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UM CONTO POR JOÃO DUBRAZ...

por Francisco Galego, em 30.01.18

ACHMET

No capítulo 1º a acção é localiza na zona de fronteira ainda em disputa entre cristãos e mouros, os campos entre Ielch (Elvas) e Badajoz.

É apresentada a personagem Achmet, sobrinho do mui alto e poderoso Abdallah, emir de Badajoz e primo do emir de Sevilha.

A acção começa por uma caçada aos javalis e aos gamos que, como por artes mágicas, é interrompida por uma súbita tempestade que leva os companheiros de volta a Badajoz, separando-os de Achmet que é levado até um local à beira de um lago do qual se levanta um mágico alcazar mourisco, donde sobe uma música divinal e um hino entoado por lindas fadas que incitam o jovem donzel a ir ao seu encontro.

Surge perante ele uma angélica beldade: a rainha das fadas, Ulina.

O lago é referido como Lago do Muro “situado nos verdes campos que agora pertencem a Campo Maior” e que receberam o nome de terras do Muro”.

O jovem mouro é arrancado ao mundo real e entra num mundo mágico: - um magnífico castelo enterrado no interior do Lago do Muro. Aí a rainha das fadas abre para o jovem príncipe a “visão do futuro”. Perante os olhos do jovem mouro passam os episódios mais relevantes da conquista do sul de Portugal pelos cristãos e da expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica.

A acção até aqui centrada no príncipe Achmet, suspende-se e somos levados a outro lugar.

O capítulo 2º começa no ano de 1201, reinando em Portugal de D. Sancho I. Nos “verdes plainos da Godinha”, entre as terras da cidade cristã de Elvas e os arredores da muçulmana cidade de Badajoz, numa brilhante cavalgada, damas e cavaleiros assistem a “uma aposta à carreira” de quatro damas. Destacou-se como vencedora a bela D. Ângela, jovem dama de dezassete anos de idade, filha do alcaide de Elvas, que montava um ginete fouveiro, ou seja, ruivo, malhado de branco.

 

O alcaide de Elvas, Fernão de Soisa, falando com os seus companheiros, recorda a sua participação na fatídica tentativa de conquistar Badajoz, de que resultou o desastre e prisão de D. Afonso Henriques.

A certa altura, um dos jovens cavaleiros recita para a cavalgada umas trovas que relatam coisas fantásticas ocorridas com a bela fada Ulina, onde são invocadas velhas lendas que referem o destino do príncipe Achmet, aprisionado no Lago do Muro pela fada Ulina, até que uma dama o fosse libertar.

A récita foi interrompida pelo levantar de umas abetardas dando início à sua caçada com falcões.

Surge um mágico que espanta o corcel da jovem D. Ângela que parte à desfilada e desaparece. Por mais que os companheiros a tivessem procurado, não a conseguiram encontrar.

D. Ângela foi levada pelo corcel até às Terras do Muro, junto do lago, cujas águas desapareceram. Ficou apenas um muro, junto ao qual estava um donzel montando um valente corcel. Logo entre os dois jovens nasceu uma fulgurante paixão. Mas, por artes de um mago inimigo da fada rainha Ulina, a jovem é levada para longe do seu amado.

No capítulo 3º descreve-se a viagem fantástica de Achmet depois de sair do encantado Lago do Muro. Levado pelos ares até à “ilha encantada”, parecendo tratar-se da Ilha da Madeira, onde mais tarde começaria a fantástica aventura das Descobertas. Aí encontra a sua bela Ângela, adormecida. Então ele decide resgatá-la á custa de grandes perigos que vence com portentosas demonstrações de coragem.

No capitulo 4º relata-se o seu regresso às terras donde tinham partido.

No capítulo 5º os dois amantes são levados por Ulina, a rainha das fadas, para o Castelo-do-Amor, sugerindo-se que está edificado no local onde hoje é o castelo de Campo Maior. Aí os dois vão poder entregar-se ao seu profundo amor, condenado pela vontade dos homens, devido à diferença das suas religiões.

