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Tenho vindo, por consecutivas tentativas, a procurar dar uma amostra, necessariamente modesta, do valor literário e documental da obra de João Dubraz, escritor Campomaiorense do século XIX. Porém, julgo também de algum interesse dar a conhecer alguns aspectos mais significativos da vida do escritor.
Tenho a consciência plena de que este tema despertará muito fraco interesse, para grande parte dos leitores deste jornal. Mas, como, em contrapartida, alguns me têm manifestado entusiasmo pelas crónicas que tenho vindo a publicar, sinto-me na obrigação de corresponder aos que me dizem que gostavam de saber um pouco mais sobre esta questão.
Saber mais sobre o homem, torna-se bastante difícil porque, por um lado, ele foi muito parco a falar de si e da sua família; por outro, no seu tempo havia muito pouco quem pudesse escrever sobre um indivíduo que, ainda para mais, tendia a criticar os usos e costumes dos seus contemporâneos, na esperança utópica de assim contribuir para que eles se tornassem mais reflexivos, melhorassem os seus comportamentos cívicos, e as suas atitudes sociais.
No que respeita à sua família, tenho recolhido algumas informações de que já dei conta na crónica anterior. Muito recentemente, o Dr. Rui Vieira, correspondendo com amizade a um meu pedido, desencantou no Arquivo Distrital de Portalegre, um documento do cartório notarial de Campo Maior, Caixa 22, Livro 20, folhas 4 vº - 6, uma escritura de composição e partilha amigável que entre si fazem João Francisco Dubraz, sua mulher Ana Cândida Félix Dubraz, António Francisco Dubraz e Ana Rita Dubraz, todos de maior idade, moradores desta vila de Campo Maior, cuja partilha fazem dos bens do casal de seus falecidos pais Francisco Gonçalves Braz e Isabel Teodora de Vidal.
Por esta escritura ficamos a saber que João Dubraz tinha um irmão e uma irmã, ao que parece, ambos solteiros, devido a não serem acompanhados de cônjuges no referido acto. Podemos, mais uma vez, constatar que o nome Dubraz que adoptou como escritor, se tornou patrónimo de toda a família porque, mesmo o pai, que aqui ainda aparece referido como Francisco Gonçalves Brás, mais tarde, como já sabemos, aparece referido como Francisco Gonçalves Dubraz no assento de óbito do escritor.
Podemos também notar que as origens de João Dubraz foram relativamente modestas. Filho de um comerciante que amealhou alguns bens de fortuna, a mãe, bem como uma sua irmã, como ele próprio testemunhou nas suas Memórias …, não sabiam ler nem escrever. O facto de a mãe, ao contrário da mulher de Dubraz que já se situava noutra posição social, não ter adoptado o nome do marido, aponta também para uma condição relativamente modesta ou de fraco reconhecimento social.
A escritura está datada de 22 de Março de 1862, permitindo calcular que a morte do pai teria acontecido algum tempo antes, pois que, pela leitura da Memórias Contemporâneas, sabemos que sua mãe morrera em 15 de Agosto de 1858. A assinatura da dita escritura decorreu na residência de João Dubraz, na Rua da Misericórdia, onde seus sogros tinham residido e tiveram estabelecimento de comércio.
            Os bens patrimoniais referidos na escritura são:
João Francisco Dubraz, com assentimento de seus irmãos, toma posse plena e absoluta das três propriedades seguintes que eram de seus pais:
- uma morada de casas sita no Largo da Misericórdia (Terreiro) … compreende um pavimento térreo e dois andares superiores;
- um farrageal de oito alqueires de terra, ou seja, oito mil setecentos e doze centiares, sito em Vale de Elvas;
- um farrageal de cinco alqueires de terra, ou seja, cinco mil quatrocentos e quarenta e cinco centiares, junto às terras ditas do Forte (local do actual estádio de futebol) ;
Ana Rita Dubraz aceita de seus irmãos, como legítima paterna e materna, toda a mobília e roupas de casa de seus pais e seis sortes de terra na Defesa de S. Pedro;
António Francisco Dubraz toma a seu cargo todas as dividas do casal de seus falecidos pais, sustentará como seus que são doravante todos os compromissos, direitos e acções que pertenciam aos três herdeiros … para amortizar as aludidas dividas e liquidar a sua herança paterna e materna, os restantes bens móveis e imóveis do casal que ficam desde já sua propriedade. Obriga-se também a libertar, dentro de um prazo razoável, as propriedades que couberam a João Francisco Dubraz, as quais estão hipotecadas por dívidas que, segundo as condições deste contrato, ele António Francisco Dubraz aceita e reconhece como suas.
 
