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O CANTAR DE SAIAS VII

por Francisco Galego, em 01.12.11

Quem se tenha dado ao trabalho de ler os cancioneiros populares que se têm publicado em Portugal, não pode deixar de reparar na frequência com que uma mesma cantiga aparece nas terras mais variadas, havendo por vezes grandes distâncias entre elas. Maria Arminda Zaluar Nunes, na Introdução ao “Cancioneiro Popular Português, coligido por José Leite de Vasconcelos, chama a atenção para este facto escrevendo na p. XII:

(…) é curioso observar-se como a mesma trova é cantada em numerosos locais, se bem que afastados. Isso compreende-se porque as cantigas como que voam de terra em terra.

Acontece também que aparecem quadras com o mesmo conteúdo poético, mas com formulações diferentes que lhes foram sendo dadas ao longo de um período que pode ser de mais de duzentos anos. Nestes casos optou-se pela transcrição que se apresentava como mais actualizada em relação às situações presentes e mais elaborada do ponto de vista formal.

É espantosa a ternura contida em grande parte destas pequenas composições que se transformam em “grandes” poemas de amor. A ternura que transmitem é, por vezes, tão elevada, que chega a causar espanto que tenham sido criadas e utilizadas por gente de tão pouca instrução e suportando, no dia-a-dia da vida, o pesado fardo dos trabalhos nos campos. Para além da ternura, algumas destas quadras encerram grandes pensamentos acerca do amor, da vida, da sociedade e do universo. Aqui encontramos motivo para reflexão e base para concluirmos que instrução e cultura são conceitos bem diferenciados e que podem referir realidades muito distintas. O povo pode não ser instruído em termos de educação escolar. Mas só os arrogantes se baseiam nisso para o menorizar do ponto de vista cultural. As “saias”, expressão de uma cultura popular criada e vivida pelas gentes do campo, aí estão para o demonstrar. Basta que sejam lidas com a devida atenção, de espírito aberto e sem preconceitos de qualquer espécie.

 

Se soubesses meu amor,

Como está meu coração;

Nem a noite mais escura,

Se compara em escuridão.

 

Vestida d’azul claro,

Que linda estás minha loura;

Encostada a essa ombreira,

Pareces Nossa Senhora.

 

Quando o meu amor se foi,

Sete lenços ensopei;

Ainda diz aquele ingrato,

Que por ele não chorei.

 

 

Se meu amor cá estivesse,

Que lindo seria o dia;

O meu viver era outro,

Tinha o dobro d’alegria.

 

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publicado às 19:48


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