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DESMASCARAR-SE NO CARNAVAL

por Francisco Galego, em 16.02.10

                                                                                             

O jornal de hoje traz uma frase que encerra o seguinte pensamento:

Que ideia a de que no Carnaval as pessoas se mascaram.

No Carnaval desmascaram-se.

Vergílio Ferreira (1916-1996)

 

Parecerá estranha semelhante afirmação. Mas quem o conheceu, não como escritor, mas como pessoa, facilmente entenderá o que ele pretendia significar. O sorumbático mas amável professor que conheci no liceu de Évora, era bastante céptico sobre as reais intenções da maioria das pessoas com quem tinha de conviver no quotidiano da sua vida. Lembro-me da ironia mordaz que usava para comentar os apatetados ditos e comportamentos que ousávamos exibir na sua presença. A disciplina nas suas aulas impunha-se sem gritos nem alaridos. Ele conseguia impor-nos silêncio com o peso do silêncio com que nos intimidava. Nunca sobrepunha a sua voz ao nosso alarido. Olhava-nos em silêncio e nós acabávamos por serenar. Seguia-se então a aula que, sem que quase nos apercebêssemos disso, se tornava importante a ponto de a seguirmos com gosto.

Tentando hoje perceber o sentido desta frase, apercebo-me de que, como pessoa, Vergílio Ferreira procurava acima de tudo parecer aquilo que era e ser aquilo que parecia. Daí a dimensão de autenticidade que a sua imagem projectava naqueles que com ele privavam. Ao contrário de quase todos os outros que afivelam a máscara do que pretendiam parecer, ele era aquilo que parecia e assumia plenamente, com toda a naturalidade, aquilo parecia ser.

Por isso, o Carnaval que é um período de licença para comportamentos não sujeitos, nem a repressões, nem censuras, serve para que alguns possam tentar parecer aquilo que no fundo gostariam de ser, ou seja, para tirarem em público a máscara com que disfarçam a sua real natureza, ou com que escondem a patetice do seu verdadeiro estado de alma.

Vergílio Ferreira tinha um filho da minha idade, meu colega de turma. Éramos vizinhos: a casa onde eu me hospedava ficava a escassos metros da rua onde moravam. Durante bastante tempo, fomos inseparáveis. Chamava-me parceiro, esse companheiro de adolescência que perdi de vista, como muitos outros, ao longo da vida. Não era filho biológico, pois que, como ele e eu acidentalmente descobrimos, era filho de um casamento anterior de sua mãe, Regina, nossa professora de Desenho.

Por um erro ou descuido que ainda hoje não sei explicar, tinham-no mantido na ignorância desse facto até aos catorze anos de idade. Não lhe fez nada bem esse segredo, como vim a saber anos mais tarde. Todos nós falhamos. Aqui está a prova de como o homem que nunca aceitou afivelar máscaras, para nunca ter vontade de se desmascarar, consentiu, em coisa de tamanha importância e que depois teve tão pesadas consequências, parecer ser aquilo que depois se verificou que, efectivamente, nunca deveria ter fingido ser.

 

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publicado às 15:52


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