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CANTIGAS AO DESAFIO I

por Francisco Galego, em 06.12.11

O cantar à desgarrada é uma tradição de canto popular que se usou em todas as regiões do nosso país revestindo as mais variadas formas musicais: desde o fado aos cantares do Minho e dos cantares das Beiras aos do Algarve. Também no cantar de “saias” se usa a desgarrada:

 

Campo Maior que bem cantas,

As saias à desgarrada;

Ouvem-se belas gargantas,

De noite e de madrugada.

 

 

Antigamente, nos bailes de saias, eram frequentes as desgarradas, despiques, ou cantares ao desafio. Essa velha tradição tem-se vindo a desvanecer de tal modo que, hoje, só muito raramente se consegue ouvir uma boa disputa entre cantadores. Forma de cantar de improviso, só os dotados de maior repentismo e capacidade de improvisação a ela se podiam abalançar. Contudo, há algumas décadas, ainda se podia, com alguma sorte, assistir a homéricas sessões de confrontos poéticos que, em certos casos chegavam a durar horas. A assistência dividia-se no apreço por cada um dos cantadores. Algumas dessas disputas ficaram gravadas na memória da população. 

Nesses tempos, os melhores cantadores mantinham rijas confrontações poéticas, animando com o seu cantar os bailes, ao mesmo tempo que exibiam os seus dotes, tentando apurar quem tinha maior capacidade de improvisação, de repentismo e maior habilidade no versejar.

            Quando se tratava dos mais afamados, faziam-se grandes ajuntamentos que, num silêncio atento e expectante, seguiam o desenrolar da peleja.

Os pares em disputa podiam ser constituídos por dois homens, por um homem e uma mulher ou, muito raramente, por duas mulheres. As mulheres, para se darem ao respeito, só entravam nos desafios com os homens a quem as ligavam laços de afecto ou de intimidade. Por isso, se desafiadas, respondiam com o silêncio ou, cantando, rematavam a hipótese de desafio:

 

 

 

Desafio, desafio,

Desafio é p’ra quem quer,

Desafio é para os homens,

Não p’ra mim que sou mulher.

 

         Podia-se também rejeitar o repto, alegando falta de competência:

 

Desafio, desafio,

Eu não te desafiei;

Desafio é p’ra quem sabe,

Não p’ra mim que nada sei.

 

         Acontecia também serem outras as razões evocadas para não se responder ao repto lançado:

Quero cantar mas não posso,

Minha fala não me ajuda;

Morreu-me o meu pai há pouco,

Sou filho duma viúva.



 

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publicado às 18:02



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