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Carnaval de outros tempos II

por Francisco Galego, em 16.02.07
Estamos numa época do ano em que, no meu tempo de infância, as gentes do campo chamavam, segundo uma designação mais antiga, de Entrudo e que a gente que se tinha por mais ilustrada designava por Carnaval.
Por vezes, nos jornais do século XIX que actualmente me entretenho a investigar, encontro referências ao Carnaval de outros tempos, em Campo Maior. São, geralmente, referências a um Carnaval “bem comportado”, de gente séria que não cometia desmandos e que desdenhava e censurava “as grosseiras e violentas diversões das gentes rudes do campo, sem sentido das medidas e sem educação”. Por exemplo:
 No domingo gordo inauguraram-se nesta vila os bailes públicos de máscaras. O primeiro teve lugar no teatro (do castelo), levado a efeito pela Sociedade Artística, auxiliada por alguns não artistas, os quais, em comissão mista, tomaram a direcção do espectáculo. O teatro estava ornado sem luxo, mas com asseio e bom gosto e manteve-se em toda a noite na mais rigorosa decência. À entrada do salão de baile (plateia superior), cada máscara dizia o seu nome ao presidente da comissão.
A filarmónica artística, vestida uniformemente, deu começo ao espectáculo com uma sinfonia: levantado o pano, um artista, moço de merecimento moral e intelectual, entrou em cena com os emblemas que representam o tempo e figurou as quatro estações do ano…com versos alusivos.
Depois começou o baile que durou até às 2 horas da noite. Nos intervalos houve quadros vivos…
“No terceiro dia de Entrudo teve lugar o segundo baile de máscaras. Foi brilhante, foi até esplêndido e houve um grande concurso de espectadores. Desta vez, o número de Máscaras não baixou de sessenta: apareceram costumes variados e de bom gosto e houve muita animação. O ardor dos dançadores chegou a ser por vezes frenético … o movimento e alegria foram constantes…
À comissão que dirigiu os espectáculos, todos os louvores são devidos: nunca os houve em Campo Maior com mais ordem…” (In A Voz do Alentejo, 1866).
Muito raramente aparecem referências às outras manifestações do outro Carnaval, o Entrudo rude e violento, principalmente à celebração da “5ª- feira das comadres”, pela gente mais ligada ao trabalho nos campos e que eu ainda presenciei, em toda a sua pujança, nos tempos da minha infância.
Nesse tempo, quando se começavam a ouvir os estrondos do rebentar das bombas e os gritos chistosos com que a rapaziada perseguia as vítimas das impertinentes partidas, sabíamos que o Entrudo tinha começado.
Os “largalos” consistiam em rabos dos animais esfolados, trapos ou escritos com frases como Sou burro, Fujam que marro, que os brincalhões se entretinham a pregar nas costas dos incautos que eram escolhidos para vítimas. A tarefa de pregar estes objectos nas costas das pessoas sem que estas o pressentissem, exigia descaramento, astúcia, rapidez e perícia. Depois, o desgraçado a que se pregava a partida, ia passando pelas ruas sob a chufa dos gozadores divertidos que gritavam, “Lárga-lo!... Lárga-lo!” evitando que este percebesse que era o alvo desta gozação.
O rapazio adorava o perigoso jogo do lançar de bombas e de fazer rabear os busca-pés, com que procuravam assustar as pessoas. E não apenas nas ruas. O hábito que nesse tempo havia de manter abertas as portas das casas, dava azo a que os mais violentos deitassem esses objectos para dentro das casas o que dava origem a grandes sustos e alaridos. Os gritos das mulheres assustadas e as correrias dos malandros que procuravam fugir sem serem identificados, punham as ruas em alvoroço.
De noite formavam-se as trupes de mascarados que percorriam as ruas metendo-se com quem por eles passava. Caraças, mascarilhas, pinturas e óculos serviam para esconder a identidade, permitindo atitudes que não se assumiam de cara descoberta. Os homens e as mulheres aproveitavam para se travestirem envergando roupas velhas e grotescas, disfarçando a voz, aproveitando este período de maior liberalidade de comportamentos que não eram admitidos em situações normais de convivência em sociedade, como o hábito de mascarrar e de enfarinhar que permitia um contacto físico entre os sexos que estava de todo vedado nas condições normais do resto do ano. Por vezes, esses bandos de foliões entravam de rompante pelas casas, sendo recebidos em alarido pelos moradores e pelos vizinhos que acorriam a participar na festança. Se a trupe ia acompanhada de tocadores, podia mesmo improvisar-se uma bailarada.
