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CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO XV

por Francisco Galego, em 25.07.12

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( III )

 

25.

Alfaiate ou sapateiro,

Isso sim que é bom artista,

Trabalham, ganham dinheiro,

E estão sempre à nossa vista.[1]

 

26.

O ofício d’alvanéu,

É ofício de grandeza;

Trabalham com colher d’aço,

Que a de pau é baixeza.[2]

 

27.

O meu amor é do campo,

É do campo e é quinteiro;

Rega o pé ao laranjal,

A raiz ao limoeiro.[3]

 

 

28.

Sapateiros não são homens,

Alfaiates também não;

Homens são os cavadores,

Que cavam na terra o pão.

 

29.

Mal empregada fui eu,

Ferreiro na tua mão;

Era branca fiz-me negra,

De andar ao pé do carvão.[4]

                                                       

30.

Boieiro vai para os bois,

Que a manhã já vem rompendo;

Não quero que teu amo diga,

Que eu te estive entretendo.[5]

 

31.

Hoje não fui escardar,

P’ra falar ao meu Joaquim;

Não quero que ele abale,

Sem se despedir de mim.

 

32.

Não quero mais ir à escarda,

Não quero mais escardar;

Foi na escarda que ganhei,

Dinheiro p’ra me casar.[6]

 

33.

A vida do almocreve,

É uma vida arriscada;

Ao subir duma ladeira,

Ao cerrar uma carrada.[7]

 

34.

Eu fui lá ao São Mateus,

No ano em que choveu milho;

Encontrei o meu amor,

Fabricante de ladrilho.[8]

 

35.

Não quero amor d’alvanéu,

Que trabalha lá no alto;

Pode cair e morrer,

Vive sempre em sobressalto.[9]

 

36.

Andei desde pequenina,

Pelas casas a servir;

Não tenho nada de meu,

Mais que a roupa de vestir.

 

Olha o triste sapateiro,

Está batendo a sola ao sol;

Agachado no tripé,

Passando o fio no cerol.[10]

 

Não há nada mais bonito,

Que um marido lavrador;

Eu hei-de casar contigo,

Hás-de ser o meu amor.

 

Já não há p’raí quem queira,

Acomodar um ganhão;

P’ró alqueive e sementeira,

E p’ra ceifa no Verão.[11]

 

Esta vida de boieiro,

É uma vida arrastada;

Não tem noite nem tem dia,

Nem sesta nem madrugada.[12]

 

Triste vida a dum ganhão,

Andar sempre a trabalhar;

Dá-lhe Deus uma doença,

Vai morrer ao hospital.[13]

                                                       

 

O amor do lavrador,

É que agrada às raparigas;

Boa bota, boa calça

E chapéu preto à rebimba.

 

O meu amor é do campo,

Do campo e sabe lavrar;

Não é paivante da vila,

Que só saiba namorar.[14]

 

O meu amor é do campo,

É do campo é camponês;

Mais vale um amor do campo,

Que da vila dois ou três.[15]

 

A enxada com que cavo,

Meu pai com ela cavou;

O arado com que lavro,

Foi deixas do meu avô.

 

 

 



[1] Idem, nº 579, Elvas, 25 de Janeiro de 1891.

[2] Idem, nº 286, Elvas, 4 de Janeiro de 1884.

[3] Idem, nº 283, Elvas, 21 de Dezembro de 1883.

[4] Idem, nº 233, Elvas, 24 de Junho de 1883.

[5] Idem, nº 162, Elvas, 19 de Junho de 1882, mas com algumas diferenças.

[6] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 140.

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 425, Elvas, 18 de Abril de 1886.

Publicada também em Cancioneiro Popular, por Jaime Cortesão. Porto, 1914, pág. 84.

[8] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 425, Elvas, 18 de Abril de 1886

[9] Idem, nº 361, Elvas, 23 Fevereiro de 1885.

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publicado às 17:02


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