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CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO XIV

por Francisco Galego, em 18.07.12

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( II )

 

13.

À casa que leva a palha,

Logo lhe chamam palheiro;

Eu tenho na minha sina,

De casar com um carreiro.

 

14.

Mesmo ao andar escardando,

Colhendo ervas à mão;

Não deixo de ser briosa,

Como aquelas que o são.

 

15.

Belo Monte da De Castro,

Quem me dera agora lá;

Para ver o meu amor,

De saúde como está.

 

16.

Belo Monte D’Atalaia.

Belo D’Atalaia Monte;

Bela Ribeira de Caia,

Co’a Amoreirinha defronte.

 

17.

Não quero amor de carreiro,

Que tem a vida arriscada;

Quero amor de ganadeiro,

Que vai dormir à malhada.[1]

 

18.

P’ra carregar um carreiro,

Para lavrar um ganhão;

P’ra namorar um padeiro,

Um guarda p’ra mandrião.[2]

                                                       

19.

O meu amor é pastor,

Guarda ovelhas d’alavão[3];

E já tem malhada assente,

Dentro do meu coração.[4]

 

20.

Toda a vida guardei gado,

Eu sempre fui ganadeiro;

Uso safões e cajado,

Uso pelico[5] e caldeiro

 

21.

Contrabandista valente,

Corres campinas e vaes[6];

Com guardas pela frente,

Com pistolas e punhais.[7]

 

22.

Vou lavar roupa à ribeira,

Estendo a roupa a corar;

Nunca chorei por amores,

Como hei-de agora chorar.

 

23.

Canta o cantoneiro na estrada,

Na quinta canta o quinteiro;

Canta a moça bem prendada

E canta o rapaz solteiro.

                                 

O meu amor é caixeiro,

Tem fitas para me dar;

Vale mais que quem não tem,

Nem dinheiro p’ras comprar.[8]

 

Empregados no comércio,

Não têm aceitação,

Pois só sabem encostar,

À gaveta do patrão.[9]

 

24.

Alfaiate ou sapateiro,

Isso sim que é bom artista,

Trabalham, ganham dinheiro,

E estão sempre à nossa vista.[10]

 

 


[1] Idem, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[2] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 130.

[3] Ovelhas paridas, à quais se destinavam os melhores pastos pois produziam leite para fabrico de queijos.

[4] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 130.

[5] Peça de vestuário, espécie de agasalho masculino, fabricada com pele de ovelha.

[6] Vaes  = Vales

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[8] Idem, nº 159, Elvas, 8 de Outubro de 1882.

[9] Idem, nº 235, Elvas, 1 de Julho de 1883.

[10] Idem, nº 579, Elvas, 25 de Janeiro de 1891.

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publicado às 17:07



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