No capítulo 6º Judith, a feiticeira judia que vivia numa torre no cimo da Serra de Segóvia, desvendou a Fernando de Soisa, a verdadeira situação de sua filha no Castelo-do-Amor e o modo como a pode libertar do seu amante, o príncipe Achmet, atraindo-o a um torneio para o matar.

No capítulo 7º relata o torneio de que resulta a morte de Achmet, vencido no torneio da Cabeça Aguda. Mas o corpo de Achmet desapareceu.

No Epílogo assistimos à dolorosa solidão de Ângela, encantada no seu Castelo-do-Amor. Parece sugerir-se  aqui a origem da lenda da “moura encantada” que, em tempos idos, os adultos contavam às crianças, na vila de Campo Maior e que João Dubraz terá resolvido publicar para memória futura.

 

 

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publicado às 10:53


1. UM TEXTO DE JOÃO DUBRAZ

por Francisco Galego, em 25.01.18

CARTAS CAMPOMAIORENSES – ASSOCIAÇÕES POLÍTICAS E RECREATIVAS  – OUTUBRO DE 1883

 

Este mês foi todo consagrado a trabalhos eleitorais e à fundação de sociedades de recreio, oriundas da política e que dela hão-de viver necessariamente. Foi, pois, mês de actividade partidária, de sensata vigilância, de acordos de várias espécies e de resoluções importantes no que diz respeito à vida local das parcialidades.

Sobre as eleições, produziu o mês o abandono da urna pelos progressistas, anunciado com muita antecedência, mas visivelmente sujeito à ordem incerta dos acontecimentos.

Em verdade, estes progressistas de cá, não pecam por inactivos e indolentes. Quando não se movem, é porque não vêem utilidade no movimento.

Faço-lhes essa justiça e louvo-os por isso. Eu gosto dos partidos de acção enérgica e contínua, capazes de manterem inabalável a esperança, ainda mesmo que sendo enganosa. O que lhes dispenso é a intriga reles e a baixa calúnia que, afinal, nada edifica.

De resto, se os progressistas abandonaram o campo eleitoral é porque sentiram adversa a maioria dos eleitores. Está averiguado que as eleições só se ganham com votos (…).

As sociedades criadas de novo, já funcionam. Uma, fundação dos progressistas, dizem-me que se intitula "artística recreativa". A outra, organizada pelos regeneradores, é ainda anónima, mas já alguém me disse ser possível que venha a chamar-se "Sociedade de 4 de Novembro", por ser a sua inauguração nesse dia, depois de encerrado o acto eleitoral.

Assim, pois, ficam existindo na vila três sociedades recreativas de que o velho “Grémio Campomaiorense” é o tronco comum, pois que os principais sócios da nova, ou pertencem ao Grémio, ou dele saíram há mais ou menos tempo.

Oxalá as novinhas resistam ao cansaço e às vicissitudes, como filosoficamente tem resistido a tudo a sociedade mãe, a qual, se viveu vida fácil e descuidosa na Rua 13 de Dezembro, teve de emigrar dali, como Job, para a Mouraria e, se algum tempo depois pôde ver melhorada a sua fortuna na Rua do Visconde de Seabra (1), esteve seis meses, em homizio forçado, na Rua do Paço e, quando por fim tomou pé na praça de D. Luís I (2), foi com ares de fidalgo comprometido com dívidas que tem de fazer vida burguesa, pacata e sem luxo.

Tomem daí o exemplo e lição as novas sociedades, a nenhuma das quais desejo mal, pois sei que elas corrigem os costumes agrestes e são úteis como lugares de reunião

      (1) Actual rua 1º de Maio.

      (2) Actual Praça da República.

