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NO ANTIGAMENTE … CAMPO MAIOR (I)

por Francisco Galego, em 05.07.07
Quem se dedica ao estudo da História de Campo Maior, acaba sempre por se encontrar com a necessidade de perceber as razões que justificam que esta terra tenha conhecido um desenvolvimento contínuo ao longo dos tempos, enquanto outras que lhe são próximas e com origens similares definharam até quase desaparecerem, como Ouguela, e outras estagnaram num passado eminentemente rural como, por exemplo, Juromenha. As linhas que se seguem pretendem ser um modesto contributo para encontrar algumas respostas para esta questão.
António Henriques da Silveira no seu “Racional Discurso sobre a Agricultura e População da Província do Alem-Tejo”, in Memorias Economicas para o adiantamento da Agricultura, das Artes e da Industria Portuguesa, publicada pela Academia das Ciências, tomo I, 1789, coloca entre as terras mais férteis do Alentejo os “barros vermelhos” de Elvas, de Campo Maior, de Fronteira e de Estremoz. Para além destas povoações cita apenas Olivença, Beja e Serpa como terras com especial aptidão para a cultura dos cereais, principalmente do trigo.
Segundo Albert Silbert que tanto se dedicou à História do Alentejo, o concelho de Campo Maior é particularmente fácil de conhecer, pois que a documentação que lhe diz respeito é abundante e precisa.
 
Tanto como a cultura dos cereais, principalmente do trigo, o pastoreio era importantíssimo neste concelho, como actividade complementar da sua economia agrária, pois o gado, principalmente o ovino, aproveitava o que ficava como restolho depois das ceifas e os pastos que cresciam nas terras em pousio.
Mas, tendo Campo Maior um território muito pequeno, a sobrecarga da actividade pastoril durante o tempo que decorria entre a sementeira e a colheita das searas, os pastores tinham mesmo que ir procurar pastagens noutras terras, a dezoito e vinte léguas de distância. Deslocavam-se com os seus rebanhos para as terras a norte de Portalegre, nomeadamente os pastos de Niza, todos os anos, entre o começo de Outubro e o final do mês de Março.
Os documentos referem também que da Beira vinham muitos pastores para exercerem a sua actividade em Campo Maior. Vinham na expectativa de que aqui pudessem fazer fortuna, pensando poderem ir adquirindo gado próprio e, um dia, virem a tornar-se autênticos lavradores, sonho que alguns deles conseguiam tornar realidade.
A existência do livre pastoreio nas terras do termo de Campo Maior, parece não ter levantado problemas até meados do século XVIII. O uso comunitário das pastagens estendia-se a todo o seu território. Não encontramos aqui, como noutros concelhos, documentos que façam qualquer alusão ao hábito de leiloar as pastagens.
Numa notícia de 1758, estava claramente explicitado que o termo de Campo Maior “é todo baldio por conta dos gados”. Mas, por essa altura, começaram a surgir contestações a este regime de pastoreio livre. Uma petição enviada à Corte Suprema em 1755 manifesta a hostilidade dos proprietários das terras à livre utilização dos pastos. 
A tradição da livre pastagem nas terras baldias era costume tão arreigado que as gentes de Campo Maior não possuíam sequer uma reserva comum para os bois. Por isso, desde o começo do século XVII, foi adoptada uma solução que consistia em que cada cultivador deixasse em defeso uma parte da terra que explorava e a que se chamava o remendo. Esta parte era delimitada nos alqueives, por um rego de charrua e era reservada para alimento dos seus animais. Todos os anos tinham de requerer ao juiz de fora, entre 1 de Novembro e 31 de Janeiro, a autorização para traçar o remendo. Estas porções ficavam isentas do dever de livre pastagem, desde o momento que a autorização era concedida, até 31 de Maio.
Esta solução era original mas, no fundo, só interessava aos lavradores que podiam dispor da terra em regime de permanência. Para os seareiros,classe muito numerosa em Campo Maior, que trabalhavam courelas em regime de arrendamento, ficava apenas a possibilidade de recorrerem às terras comunais reservadas para este efeito. A maior parte da produção de trigo no concelho era garantida pela actividade destes seareiros. Mas, também eles tinham na criação de gado um complemento para compensar os escassos ganhos que obtinham na agricultura nos anos em que era fraca a colheita dos cereais. A estes convinha manter a situação de livre acesso às pastagens segundo a tradição do concelho.
Contudo, a maior parte do território estava dividida em herdades arrendadas aos lavradores emuitas delas eram destinadas apenas ao pastoreio de gado ovino. Aos seus exploradores convinha a reserva do direito de pastagens. Por isso lutavam contra o direito de livre pastoreio.
Quando uma provisão de 1788 aboliu o pastoreio livre no termo de Campo Maior, contrariando o que era uma antiga tradição neste concelho, houve uma forte resistência à decisão que passava a permitir que as herdades pudessem ser coutadas e vedadas à livre utilização pelos rebanhos. A população queixava-se de que, em consequência da decisão de 1788, cerca de centena e meia de herdades estavam ao abandono, servindo apenas para apascentar os gados dos proprietários. Daqui resultavam grandes prejuízos em termos de produção e graves problemas sociais porque o pastoreio, exigindo muito menos mão-de-obra do que o cultivo dos campos, lançava na miséria os trabalhadores que, em desespero, recorriam à mendicidade e ao roubo para garantirem a sua magra subsistência. O crescente absentismo dos grandes lavradores foi apontado como o principal factor da crise generalizada que se viveu em todo o Alentejo, em finais do século XVIII e nas primeiras décadas do século XIX.
O pastoreio em grande escala praticado pelos lavradores nessas herdades favoreceu a acumulação de vultuosos capitais e o desenvolvimento do capitalismo agrário nesta região do Alentejo.
 