 Mandava o decoro que se respeitassem as pessoas e as casas dos que, por razões de doença ou de morte, estivessem em situação de resguardo ou de luto. Aliás, exigia o decoro que essas pessoas se mantivessem o mais distantes possível das manifestações do Entrudo.
Os dias grandes do Entrudo mais ligado à cultura camponesa eram a 5ª- feira das Comadres e a 5ª- feira dos Compadres. Na das Comadres, os homens organizavam-se em bandos para a chocalhada: cobertos de capas oleadas e fazendo soar grandes chocalhos e mangas, iam pelas ruas provocando as mulheres que respondiam ao desfio lançando sobre eles baldes de água, nem sempre limpa, cinza, pó de carvão, farelos e serradura e outras coisas menos próprias que não convém designar. Agrupadas em certas casas, as mulheres colocavam à janela estandartes de panos coloridos, enfeitados com vistosas fitas e outros ornamentos, desafiando os homens a que os tentassem alcançar. Iniciava-se então uma feroz contenda em que os que estavam em baixo procuravam a todo o custo subir para alcançar o apetecido troféu e as que estavam em cima tudo faziam para impedir que tal objectivo fosse concretizado.
Na 5ª-feira dos Compadres o estandarte era substituído por um espantalho e de novo se desencadeava a contenda.
Realizavam-se muitos bailes no Entrudo. Os rurais – jornaleiros, criados e criadas de servir – frequentavam os da “sociedade da música” que, por estar ladrilhada com lajes de xisto negro que largava um pó que se agrava à roupa, era, por graça, designada pelo nome de “casinha do picom” ou por “bailes do assento” devido á localização da sociedade.
Os bailes da “sociedade da praça” eram reservados a uma espécie de classe média que incluía os comerciantes e os homens dos ofícios – ferreiros e ferradores, carpinteiros de “finos” e de “obra grossa”, comerciantes e caixeiros, pedreiros (alvanéus), paneiros e alfaiates, sapateiros, correeiros e albardeiros – enfim, todos os que tinham profissão não relacionada com o trabalho no campo ou que cultivassem apenas terras por sua própria conta, ou seja, os pequenos e médios proprietários.
Por volta de meados do século passado, foi mantido o hábito de se organizarem as Marchas de Entrudo, com algumas semelhanças com as actuais marchas populares – como as de Lisboa - só que com um aspecto mais chocarreiro, de acordo com o carácter carnavalesco da quadra. Deram muito nas vistas algumas marchas organizadas e ensaiadas pelo Carrasco e pela parceria constituída pelo sapateiro Joaquim d’Elvas e pelo, sacristão da Matriz, António Bajé. Estas distinguiam-se pelo brilho dos figurinos, pela perfeição das danças coreografadas e pelo cuidado que punham nas músicas e cantares ensaiados para o efeito. Os dois elementos da parceria referida esforçavam-se sempre por se apresentarem travestidos da forma mais gloriosa que lhes fosse possível, compondo extraordinárias personagens de rainhas, fadas ou princesas, pois, além da marcha que iam cantado e dançando, paravam nos cruzamentos das ruas e nas praças para representarem pequenos entremezes como, por exemplo, a extraordinária saga da “Princesa Magalona”.
Numa sociedade profundamente estratificada como a que nesse tempo habitava Campo Maior, nem no Entrudo eram concebíveis misturas das “pessoas comuns” com as “famílias notáveis”. Estas faziam, à sua maneira, o seu Carnaval: organizavam as suas trupes para irem de casa em casa animar as pessoas do seu “meio”.Os seus bailes eram reservados e realizavam-se em casas particulares – os assaltos -, ou no Grémio, sociedade recreativa muito selectiva, designada por “a sociedade dos ricos”.
Esta “elite social”, durante alguns anos organizou uma espécie de corso local, um cortejo ou desfile que o povo designava por “a batalha das flores” e que consistia em as famílias do “círculo dos importantes” desfilarem ao longo da rua da Canada, em charretes ou noutro tipo de trens de tracção animal, travando uma amável “batalha” de pequenos saquinhos de farinha, grão, feijão, farelo, serpentinas, papelinhos, entre os que circulavam e os que assistiam na rua ou nas janelas. Ao povo cabia o papel de assistir e de se deslumbrar com o brilho dos trajes de dominós, damas antigas, arlequins e columbinas, envergados pelos figurantes.
Hoje, tudo está mais igual. A sociedade está seguramente mais justa e isso é mesmo muito importante. Mas custa um pouco a aceitar que a vida se tenha tornado muito mais interessante.
Campo Maior, 7 de Fevereiro de 2007
(Publicado em Região em Notícias de Campo Maior, 16 de Fevereiro de 2007)

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publicado às 14:46


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