 

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publicado às 17:03


NA APRESENTAÇÃO DE "VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ

por Francisco Galego, em 21.01.18

Vou tentar recomeçar de maneira a ligar esta nossa conversa, a outra que eu fiz, no passado dia 16 de Setembro, ao apresentar uma obra em dois volumes intitulada – Campo Maior na Obra de João Dubraz – porque, efectivamente, este livro que agora apresento, é o último da trilogia dedicada à Vida e Obra de João Dubraz.

Assim sendo, permitam-me que antes recorde uma frase do filósofo e escritor, Jean Jacques Rousseau, que viveu entre os anos de 1712 e 1778.

Escreveu ele que:

A arte de interrogar é bem mais a arte dos mestres do que a dos seus discípulos; pois é preciso ter já aprendido muitas coisas para saber perguntar aquilo que ainda não se sabe.

Aí têm a razão porque eu fui entendendo que, a arte de ensinar consiste principalmente, em adquirir a capacidade de fazer perguntas para, com as respostas adequadas, podermos adquirir os conhecimentos que nos são necessários.  

Assim, voltando a falar de João Dubraz, coloco hoje novas perguntas:

- Quem foi João Dubraz?

- O que fez de notável?

- Que importância teve a sua acção no tempo em que viveu?

- Que valor têm hoje os seus escritos, para melhor conhecermos a História e a Cultura de Campo Maior?

 

Estas perguntas apontam para o objectivo fundamental da obra que agora apresento que o é de:

- Analisar a imensidade de escritos que João Dubraz produziu, para o podermos conhecer, como homem, como cidadão, como intelectual e, ao mesmo tempo, ficarmos a conhecer os factos mais notáveis da História, da Cultura e das condições de vida, em Campo Maior, no século XIX.

Por isso, como o seu título - Vida e Obra de João Dubraz – indica, a obra que agora apresento, tem como primeiro e mais importante objectivo, tentar responder da maneira mais apropriada, mais completa e mais fundamentada que me for possível, a estas e a outras perguntas que possam ser formuladas.

 

Vou, portanto, avaliar a vida e a obra de alguém que fui conhecendo durante muitos anos, ao ler e analisar os muitos textos que ele tinha escrito e publicado e que eu depois, fui descobrindo e divulgando.

 

Devo, porém, confessar que, quanto mais ia aprofundando o meu conhecimento, mais ia crescendo a minha admiração pelo homem que produzira os textos que eu ia lendo.

 

 

 

 

Chamava-se João Dubraz. Era filho de um comerciante com loja aberta no então chamado “Terreirinho”, vulgarmente conhecido como o “Terreiro”, e que, actualmente, tem o nome oficial de Largo Barão de Barcelinhos. Tendo, desde muito novo, aprendido a ler e a escrever, dedicou-se, com tanto empenho à leitura e ao estudo que, atingiu um nivel impressionante de conhecimentos e de importantes informações em várias e vastas áreas do saber.

Nos seus escritos, não fez qualquer referência aos professores que poderá ter tido. Mas, podemos calcular que, naquele tempo, os seus primeiros professores, terão sido frades do Convento de S. Francisco. Naquela época, os que assumiam a função de ministrar o ensino básico às crianças entre os seis e os doze anos de idade, eram designados como “os gramáticos”. É interessante lembrar que, a pequena rua que liga a Rua Direita ao Largo da Misericórdia, era antes chamada a Rua dos Gramáticos.

É, portanto, muito provavel que, o jovem João Gonçalves Brás – pois este era o seu nome de baptismo – tenha feito o essencial da sua aprendizagem, com esses “gramáticos”. A única indicação que temos é a de que, por volta dos dez anos de idade já saberia ler e escrever razoavelmente. Foi o próprio João Dubraz que, nas suas memórias, deixou disso testemunho. Quanto à sua aprendizagem, podemos também considerar a possibilidade de ter recorrido aos ensinamentos de D. Diego Muñoz Torrero ou de algum dos discipulos que este deixara em Campo Maior.

