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CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( IX )

por Francisco Galego, em 19.02.13

Bela cidade d’Ouguela

Dá vistas pr’a Lapagueira,

Mal empregada cidade

Estar em tamanha ladeira.[1]

 

Teu castelo tão altivo

Tão rico de tradições,

É monumento afamado

P’ra todas as gerações.

 

Fui à torre do castelo,

P’ra Elvas me pus a olhar;

A ver s’alcanço a moça,

Com quem pretendo casar.

 

Gostava que a minha rua,

Fosse chamada saudade;

Porque a rua onde crescemos,

Lembra a nossa mocidade.

 

Sou filho de gente pobre,

Tenho a minha opinião;

Nascido em Campo Maior,

Baptizado em São João.

 

Nasceste em Campo Maior,

Bem mo disse o coração;

Pelo modo de cantar,

Vê-se logo s’és ou não.

 

Moças de Campo Maior,

São muitas parecem poucas;

São com as flores do campo,

Umas encobrem as outras.[2]

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 57

[2] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A.T. Pires. Elvas (1902-1910). Pág. 142.

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publicado às 08:43


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( VIII)

por Francisco Galego, em 13.02.13

Adeus rua da Carreira,  

Já por mim não és seguida;

Já se quebraram os laços, 

Em que me tinhas prendida.[1]

                                                       

À entrada desta rua

À saída desta aldeia,

Namorei uns olhos pretos

Às escuras sem candeia.

 

Entre ruas e ruelas

É famosa esta Canada,

Aqui quem manda são elas

Eles já não mandam nada.

 

Bela rua da Canada,

Está cheia d’opiniões;

Só se vêem p’las janelas,

Gaiolas com perdigões.

 

A água da Fonte Nova

Quem a bebe tem virtude,

Eu passei por lá doente

Agora gozo saúde.

 

A Fonte Nova velhinha,

Apesar de tantos anos,

Vai matando a sede a todos,

Desde os ricos aos ciganos.

 

Ó Senhora da Enxara,

Venha cá abaixo à ribeira;

Qu’esta noite estão a dar,

As bogas à cascalheira.

 

A tua fonte no Largo

A igreja de São João,

São duas jóias queridas

Que trago no coração.



[1] Idem, nº 177, Elvas, 5 de Novembro de 1882.

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publicado às 10:33


CANTAR O ENTRUDO

por Francisco Galego, em 12.02.13

Já lá se vai o Entrudo

Com as sua mangações,

Agora vem a Quaresma

Com rezas e procissões.

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publicado às 10:39


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( VII)

por Francisco Galego, em 05.02.13

À Igreja da Matriz

Feita de pedra morena,

Dentro dela vão rezar

Dois olhos que me dão pena.

 

Bela Igreja da Matriz,

Belo Largo do Convento,

Ó belo Campo Maior,

Onde está meu pensamento.

 

A Rua do 1º de Maio,

Dia dos trabalhadores,

Tem o nome contrafeito

Pois lá só moram senhores.

 

Com Pelourinho, palácios

E Câmara Municipal,                             

Praça Nova ou da República

Serás sempre a principal.

                                 

Campo Maior teu Jardim

É tão bom como os melhores,

De dia juntam-se os velhos

À noite escondem-se amores.

                                                       

O relógio da Matriz,

Bate as horas pr’ó Convento;

Também meu coração bate,

Horas no teu pensamento.[1]

 

Quem quiser ver maravilhas

Chegue-se a Campo Maior,

Janelas avarandadas

Casas mais lindas que o sol.

 

À entrada da Avenida

 Deu um ai meu coração,

Ajuntaram-se as estrelas

Nublou-se o céu com paixão.



[1] Idem, nº 314, Elvas, 11 de Maio de 1884.

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publicado às 09:31


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( VI)

por Francisco Galego, em 29.01.13

A rua da Costanilha,

É custosa de subir,

Os olhos do meu amor,

É que me fazem lá ir.

 

No coração duma pomba,

Nas asas duma andorinha,

Eu fui ver o meu amor,

À rua da Canadinha.

 

A rua do Quebra-costas,

Dá a volta pr’ó castelo,

Nem teu pai nem tua mãe,

Sabem o bem que te quero.

 

Ontem à noite à meia-noite,

À meia-noite seria,

Estava meu amor cantando,

No canto da Mouraria.

 

Eu criei-me na Caleja,

Que é uma rua pobrezinha;

Das outras não tenho inveja,

Não há rua como a minha.

                                                       

Com sangue duma andorinha,

Com a pena dum pavão,

Pus-me a escrever uma carta,

P’ra rua de São João.

 

Eu fui ver a minha amada

À rua de São João,

Parecia uma santinha

Passando na procissão.

 

Igreja de São João,

Tem dois vasos d’assucena;

Lá irei p’ra ver as moças,

A saírem da novena.