Em Campo Maior, segundo dados de 1823, era significativo o volume da produção de trigo, aveia e cevada. A cultura de legumes era limitada a pequenas extensões em hortas e quintas na proximidade da vila. Os alqueives eram aproveitados para semear em grandes quantidades algumas leguminosas (os grãos, os chicharos e as favas). Contudo, só a produção de trigo era verdadeiramente excedentária permitindo a sua exportação para fora do concelho.
As condições dos transportes não permitiam levar com facilidade grandes quantidades de mercadorias a grandes distâncias. Apesar disso, muito do trigo produzido no Alentejo chegava até Lisboa. O Tejo e o Sado eram as principais vias para encaminhar os cereais para a capital. São conhecidas as ligações que a vila de Campo Maior mantinha com o porto fluvial de Abrantes. Mesmo num ano difícil como, por razões militares, foi o de 1809, devido às invasões francesas, Campo Maior enviou, no mês de Maio, com destino a Lisboa, 2.742 alqueires de trigo.
O transporte era feito em carros puxados por bestas pertencendo a pessoas que faziam do acarreto de mercadorias a sua principal actividade – os carreteiros. Estes faziam o caminho de Abrantes, transportando o trigo, tanto por sua própria conta, como por conta de particulares. Além de Campo Maior participavam neste comércio carreteiros de outras terras como Portalegre, Arronches, Veiros, Gáfete, e Vila Viçosa.
 Este comércio de cereais do Alentejo pelo porto de Abrantes manter-se-á até meados do século XX. Segundo uma memória sobre Niza, ocupavam-se regularmente neste transporte de cereais de Campo Maior e de Castelo de Vide para Abrantes, 180 a 200 carreteiros. Claro que boa parte do trigo que partia destas localidades devia provir de Espanha por actividade de contrabando.
O contrabando esteve, por natureza, ligado ao destino de Campo Maior até que a evolução da História ditou a abolição das fronteiras numa Europa onde a existência das fronteiras tantos problemas causou na relação entre os povos.

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publicado às 18:52



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