Este sábio bispo espanhol, que esteve exilado nesta vila, entre os anos de 1823 e 1828, para sobreviver, dava aulas de filosofia, de latim e de francês. Ora, na verdade, João Dubraz tinha um razoável conhecimento em todos estes domínios.

  1. Diego Muñoz Torrero era uma das figuras mais notáveis de Espanha. Ainda muito jovem, fora ordenado sacerdote e, pelo seu valor intelectual, adquiriu tal notabilidade que foi convidado a assumir o lugar de professor catedrático de Filosofia na Universidade de Salamanca, tendo sido depois eleito seu reitor.

Mais tarde, fora escolhido para bispo de Guadix, na província de Granada.

Mas, porque era o tempo da Inquisição e a Igreja era então muito repressiva, o papa Pio VII negou-lhe o beneplácito, impedindo-o de assumir a função episcopal. A razão desta atitude explica-se pelo seu empenhado envolvimento na defesa dos ideais liberalistas, por defender a extinção da Inquisição em Espanha e por se ter destacado na elaboração dos princípios fundamentais da chamada “Constituição de Cádiz”, a primeira constituição liberalista espanhola, aprovada em 1812 e que muito influenciou a Constituição Portuguesa de 1820, a nossa primeira constituição liberalista.

Perseguido pelos absolutistas, quando estes tomaram o poder, D. Diego Muñoz Torrero refugiou-se em Portugal para escapar à prisão e à quase certa condenação à pena de morte.

 

 

Fixou residência em Campo Maior, terra de fronteira, entre 1823 e 1828, ou seja, até que os absolutistas tomaram o poder, em Portugal, tendo-se D. Miguel proclamado rei absoluto. Começou então um tempo de perseguições que originou uma terrível guerra civil, que durou desde 1828 a 1834.

  1. Diego Muñoz Torrero foi então preso e encarcerado na torre-prisão de S. Julião da Barra, no concelho de Oeiras, junto ao Tejo. Em salas subterrâneas que eram por vezes inundadas pelas águas que chegavam a subir até à cintura dos presos, acumulavam-se pessoas de todas as classes e condições sociais. Aí, devido aos maus tratos sofridos, morreu D. Diego Muñoz Torrero, no ano de 1828, tendo sido sepultado, em campa rasa, num terreno junto à torre que lhe servira de prisão.

Mas, era tal a notabilidade de D. Diego Muñoz Torrero que, quando os liberalistas voltaram ao poder, o governo espanhol reclamou a entrega dos seus restos mortais que foram transferidos para o cemitério de S. Nicolau em Madrid e, mais tarde, em 1912, foram trasladados para o Panteón de Hombres Ilustres, onde estão os restos mortais das figuras mais notáveis de Espanha.

Ora, assim sendo, poderá ter sido, primeiro com o bispo e depois com algum dos seus discipulos, que João Dubraz adquiriu as bases que lhe permitiram ter bons conhecimentos de gramática, conhecer bastante bem o latim e de ler e escrever com desenvoltura o francês.       

        

Talvez por isso, mais tarde, quando começou a escrever e a publicar os seus escritos, afrancesou o nome, adoptando como pseudónimo, o nome de João Dubraz, aproveitando o facto de ser conhecido como o João, filho do Braz.

Mas, na verdade, João Dubraz foi principalmente um verdadeiro autodidata, pois que, pelo seu próprio esforço, conseguiu adquirir um elevado nível de formação cultural.

 

Voltando à crescente admiração que fui sentindo pela obra de João Dubraz, convém esclarecer que, quando quero avaliar alguém, parto sempre do princípio de que não há homens, nem mulheres perfeitos, pois que, em todas as pessoas encontramos qualidades e defeitos. Por isso, quando me proponho fazer a avaliação de uma pessoa, faço-o numa espécie de “balança mental”, comparando os seus defeitos com as suas virtudes.

