vila onde nasceu e foi baptizado, em 27 de Março de 1672 e onde morreu em 23 de Abril de 1714.

João Dubraz , nas suas memórias, refere que ele terá feito a seguinte descrição do antigo castelo de Campo Maior, realçando que (O castelo de agora é quase outro, tanto nas acomodações que contém, como no aspecto ...) e transcreve a descrição que ele, Estêvão da Gama fez, nas suas memórias, em que refere o estado do castelo antes da catrátofe de 1732.

  O castelo está situado na parte mais alta da povoação, ao meio-dia, com quatro torres pequenas e uma grande, junto das quais estavam as casas do alcaide-mor, na parte interior que hoje se chama castelejo, em que se fizeram os armazéns. Tem duas portas: uma para o norte, outra para o sul. Depois das torres tem outra fortificação, que mostra ser mais moderna, porque tem um género defesas. E tem uma terceira fortificação, que guardava toda a vila velha, que ficava com duas portas que ficavam, uma para a Barreira, outra para Santa Maria; e a da Barreira chamava-se Porta do Sol.

A torre grande tem no seu vão três formosas casas que servem de armazém, na qual estão as granadas e a pólvora, porque, com a experiência de 1712, se verificou que a dita torre é à prova de bomba, pois que lhe cairam em cima nove das de maior potência e não lhe causaram a menor ruína. As outras torres estão ocupadas por apretechos militares e  todas as munições necessárias a uma praça de fronteira. Dentro, do castelo, na vila velha, havia casas nobres e algumas ruas, mas só achámos o nome de Rua dos Infantes, o que mostra que, em algum tempo, moravam nela pessoas reais.

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publicado às 09:30


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