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publicado às 08:12


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( V )

por Francisco Galego, em 22.01.13

Lá por fora, em terras distantes, recordava-se a terra que se deixara.

A emigração era uma dor que o tempo iria atenuando. Mas, agora que estava tão próximo do tempo em que se abalara, acudiam à mente e ao sentimento tantas recordações.... Por isso, cantavam-se as ruas, os sítios e os recantos onde se vivera, brincara e convivera, durante a infância e a mocidade:

 

Campo Maior teu jardim,

É tão bom como os melhores,

Quer de dia quer de noite,

Nele passeiam amores.

 

Vila de Campo Maior,

Tua beleza é tamanha,

Que até tens o rio Caia,

Bem encostadinho à Espanha.

 

Ruinha de Santo António,

Sempre dela gostarei.

É uma rua pequenina,

Mas foi lá que me criei;               

 

Sou soldado d’acavalo,

À porta da vila entrei,

Fui rua Direita abaixo,

Nem para o Convento olhei.

 

Ó bela rua Direita,

Entrada das espanholas;

Toca-me essa pandeireta,

Repenica as castanholas.

                               

Na rua da Soalheira,

Não se pode namorar;

De dia, velhas à porta,

De noite, cães a ladrar.[1]

                                                       

Olha lá, ó linguareira,

Que andas a remoer?

Da rua da Soalheira,

Ninguém tem nada a dizer.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 333, Elvas, 12 de Agosto de 1884,  mas com o 1º verso mudado: Na rua do Espírito Santo

 

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publicado às 07:04


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( IV )

por Francisco Galego, em 15.01.13

Já Elvas se está queixando

Que não tem moças formosas,

Cheguem-se a Campo Maior

Que até as silvas dão rosas.         

 

Ó belo Campo Maior

Não és vila nem cidade,

És uma capela d’ouro

Onde brilha a mocidade.

 

Campo Maior minha terra

Terra d’encantos sem par,

Teus cantos e teus recantos

São difíceis d’igualar.

 

Ó belo Campo Maior,

Tudo à roda são “calitros”;[1]

Se tu me quisesses bem,

Não te fiavas em ditos.

 

Ó belo Campo Maior,

És comparado com França;

O adro de São João,

Tem gradarias em lança.[2]

 

Moças de Campo Maior,

Vão bailar par’o castelo;

Todas levam na cabeça,

O seu lencinho amarelo.[3] 

 

Ó Campo Maior das flores,

Onde tenho a minha amada;

Se não logro ver seus olhos,

Minha sorte é desgraçada.[4]



[1] Calitros = eucaliptos

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 420, Elvas, 14 Março de 1886.

[3]  Idem, nº 423, Elvas, 4 de Abril de 1886.

[4] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, p. 56

 

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publicado às 16:56


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( III )

por Francisco Galego, em 07.01.13

 

Elvas porque é cidade,

Vila Boim por nobreza,

Vila de Campo Maior,

Onde está minh’ alma presa.

 

Camponesa, camponesa,

Eu sou de Campo Maior;

Tenho a minha fala presa,

Não posso cantar melhor.[1]

 

Adeus Monte da Defesa,

Tão branquinho e posto ao sol;

Minha mãe é camponesa,

Eu sou de Campo Maior.[2]

 

Nossa fala alentejana

Não a podemos negar;

Toda a gente nos conhece

Pelo modo de cantar.

 

Tenho um amor na cidade,

Outro em Vila Boim,

Outro em Campo Maior,

Esse é que me mata a mim.

 

Aldeia de Santa Eulália

E Povo de São Vicente,

Mas é em Campo Maior,

Que eu tenho a minha gente.

 

Eu venho de muito longe

A passar a Montemor;

Minha fala não conhecem,

Eu sou de Campo Maior.

 

Fui a Espanha fui espanhol,

Fui a França fui francês,

Cheguei a Campo Maior,

Agora sou camponês.



 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 58

[2] Idem, nº 496, Elvas, 27 de Setembro de 1887, recolha de A. T. Pires, com pequenas diferenças.

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publicado às 19:08


CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( II )

por Francisco Galego, em 31.12.12

Antes, no duro trabalho dos campos, os camponeses expressavam o seu desespero e a dureza da sua vida, usando muitas vezes a ironia para disfarçarem a revolta pelas condições do seu modo de viver. Mas cantavam também o amor, namorando enquanto "balhavam", nos bailes dos domingos, dos dias santos, nas festas e nas romarias.

Agora, as condições tinham mudado radicalmente as suas vidas. Lá de longe, as cantigas antigas que vinham à mente eram as que falavam da terra que ficara tão distante. E outras novas, carregadas de saudade, eram inventadas.