 

Os resultados configuram-se-me de três maneiras:

- Há casos de acentuado desequilibrio devido ao maior peso dos defeitos;

- Noutros, é maior o peso das virtudes;

- E noutros, fica a balança mais ou menos equilibrada.

 

Vem isto a propósito de tentar explicar a razão porque, durante tantos anos, dediquei tanto do meu tempo a tentar descobrir, analisar e compreender, os documentos criados pelo homem que é a figura central deste livro que aqui apresento hoje.

Não foi tarefa fácil. Mas, porque o que deve ser feito, deve ser bem feito, fui ultrapassando os obstáculos que me foram surgindo. Finalmente, a grande dificuldade foi a opção, tomada por João Dubraz - e por ele rigorosamente cumprida -, de falar muito pouco de si, e quase nada dos elementos da sua família.

Mas, voltando à avaliação que fui fazendo do homem João Dubraz, a “balança” pendeu sempre mais para o lado das virtudes, ficando quase vazio o dos defeitos.

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Essa é uma das razões porque considero que foi importante e muito gratificante o ter-me dedicado ao conhecimento do que foi a sua vida e da obra que nos deixou. Devido a isso, não hesito em afirmar que, considero que João Dubraz foi um homem de um valor excepcional e uma das figuras que mais elevou e divulgou o nome desta “mátria”, ou terra-mãe, onde muitos de nós, os que agora aqui estamos, fomos gerados e criados. E isto é ainda mais importante, se consideramos que João Dubraz viveu num tempo em que não era nada fácil proceder da maneira que escolheu como o seu modo de vida.  

 

Devemos também tomar em consideração que, uma grande parte daquilo que escreveu, se destinava a ser publicado nos jornais que foram existindo na cidade de Elvas, havendo mesmo períodos em que, era quase só ele quem produzia a maior parte dos textos que compunham esses jornais.

Talvez tenha sido essa a razão para que, quando em Campo Maior começaram a perseguí-lo, atacando-o e difamando-o, tenham sido alguns dos mais destacados vultos da cultura elevense – à frente dos quais se colocaram Vitorino d´Almada e António Tomás Pires – que, em textos publicados em Dezembro de 1883, nas páginas do jornal “O Elvense”, vieram em sua defesa, denunciando, a má-fé das calúnias, a falsidade, a ingratidão e a injustiça dos ataques que lhe dirigiam.

Entre outras, estas foram a razões de eu ter concluido que, tomando em consideração o seu valor, seria muito justo que me dedicasse a dar a conhecer os aspectos mais importantes relatados nas obras de João Dubraz que considero um dos nomes mais ilustres da Cultura e da História de Campo Maior.

 

Mas, convém entender claramente que procurei sempre enquadrar este trabalho no domínio da investigação histórica que, como sabemos, cuida apenas de analisar e tentar dar a conhecer os factos e as personagens que pertencem ao passado.

 

Logo, daí resulta que fica excluida qualquer comparação com os que ainda vivem, por mais importantes que possam ter sido, sejam, ou que venham a ser, no desenvolvimento, na divulgação e na notabilidade desta nossa terra. Para aqueles que ainda vivem, o futuro cuidará de que, outros, pertencentes às novas gerações, chegada a sua vez, cumpram a missão de os estudarem e de darem a conhecer o valor das obras que realizaram.

Mas, voltemos, a João Dubraz, pois que é por ele e pela sua obra, que aqui estamos reunidos neste momento. Ele é, sem dúvida, digno de grande destaque, não apenas por aquilo que realizou em vida, mas também pela influência com que, mesmo depois da sua morte, tanto marcou as gerações que se lhe seguiram. Não foi por acaso que, depois dele, se formou uma pequena elite cultural que teve uma importante intervenção nesta vila de Campo Maior, com a criação de filarmónicas, associações recreativas, clubes de futebol e mesmo de dois jornais locais: o Campomaiorense e o Notícias de Campo Maior.

