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O VIRAR DA PÁGINA?

por Francisco Galego, em 07.01.10

 

Findo o período das Festas, a vida retoma a sua normalidade. Será que retoma mesmo? Mas o que é para nós hoje, em Portugal, a normalidade? A continuação do que vinha sendo ao longo de 2009? Ou o regresso ao tempo anterior, um tempo em que a crise ainda não tinha desabado sobre as nossas cabeças?

Convinha muito, mas mesmo muito, que o discurso do presidente Cavaco Silva fosse o início de uma nova atitude dos que desempenham funções políticas. Porque, se atendermos aos comportamentos que tiveram ao longo do ano que terminou, nada de bom nos espera no ano que agora começa.

Se reparamos bem nos últimos acontecimentos e situações da nossa vida política mais recente, acabamos por pensar que (consequência da crise?) todos terão perdido o sentido da realidade e começaram, cada um por seu lado, a desempenhar papéis que não eram os que lhes competia desempenhar. Se não vejamos:

O Presidente da República que devia desempenhar a função de equilibrador, equidistante de todas as forças partidárias, pareceu não ter percebido que, efectivamente, já não era líder de um partido, nem um político no activo na função de primeiro-ministro. Vimo-lo interferir no jogo partidário, conspirando ou fazendo outros conspirar em seu nome ou mando do seu interesse e vontade. Vimo-lo a criticar uns, apoiando implicitamente outros. Vimo-lo calar-se quando devia intervir e esclarecer, falar e opinar quando devia guardar uma atitude discreta.

O primeiro-ministro que, embora tenha ganho as eleições, perdeu a maioria absoluta de apoiantes no parlamento, continuou a agir como se nada tivesse mudado. Assim, a convicção com que antes defendia e tentava justificar os seus pontos de vista e decisões, deu origem a uma obstinada, por vezes arrogante tentativa de impor a sua vontade, quando devia, prudentemente, ter tentado negociar para obter apoios e gerar consensos através de pacientes negociações.

Os partidos da oposição, em geral, passaram a comportar-se como se juntos constituíssem uma maioria efectiva, parecendo perder completamente a noção de que tal não passava de uma aparência conjuntural sem qualquer viabilidade de persistência e que se desmoronaria ao mínimo incidente porque, de facto, é pouco que os une e muito o que os coloca em constante conflito de interesses.

Como aceitar tal destempero e tanta irresponsabilidade, num momento em que o país vive uma fase tão crítica da sua história recente? Porque o que realmente acontece é que, na verdade, estamos a meio de uma grave crise. O desemprego não pára de crescer. A dívida externa atinge valores cada vez mais preocupantes, O défice disparou para níveis dificilmente comportáveis.

O Presidente disse: “Podemos estar a caminhar para uma situação explosiva.” E nós acreditamos, porque é mesmo à beira do abismo que todos nós pensamos que o país se encontra no momento actual.

O navio em que todos vamos embarcados, está no meio de uma desatada tempestade e parece que, em vez de nos unirmos para tentarmos manter o rumo e evitar que o barco adorne de vez e se afunde, entretemo-nos a lutar freneticamente como se não passássemos de uma “nave de loucos”.

Por todas estas razões, o Presidente da República, na sua mensagem de Ano Novo, não se limitou a cumprir a tradição de expressar os habituais votos de saúde, bem-estar e prosperidade para todos os portugueses. Optou por lançar o grito de alerta que esta situação grave, quase desesperada, parece exigir. Ainda bem que o fez. Com ela assumiu aquilo que deve ser a sua função de zelador e garante do equilíbrio institucional, colocando-se numa perspectiva acima dos partidos. Traçou um quadro realista da situação em que vivemos, diagnosticou problemas, alertou para a necessidade de encontrar soluções para podermos ultrapassar o momento crítico que vivemos. Apelou ao bom senso, à boa vontade e ao empenho de todos. Incitou ao entendimento e à negociação, em busca de formas consensuais para enfrentar a crise esquecendo razões, ressentimentos e tensões.

Para garantirmos um futuro para todos nós, precisamos de encontrar objectivos comuns, trabalharmos em conjunto, em favor do país a que todos pertencemos. Se este apelo for entendido e aceite, poderemos ter, de novo, a expectativa de um BOM ANO para todos.

 
 

 

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