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O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XLVIII

por Francisco Galego, em 23.08.11

 DOS ANOS 70 EM DIANTE...

 

            As Festas do Povo de 1972, foram as últimas que se realizaram antes da restauração da democracia em Portugal. Este foi o ano em que a chuva ia estragando a festa. No segundo dia, quando tudo estava já engalanado, uma inesperada e arreliante chuvada, destruiu parte das ornamentações. Uns anos mais tarde, em 1995, no Linhas de Elvas, Manuel Carvalho descrevia de forma admirável a situação que então se viveu em Campo Maior:

Entre os milhares de pessoas que estavam em Campo Maior naquela tarde do primeiro domingo de Setembro de há 23 anos, é seguro que ninguém pode ter ficado insensível ao que se passou e ao que viu.

A vila tinha ficado bonita como sempre. O trabalho estava fresco, tinha sido terminado na madrugada anterior.

O que se passou por volta das cinco da tarde explica-se numa frase: uma grande trovoada, acompanhada de chuva e vento forte, deitou por terra a maior parte das ornamentações feitas em meses de trabalho.

Campo Maior ficou em silêncio; as pessoas choraram, para dentro, para si. Por certo houve quem se revoltasse. Não faltou quem tivesse encontrado uma explicação acima do natural: que a trovoada desoladora tinha sido à hora a que costumava sair a Procissão. Nos anos anteriores sempre saiu. Em 1972 não. De então para cá nunca mais a Procissão deixou de se formar.

Houve quem ainda tentasse, com flores feitas à pressa ou indo buscar umas sobras, refazer as ruas. Mas as Festas não ficaram como antes.

Num documento enviado à Comissão das Festas, Joaquim Cavaco Malagueira, o director técnico da empresa S.O.S. – TELEVISÃO, que veio fazer a animação sonora das ruas durante as Festas, recordava o temporal que varreu completamente as festas de 1972 em que, depois de no primeiro dia a chuva ter danificado o “paraíso das flores”, os campomaiorenses ainda tiveram forças para erguer novamente as suas ornamentações para novamente as verem destruídas pela chuva inclemente.

Portanto, o povo não se conformou com o destino adverso e de novo veio para a rua para repor a situação. Recuperou o que podia ainda ser aproveitado, refez o que estava irremediavelmente destruído. E a Festa continuou. Dizer que de castigo do céu se tratava porque a procissão não tinha saído, era dar explicações pouco apropriadas, porque não se deve conceber o céu como vingativo e já em 1965 não se tinha feito a procissão - que fora substituída por um cortejo de oferendas a favor da Santa Casa da Misericórdia - e tudo correra a contento.

 Esta edição das Festas de 1972, que decorreu de 3 a 10 de Setembro, seguiu de muito perto o modelo das realizadas nos anos de 1964 e 1965. Desta vez, voltaram as touradas com grandes cartazes, com elencos formados por grandes nomes do toureio a pé e a cavalo. Nos espectáculos de variedades recorreu-se a artistas espanhóis de pouca nomeada e a amadores campomaiorenses para animarem um espectáculo luso-espanhol. Numa das noites, a Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT), apresentou um Espectáculo para Trabalhadores.

 

E, aconteceu Abril...


Durante nove anos o povo não quis saber das suas Festas.  A grande embriaguez da liberdade, os conflitos e a aprendizagem de uma nova forma de conviver, suspenderam por algum tempo a possibilidade de qualquer projecto comunitário.

Durante algum tempo, o Povo não foi inteiro, nem indivisível. Foi plural nas suas crenças, nas suas aspirações, nos seus projectos de convivência social. Com o 25 de Abril, a grande euforia da liberdade finalmente conquistada, fez esquecer qualquer outro projecto dentro de uma sociedade que se lançava num grande e tumultuoso processo de mudança. Foi preciso esperar pelo restabelecimento de um novo equilíbrio social para que as Festas se tornassem de novo desejadas e possíveis.

A reconciliação tardou porque foi difícil conciliar as diferenças. Mas, quando foi possível, as Festas voltaram, elas próprias, a tentarem a necessária adaptação a um novo modelo de comunidade.

 

 

ANOS 80 – O “GIGANTISMO” DAS FESTAS

 

As primeiras Festas pós – 25 de Abril, foram as Festas do Povo de 1982 As Festas decorreram de 5 a 12 de Setembro, tendo sido 92 as ruas engalanadas.

Este ano de 1982, foi o ano da reconciliação na comunidade campomaiorense. Aceites mutuamente as diferenças e o direito de todos à opinião e à divergência, tornava-se de novo possível a colaboração em projectos em que todos participassem.

A partir daí as Festas não pararam de crescer, em qualidade e em fama. Atraindo multidões, e dando a ideia de que iria  finalmente manter alguma regularidade quantos aos anos de realização. Em 1985 e em 1989 houve Festas.

 

Mas, 1992 foi o ano do NÃO. Por mais esforços que se fizessem, não foi possível mobilizar as vontades:

Tentando manter a periodicidade de três em três anos, as Festas chegaram a estar projectadas para o ano de 1992. Manuel Carvalho, no Linhas de Elvas, chamou ao ano de 1992 o Ano do Não. Na sua crónica explica como as coisas se posicionaram:

No Outono de 1991, juntaram-se uns argumentos para chegar ao coração dos campomaiorenses: Que 1992 ia ser um ano muito importante para Espanha com os Jogos Olímpicos de Barcelona, a Capital Europeia da Cultura em Madrid e a Expo em Sevilha; que Campo Maior, ao lado da Espanha, poderia ganhar com esta movimentação ibérica; que as Festas do Povo eram o grande cartaz da vila; que devia haver Festas em 1992.

A tudo isto o Povo virou costas e, porque na altura andava revoltado com a desatenção do governo em relação a Campo Maior em matéria de saúde, deu um rotundo “ Não” às pretensões apresentadas.

Habituados a dizer “Sim” cada vez que um carro de som anunciava Festas, os campomaiorenses deixaram claro: Primeiro o Hospital, depois as Festas.


Em 1994, foi criada a Associação das Festas de Campo Maior, com a finalidade máxima e prioritária de realizar e promover as Festas do Povo. As Festas voltariam a realizar-se em 1995, 1998, 2002, 2004 e, neste ano de 2011 voltam a realizar-se.

           

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