 

Durante anos, fui recolhendo informações. Mas só recentemente, me pude dedicar mais intensamente a este projecto, pois que, na situação de reformado e tendo voltado a residir em Campo Maior, pude dispor de mais tempo e de ter mais fácil acesso a importantes documentos existentes nas bibliotecas e arquivos de Elvas e de Portalegre.

 

Durante um período relativamente extenso, pude aí recolher dados que foram enriquecendo os meus conhecimentos, permitindo-me desenvolver o trabalho em curso e poder elaborar as obras que fui publicando nestes últimos anos.

Convém assinalar que o objectivo principal do livro que agora apresento, foi dar a minha contribuição para que seja assinalado o “Bicentenário” do nascimento de João Dubraz que nasceu em Campo Maior no início da madrugada do dia 21 de Janeiro de 1818, tendo falecido, nesta sua mátria, com 76 anos de idade, em 24 de Setembro de 1895.

 

 

Na obra apresentada no passado mês de Setembro, incluí os escritos publicados por João Dubraz no seu livro intitulado Recordações dos Últimos Quarenta Anos, do qual se esgotaram rapidamente as duas edições publicadas em 1868 e 1869. 

Na primeira parte dessa obra foram referidas as memórias históricas, ou seja, os factos memoráveis da história militar da importante praça de guerra que Campo Maior foi até meados do séc. XIX.

Na segunda parte foi feita a narrativa dos factos em que ele, João Dubraz, participou como militante político, envolvendo-se como combatente voluntário na milícia liberalista e chegando a ser empossado na função de administrador deste concelho.

 

 

Foi devido à sua acção política que, sem acusação, sem culpa provada e sem ter sido julgado, foi mandado para a cadeia civil de Elvas, onde ficou preso durante cinco meses e só recuperou a liberdade graças a ter congeminado um hábil plano de fuga.

 

 

Neste momento, em que aqui estamos a apresentar outro livro que, significativamente, tem o título de VIDA E OBRA DE JOÃO DUBRAZ, temos que mudar o âmbito e a perspectiva desta apresentação, pois que, o livro que agora se apresenta, tem como objectivo fulcral, comemorar o bicentenário do nascimento de João Dubraz. Daí focar-se prioritariamente, na sua vida e na sua obra.

Naturalmente que, em termos de investigação, este volume exigiu um maior número de pesquisas e um tratamento mais demorado das informações encontradas. Muitos dos materiais utilizados na sua elaboração eram completamente desconhecidos ou porque não tinham sido publicados em livro, ou porque não era fácil descobrir os jornais onde João Dubraz os tinha publicado.

Por outro lado, mesmo no que respeita aos livros publicados, verificou-se também que, alguns se perderam completamente, como os Annaes do Municipio de Campo Maior. E outros, nem chegaram a serem publicados, como os intitulados Os dois Carácteres e O Castigo que, como ele complacentemente escreveu, seriam simples obras de juventude.

Ter-se-á também perdido uma obra, referida por João Ruivo, intitulada Subsídios Históricos para a Guerra da Maria da Fonte no Alto Alentejo, a qual teria hoje um grande interesse porque geralmente se considera que esta terrível guerra civil só terá acontecido nas terras do norte de Portugal.

Outras obras, principalmente os escritos políticos, devido ao seu carácter panfletário, tiveram vida efémera e curta divulgação. Mas, mesmo estes, são importantíssimos, se pretendemos conhecer o pensamento de João Dubraz porque, conhecendo-o, ficamos com uma ideia muito interessante sobre a história das ideias na época em que ele viveu.

Por outro lado, uma parte importante da sua vida e da sua obra, está relacionada com o facto de ter exercido, mesmo até à sua morte, uma empenhada acção como professor.