 

 

Vila de Campo Maior,

Bela vila amuralhada;

Nela está meu pensamento,

Nela vive a minha amada.[1]

                                                       

Ó belo Campo Maior,

Terra de moças morenas,

Uma delas são ingratas,

Outras delas são tiranas.[2]

 

 

Campo Maior é sol-posto,

Barbacena é lua cheia,

Oh! Bela cidade d’Elvas,

Onde o meu amor passeia.[3]

 

Oh! Belo Campo Maior,

Bem podias ter colégio,

A água da Fonte Nova,

Tem fama no Alentejo.

 

Se queres sentir alegria,

Chega-te a Campo Maior;

Lindas fontes d’água fria,

Caras mais lindas que o sol.[4]

                                                       

Ó belo Campo Maior,

Terra de moças formosas,

És ainda mais bonito,

Cheio de cravos e rosas.

 

Ó belo Campo Maior,

Fronteira com Badajoz;

Ó terra maravilhosa,

Orgulho de todos nós.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 154, Elvas, 21 de Setembro de 1882.

[2] Idem, nº 231,  Elvas,17 de Junho de 1883.

[3] Idem, nº 166, Elvas, 2 de Novembro de 1882. Repare-se que, esta cantiga e as assinaladas nas notas 1 e 2 constituem excepção, pois que, pelo tema, são mais propriamente cantigas de bem-querer, do que cantigas de saudade por Campo Maior. Todas as outras cantigas deste tema, são de construção bem mais recente, ou seja, da 2ª metade do século XX.

[4] Idem, nº 345, Elvas, 6 de Novembro de 1884, segundo recolha de A. T. Pires, com algumas diferenças.

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publicado às 18:53


UM RECOMEÇO... CANTIGAS A CAMPO MAIOR ( I )

por Francisco Galego, em 24.12.12

As minhas desculpas pelo interregno. Mas certas tarefas deixam marcas. Por outro lado, às vezes o melhor é parar para retomar folgo.

Enfim... cá estamos de novo para continuar. e vamos retomar com AS SAIAS, a maior e mais antiga expressão cultural dos campomaiorenses que luta hoje com muita dificuldade para não cair em total esquecimento e que tão mal tratadas são, de facto, hoje.

Tratemos pois de as divulgar tal como elas foram no seu tempo de apogeu.

 

Devido à mecanização da agricultura e ao surto industrial nas grandes cidades do litoral, a partir de inícios dos anos cinquenta do século passado, verificou-se um êxodo massivo das populações rurais para os grandes centros urbanos.

O desemprego frequente dos que se ocupavam nos trabalhos agrícolas que sempre fora uma das causas da constante situação de miséria dos assalariados agrícolas – sempre dependentes das condições do clima e do carácter sazonal do trabalho nos campos – tornou-se uma realidade dramaticamente presente, a partir da mecanização da agricultura, afectando não apenas os assalariados mas também os pequenos e médios agricultores. Estes, não tendo capacidade para adquirirem equipamentos de custos elevados, viram-se coagidos a vender as suas terras aos grandes proprietários.

Para toda esta gente, excluída da actividade agrícola, restava a debandada para as cidades.

Este êxodo foi logo seguido, nos anos sessenta, pela sangria demográfica que levou boa parte da população de Campo Maior a emigrar para os países da Europa central. Basta pensarmos no impacto destes fenómenos sobre o modo de vida de uma pequena comunidade, como era nesse tempo Campo Maior, para entendermos as modificações que, naturalmente, teriam de ocorrer.

A nível do “cantar as saias” verificou-se o rareamento das quadras que se cantavam enquanto se cultivavam os campos. Em contrapartida, verificou-se um significativo aumento de quadras de temática bairrista, muito ao gosto e ao encontro dos sentimentos saudosistas dos que estavam afastados da terra que os vira nascer.

Assim, lá longe, onde se vivia, a terra que, por força das voltas que a vida dá, se tivera que deixar, passava a ser imaginada com os encantos que lhe eram acrescentados por uma sofrida saudade.

Cantavam-se assim, de longe, os encantos da vila: 

 

Campo Maior terra linda,

Com’outra não há igual;

Esta terra é a rainha,

Na raia de Portugal.

 

Campo Maior tão velhinho,

Às portas tens um brasão;

Tu recebes com carinho,

A todos sem distinção.

 

Ó belo Campo Maior,

Com muralhas à francesa,

Cada vez canto melhor,

Cantigas à camponesa.[1]

 

Ó belo Campo Maior,

Meu cantinho alentejano;

És no nosso Portugal,

A terra que eu mais amo.

 

Ó belo Campo Maior,

Numa colina pousada;

Com terras de Espanha à vista

Pelos ‘spanhóis cobiçada.

 

Ó belo Campo Maior,

Terra de contrabandistas;

De gente boa e leal,

E das “festas dos artistas”.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do Alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, pág. 56, com algumas diferenças.

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publicado às 18:27


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