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DOS REFLEXOS DA CRISE NOS DIVERSOS ESTRATOS SOCIAIS

por Francisco Galego, em 04.03.09

 

 

 

Todas as previsões apontam para que os indicadores referidos ao desemprego em Portugal não vão parar de crescer ao longo do corrente ano de 2009.
            Os organismos internacionais como a OCDE e a, a nível interno, o Governo e o Banco de Portugal, apontam para números assustadores pois entre os que perderão os seus postos de trabalho e os jovens que não conseguirão entrar no mundo do trabalho, ficarão inactivos, improdutivos e dependentes da assistência social, cerca de mais 100 mil portugueses. E, neste número não estarão todos os portugueses a viver em condições muito difíceis, porque este número inclui apenas os que são oficialmente contabilizados.
            Por outro lado, é preciso ter em consideração que o desemprego não afecta do mesmo modo todos os indivíduos que por ele são atingidos. Pois que, mesmo sem falar no caso dos que, bem almofadados por bens de fortuna, não sentirão os efeitos da sua inactividade, entre os elementos da classe média podemos encontrar grandes diferenças.
            Os jovens incluídos em agregados familiares bem estruturados e dispondo de uma base de rendimentos que, não sendo muito elevada, é pelo menos bastante estável, contarão com a solidariedade dos seus e sentirão de forma mais atenuada os efeitos da crise que os atinge. Mesmo entre jovens casais essa solidariedade familiar funciona em muitos casos, quer na situação extrema de desemprego, quer mesmo para os que, embora empregados, auferem salários reduzidos que os condenam a níveis de vida muito baixos. Aliás, esta é uma das razões porque esta crise afecta muitos mais gente do que aquela que é afectada directamente pelo flagelo do desemprego.
            Há danos colaterais que as estatísticas não analisam mas que têm acentuados reflexos sociais que afectam profundamente a economia, quer a nível do consumo, quer a nível das poupanças e dos investimentos. Na maior parte dos casos, um lugar de trabalho que se perde, que não se consegue, ou que é mal remunerado, afecta muito mais gente que o próprio trabalhador. Afecta o conjunto dos que lhe estão associados por laços de família. Daí o efeito que, globalmente, esta crise está a provocar na nossa sociedade.
            Muito maior do que o “exército dos sem trabalho” é a multidão dos que serão afectados indirectamente pelos efeitos colaterais do desemprego massivo que está a cair sobre a sociedade portuguesa. Daí a preocupação que muitos responsáveis pela governação em muitos países, manifestam com a necessidade de desenvolverem planos de investimentos público que contenham a tendência incontrolada que o sector privado revela para contrair as oportunidades de trabalho.
             
            Mas, se deixarmos de considerar o problema a nível das chamadas classes médias para focarmos a nossa atenção a nível dos sectores mais carenciados da população, verificaremos que aí o efeito da crise é ainda bem mais catastrófico. A esse nível encontramos gente de tão baixos níveis de instrução e formação profissional que, uma vez caídos no desemprego, caem simultaneamente numa situação de exclusão social, condenados a uma marginalização que os arrasta para comportamentos de violência social e actos de criminalidade que provocam a insegurança geral na sociedade.
            Outros assumem atitudes e comportamentos diferentes como os chamados “inactivos disponíveis” que, uma vez desempregados, persistem em continuar a procurar trabalho, que se inscrevem nos centros de emprego para adquirirem o direito aos subsídios.
            Há também os que, por falta de capacidade para assumirem outras funções ou de expectativa de novas oportunidades, assumem uma atitude de total falta de esperança. Completamente desencorajados, deixam de procurar soluções dentro de um quadro social normal. Não procuram novos postos de trabalho e, se inquiridos, respondem que não sabem como procurar trabalho ou que acham que nem vale a pena procurar. 
            Alguns, os chamados “biscateiros” dedicam-se a uma espécie de subemprego que consiste no desempenho quase informal de pequenas tarefas que lhes garante rendimentos mínimos de subsistência que os mantêm nas margens da mendicidade.
            Toda esta gente, que geralmente não consta das estatísticas oficiais, é parte integrante da sociedade e as suas condições de vida acabam por afectar, de vários modos, a estabilidade e a segurança da sociedade global.
            Os países que descuidam este tipo de problemas acabam, mais tarde ou mais cedo, por pagar os efeitos que a exclusão e marginalização dos mais desprotegidos acabam por ter no bem-estar e na segurança dos que pertencem aos grupos mais favorecidos da sociedade.
            Não conceber a sociedade como um todo em que as diversas partes que a integram estão intimamente ligadas e correlacionadas, pode levar a erros de análise política de consequências muito trágicas.
 