Ora, sendo então ainda muito escassa a produção de livros destinados ao ensino escolar, João Dubraz, em vez de se lamentar, tomou a iniciativa de escrever compêndios para uso dos seus alunos. Estes compêndios constituem hoje preciosos documentos para conhecermos as condições e as preocupações do ensino no seu tempo.

Na verdade, a obra de João Dubraz, é uma riquissíma fonte de abundantes e preciosas informações sobre o tempo em que viveu.

Do mesmo modo, os escritos, publicados nos muitos jornais em que colaborou, fornecem também importantes informações sobre as condições de vida, na sua época.

Mesmo os folhetins, textos de entretenimento por ele publicados nos jornais, podem conter informações interessantes sobre a mentalidade, as preocupações, os usos e costumes e as condições de vida nesse tempo.

Mas, porque não se inibia de denunciar as situações e as atitudes que lhe pareciam inaceitáveis e merecedoras de pública denúncia e condenação, originou que contra ele se tivesse levantado uma violenta reacção que muito o amargurou, pois que, as polémicas que, quase no fim da sua vida o envolveram, descambaram por vezes para atitudes de muito baixo nível. Moveram-lhe tal perseguição que o impediram de dar aulas em Campo Maior o que o obrigou a ter de ir dar aulas para Amarante, no distante Minho, aos 76 anos idade. Os que ele censurava e denunciava pelos comportamentos abusivos e ilicitos que manifestavam no exercício dos cargos públicos, desciam às mentiras mais infames e às insinuações e acusações mais vis, tentando desacreditá-lo. Esses escritos, por vezes bastante abjectos, permitem-nos comprender as condições, as atitudes e os comportamentos da sociedade local, na fase final da sua vida que era também a fase final de uma época em acentuada decadência: a da monarquia liberal.

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publicado às 20:44


BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE JOÃO DUBRAZ

por Francisco Galego, em 17.01.18

Celebração do

 

BICENTENÁRIO DO NASCIMENTO

 

DE JOÃO DUBRAZ

 

NO PRÓXIMO  Domingo,

 

DIA 21 DE JANEIRO,

 

SERÁ APRESENTADO

 

O III VOL. DA OBRA

 

CAMPO MAIOR NA OBRA DE

 

JOÃO DUBRAZ,

 

SOB O TÍTULO DE "VIDA E OBRA".

 

A APRESENTAÇÃO TERÁ LUGAR NO CENTRO CULTURAL PELAS 17 HORAS.

PARA ESTE ACTO CONVIDAM-SE TODOS  INTERESSADOS EM PARTICIPAREM NESTA HOMENAGEM A UM DOS MAIS NOTÁVEIS REPRESENTANTES DA CULTURA E DA HISTÓRIA DE CAMPO MAIOR.

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publicado às 13:31


OS BONS VELHOS TEMPOS?

por Francisco Galego, em 13.01.18

Fiz do estudo e do ensino da História o meu modo de vida, por gosto e por vocação. Mas o interesse pela História não fez de mim um saudosista. Não choro o tempo que passou, nem exalto as suas “virtudes” perdidas. Na verdade, o que eu sinto é uma imensa pena de já não poder viver o tempo que há-de vir, por ser minha convicção que há uma certa probabilidade de vir a ser  mais interessante do que o tempo que vivi e que o tempo que agora vivo. Parece-me ser esta a melhor e a mais atilada maneira de entendermos as coisas que são verdadeiramente importantes na nossa vida.

É importante compreender o passado, pois o seu conhecimento ajuda-nos a entender como e porquê, as coisas evoluiram desta ou daquela maneira. E isso pode evitar que certos erros sejam repetidos. Porém, em meu entender, a contemplação do passado pode ter qualquer coisa de mórbido que não nos deixa apreciar o lado bom da vida que nos coube viver.

Todas as épocas têm os seus problemas. Mas isto não é motivo para se fazer o choradinho de que “no meu tempo é que era bom”. O meu tempo é efectivamente este que estou agora a viver.