Apesar de não estarem declarados os bens móveis e imóveis que constituíram a herança que coube a António Francisco Dubraz (entre os quais estariam os que integravam o estabelecimento comercial que a família possuía no Terreiro), fica-se com a impressão de que os bens patrimoniais seriam razoavelmente avultados. Contudo, as dívidas e hipotecas referidas, parecem denunciar algumas dificuldades na fase final da existência paterna.
No mesmo Arquivo Distrital de Portalegre encontram-se várias outras escrituras de compra e venda de propriedades, entre elas algumas das que constam da referida escritura de partilha de herança. Nelas recolhemos a informação que o casal João Francisco Dubraz e Ana Félix Dubraz, foi progressivamente alienando vários bens imóveis do seu património familiar. Aliás, referências da fase final da vida do escritor, revelam algumas dificuldades financeiras do casal. O próprio Dubraz, por diversas vezes se declara pobre e tendo como recurso apenas os proventos auferidos com o seu trabalho como professor e como advogado provisional.
            João Dubraz casou em 10 de Outubro de 1847, com 29 anos de idade, com D. Ana Cândida Félix Dubraz, de 24 anos de idade, a qual era viúva de José António dos Santos, grande amigo de João Dubraz e que morrera prematuramente, devido a acidente com arma de fogo. Desse casamento nascera um filho, José António Félix dos Santos que veio a ser advogado muito conceituado em Elvas, onde fixou residência, mas que sempre manteve fortes relações afectivas com Campo Maior. João Dubraz tinha um carinho muito especial por este enteado que criou como se fosse mais um dos seus cinco filhos: Artur Heliodoro Félix Dubraz, que foi oficial do exército e viveu entre 1854 e 1925; Alfredo Constantino Félix Dubraz, que foi bibliotecário municipal em Campo Maior; Alexandre Herculano Félix Dubraz, funcionário público; Amélia Augusta Dubraz; Maria Joana Dubraz. Das filhas, apenas foi possível saber que Amélia Augusta casou com Benedito Cândido de Sousa Araújo, tendo, desse casamento nascido duas filhas: Alice Irene Dubraz de Sousa Araújo e Beatriz Dubraz de Sousa Araújo. Maria Irene casou com José Maria Eugénio de Almeida, 1º conde de Vilalva.
            Sabemos que o patrónimo Dubraz foi criado por João Francisco Gonçalves Brás que, ao tornar-se escritor afrancesou o nome por que era chamado em Campo Maior: João do Brás. Adoptou-o, primeiro, como pseudónimo literário e, depois, como o seu próprio nome. Podemos então supor que, todos os indivíduos que usam o nome Dubraz, poderão ser descendentes deste escritor campomaiorense.
            Fazendo uma pesquisa na Internet, foi possível verificar que existem poucos indivíduos e famílias que tenham incorporado no seu nome, o nome Dubraz e que estes se distribuem por vários pontos de Portugal, do Brasil e de mais dois países da América do Sul.
 

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publicado às 17:59


2 comentários

De Manuel P.Moutta a 23.09.2017 às 18:27

Como neto de Heloisa Adélia Dubraz e Carmo,penso que filha do escritor,envio os meus agradecimentos.
Atentamente,
Manuel Paulo Carmo Moutta
Elvas

De Francisco Galego a 27.09.2017 às 10:19

Por razões já antes explicitadas, e que dependem do facto de o nome Dubraz ter sido criado como pseudónimo de João Gonçalves Braz, tenho a convicção de que todas as pessoas que usam este nome são, de algum modo, descendentes deste notável escritor. No próximo dia 21 de Janeiro, em Campo Maior, comemorar-se-á o 2º centenário do seu nascimento e será apresentada a obra VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ.

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