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CANTIGAS AO DESAFIO III

por Francisco Galego, em 16.12.11

Quando os despiques punham frente a frente cantadores afamados, podiam durar horas. Formavam-se então dois partidos entre os assistentes, apoiando cada um deles o cantador da sua predilecção. No fim de cada quadra cantada, o murmúrio, de aprovação ou de crítica, sublinhava o apreço que se fazia de cada intervenção.

            O despique começava por um cantador que puxando uma cantiga para o baile de roda, lançava o desafio. Se outro respondia tínhamos a função começada e esta iria até onde chegasse a classe e a resistência dos contendores. Por vezes, um deles desistia. Se um outro tomava o seu lugar, a disputa continuava. Se ninguém levantava o repto, estava encontrado o vencedor.

 Nem sempre o bom cantador conseguia ser, simultaneamente, um bom versejador. Em contrapartida, havia também quem tivesse dom para os versos e fosse repentista a fazê-los, sendo, contudo, fraco no descante. Por isso, formavam-se parcerias que corriam os bailes, cantando um o que o outro improvisava. Esta situação ficou documentada nestas quadras cantadas num desafio em que, de forma clara, se fez a afirmação de que a parceria funcionava como uma unidade na produção e no cantar das quadras:

 

- Quem acabou de cantar,

Tem uma fina garganta;

Mas as falas não são feitas,

Por aquele que as canta.

 

- Eu mais meu camarada,

Meu camarada mais eu,

Ele está p’ra minhas falas,

P’ró cante delas estou eu.

 

            Tratando-se de quadras de improviso, logo feitas a propósito e no momento, tornava-se muito difícil conservar de memória o conteúdo total destes desafios, sobretudo quando eram extensos. Daí que pouco tenha chegado até nós do muito que, no decurso dos tempos, foi sendo produzido nestas memoráveis demonstrações de repentismo e poder de improvisão poética.

Acontecia porém que, por vezes, a perfeição formal das quadras ou o brilho das respostas que nelas se continham era tão notável, que eram conservadas na memória colectiva por muitos anos. Algumas das quadras que ainda hoje se cantam podem ter sido criadas durante sessões de cantares em desafio.

 

            De modo muito feliz, Luísa Freire, no seu livro “O Feitiço da Quadra”, conseguiu reconstituir dois exemplares notáveis destas demonstrações. Com a devida vénia, aqui se faz a sua reprodução, acrescentada de quadras que outras fontes fizeram chegar ao nosso conhecimento. No primeiro caso temos um desafio entre dois homens de diferentes gerações e é a sua diferença de idades que constitui o tema central do despique:

 

- Já cantei uma cantiga,

Com esta já lá vão duas,

Não me vou daqui embora,

Sem ouvir uma das tuas.

 

- Cantigas ao desfio,

Eu gosto de ouvir cantar;

Gente puxando a garganta,

P’ra ver onde vão parar.

 

- Só aqui vamos a ver

Quem é melhor cantador;

Cantas tu, respondo eu,

A ver quem canta melhor.

                                                                                             

- Eu sou filho do cantar,

Neto de quem canta bem;

O mestre que me ensinou,

Não ensina a mais ninguém.

 

- Cala-te aí, cantador,

Não tenhas tanta vaidade,

Pois tu não cantas melhor

Que eu cantei na mocidade.

 

- Tens orgulho e tens vaidade

Dos tempos que já lá vão.

Mas agora canto eu,

É a minha ocasião.

 

- A velho vais tu chegar

Um dia, então lembrarás

Com carinho e saudades

Do tempo deixado atrás.

 

- A idade não importa.

Ainda és bom cantador.

Nós temos boas gargantas

No nosso Campo Maior.

 

- Nem sabes quanta alegria

No meu coração puseste!

Um dia podes sentir

A alegria que me deste.

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publicado às 18:09


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