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publicado às 11:11


1 comentário

De Zé da Burra o Alentejano a 06.03.2009 às 16:16

Eis o resultado do sistema neoliberal criado há cerca de 20 anos: o ocidente caiu na armadilha da Globalização que os bancos e as grandes companhias lhe venderam. A actual crise não é apenas uma crise criada pela especulação bolsista americana e pela não fiscalização das reservas monetárias de segurança da generalidade dos bancos e dos fluxos monetários com destino aos paraísos fiscais onde depois se perde o rasto do dinheiro. Os bancos e as grandes companhias visavam a obtenção de maiores lucros. Os primeiros procuravam a liberdade total para fazerem o que muito bem entendessem ao dinheiro que lhes era confiado; os segundos pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no extremo oriente em virtude dos baixos salários e da inexistência de obrigações sociais. O resultado já está à vista: o descalabro bolsista e bancário, a falência de uns bancos e as ajudas governamentais a outros; a necessidade de corte nas produções industriais das empresas, incluindo nas que já se mudaram para os novos países, porque as produções se destinavam sobretudo à exportação para o ocidente onde estão as populações com maior poder de compra que está agora em rápido declínio, como fruto da globalização criada.
Ao aderirem ao desafio da globalização, os países ocidentais e da União Europeia prometeram ao seus cidadãos que as suas economias se tornariam mais robustas e competitivas e não exigiram aos países do oriente que prestassem às suas populações mais e melhores condições sociais: regras laborais justas, melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice para poderem aceder livremente aos mercados ocidentais. Não! o ocidente optou simplesmente por abrir as portas à importação desses países sem que essas condições fossem satisfeitas, criando assim uma concorrência desleal e “selvagem” da qual o ocidente nunca poderá ganhar. A única solução será a de nivelar as condições sociais dos trabalhadores ocidentais pelas desses países e que são miseráveis (crianças chegam a ser vendidas pelos próprios pais para servirem de escravos). O ocidente franqueou as suas portas a países que estão em rápido desenvolvimento tecnológico com custos de mão de obra insignificantes e sem comprometimento com a defesa do ambiente, com tecnologias altamente poluidoras e mais baratas.
Estamos a assistir neste momento a uma tentativa desesperada de resistir a uma guerra perdida, nivelamento por baixo as condições sociais dos trabalhadores ocidentais. Daí a revolta que se observa nos vários países da UE. Mas será que os trabalhadores ocidentais vão aceitar trabalhar a troco de dois ou três quilos de arroz por dia, sem direito a descanso semanal, férias, reforma na velhice, etc...? Não! O resultado será um lento definhar em direcção ao caos e enquanto umas empresas fecham portas para sempre, outras se deslocam para a China ou para Índia para não serem sufocadas pela concorrência desleal, mas, até mesmo essas terão que reduzir a sua produção porque os ocidentais estão a perder rapidamente poder de compra. Entretanto, no ocidente a indigência, a marginalidade e o crime mais ou menos violento irão crescer e atingir níveis inimagináveis, apenas vistos em filmes de ficção ou referidos nos escritos bíblicos do apocalipse. Diz-se que a crise é mundial, mas na China, por exemplo, a crise significa um crescimento anual de um dígito (7 ou 8%) em vez de dois (15 ou 20%)...

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