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CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO X

por Francisco Galego, em 14.06.12

Cancioneiro da Ceifa (III)

 

 

Já acabaram as ceifas,

No campo fica o restolho;

Raparigas não confiem,

Em rapaz que pisca o olho.

 

Ai que calma está caindo,

Em cima dum ceifador;

Quem fora folha de palma,

Que cobrira o meu amor.[1]

 

Não é a ceifa que mata,

Nem são as calmas do Verão;

É a erva unha-gata,

Mais o cardo beija-mão.[2]

 

Esta calma abrasa o mundo,

Quem me dera a fresquidão;

Anda meu amor na ceifa,

Já lhe falta comprensão.[3]

 

Meu amor foi para a ceifa,

Queira Deus que volte cedo;

Abalou deixou-me só,

Metida neste degredo.

                                                       

O meu amor foi p’ra ceifa,

Deus queira que corte um dedo;

Abalou deixou-me só,

Metida neste degredo.[4]

 

O pão seco é que estala,

Quando se lhe mete a foice;

Quem tem má-língua é que fala,

Que tem mau génio dá coice.[5]

 

Abalaste para a ceifa,

P’ra lá de Campo Maior;

Bordei-te um lenço encarnado,

Para limpares o suor.[6]

 

Ceifeira dos olhos pretos,

Senhora dos meus amores;

Entre o trigo e as papoilas,

És a rainha das flores.

 

Por cima se ceifa o pão,

Por baixo fica o restolho;

Menina não s’enamore

De rapaz que empisca o olho.[7]

 

Sou ceifeira trago botas

E também trago mantéu;

E trago uma papoila,

Na fita do meu chapéu.[8]

 

Tudo o que é verde seca,

Em vindo o calor do Verão;

Só as penas reverdecem,

Dentro do meu coração.

 



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 570, Elvas, 11 de Maio de 1890.

[2] Idem, nº 580, Elvas, 23 de Fevereiro de 1891.

[3] Comprensão = vontade, capacidade, força, paciência.

[4] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 281, Elvas, 15 de Dezembro de 1883.

[5] Idem, nº 361, Elvas, 23 de Fevereiro de 1885, com algumas diferenças.

[6] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, p. 59. Aparece também no CancioneiroPopular de Jaime Cortesão, 1914, p.167, na versão:

 

                                               O meu amor foi à ceifa,

                                               P’ra lá de Campo Maior;

                                               Mandei-lhe um lenço encarnado,

                                               Para alimpar o suor.

 

[7] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 358, Elvas, 31 de Janeiro de 1885.

[8] Idem, nº 417, Elvas, 21 Fevereiro de 1886.


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