por Francisco Galego, em 14.04.09
As grandes obras são intemporais. Elas antecipam os factos, as situações, os sentimentos, fazendo com que a sua leitura se torne pertinente, útil e esclarecedora, mesmo que já vários séculos tenham passado sobre o tempo em que foram produzidas. A riqueza do seu conteúdo ajuda-nos a compreender a realidade do nosso viver. A certeza das suas análises, conduz o nosso pensamento para uma compreensão iluminada das questões. A frase justa, exacta, precisa, torna simples expressar aquilo que de facto pretendemos dizer ou escrever:
Uma das coisas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os governantes, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois o que se havia de fazer agora; porque logo o que se havia de fazer já.
Tão delicadas quanto isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento.
O governante que não fez grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado; a fazenda (os bens) pode restituir-se, a fama, ainda que mal, também se restitui. Mas o tempo não tem restituição alguma.
(Padre António Vieira, século XVII)
Partindo deste texto constatem quanto prejudicam as populações os governantes que adiam, protelam, esquecem e deixam de fazer o que estava prometido ao povo, porque apenas agem segundo aquilo que é o seu próprio interesse.