Tenho consciência dos problemas que, neste momento, preocupam e atormentam as novas gerações. Mas, também a minha geração se preocupou e preocupa com os problemas que teve e tem de enfrentar, tanto pelas  dificuldades que vivemos, como pelas dificuldades que vemos os outros viverem. Mas se me ponho a comparar as condições da vida nos tempos passados, acabo por chegar à conclusão de que, talvez as condições actuais, não sejam  tão más como foram as desses “bons velhos tempos”.

 

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CULTURA E CONTRACULTURA...

por Francisco Galego, em 10.01.18

Porque o ANO NOVO deve ser um tempo de avaliação:

 

Segundo Eduardo Lourenço, a cultura é a maneira que, cada civilização, cada povo, cada época, têm de se questionarem a si próprias sobre o que são, para onde caminham e quais os caminhos que devem seguir. Para ele: “A cultura não é a resposta, é a questão”; “A cultura é o diálogo da humanidade consigo própria”. Por isso, “Não há um paradigma. Não há cultura, mas culturas”, porque, nem as perguntas, nem as respostas, são as mesmas. Variam com o tempo, com as circunstâncias e com as situações.

A cultura é um conhecimento que não consiste em saber coisas, mas em dar sentido às coisas. É a capacidade de saber avaliar e de avaliar-se a si mesmo, é o pensamento de que resulta a compreensão.

Onde não houver pensamento não há cultura; há apenas coisas. O sujeito cultural é sempre um sujeito com memória do que foi e que elabora o projecto daquilo em que pretende tornar-se. Ou seja, o sujeito cultural comprende o seu passado e constrói o seu próprio futuro.

Jean Jacques Rousseau colocou a cultura no centro da formação humana. A cultura é um conhecimento que se assimila, que se desenvolve e que se transmite. Por isso, a cultura pressupõe a capacidade de compreender e alarga a capacidade de agir.

Neste sentido podemos designar como contracultura, o que existe para nos distrair da verdadeira cultura. Numa situação de contracultura, o tempo como que pára, instalando-se um presente contínuo, sem passado e sem futuro. Ou seja, deixa de haver memória de si mesmo e deixa de existir projecto de construção do nosso próprio futuro.

 

De certo modo, cada sociedade, ou cada época, pode ser avaliada consoante o modo como se posiciona em relação a estes dois polos: o da cultura e o da contracultura.

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6 DE JANEIRO – “DIA DE REIS”

por Francisco Galego, em 06.01.18

Aqui ao lado, os nossos vizinhos espanhóis comemoram “Los Reyes” que, para eles é o grande dia de troca de presentes. De certo modo, daquilo que nós fazemos no Natal.

 

Natal, Ano Novo, Dia dos Reis. Devem ser dias de boa vontade, dias de fé, de renovação e de esperança.

 

Isto levou-me a pensar que fomos  deixando de ter o consolo dos sentimentos  que alimentavam a nossa esperança. Será este um dos problemas deste desencantado presente? Pensando bem, vive-se sem modelo orientador. Há os que vivem movidos pela ambição. Outros estão conformados, tentando apenas garantirem a melhor maneira de irem sobrevivendo. Os projectos de vida vão dando lugar ao entretenimento. A acomodação conformada vai ocupando o lugar que devia ser o da luta e da persistência.

 

Tenho consciência de que há nisto um pessimismo demasiado radical. Mas, enfim... Trata-se apenas de um desabafo, fruto deste crescente desencanto.

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NOVO ANO...

por Francisco Galego, em 05.01.18

Mudou o ano.
Mas, mudou a vida?
 

Ou a vida,  continua
Sem mudança? ...


Em cada ano

Reganhamos a esperança,

Na mesma ânsia de que tudo mude ...


E, afinal,

O que irá mesmo mudar?

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AINDA SOBRE CALENDÁRIOS...

por Francisco Galego, em 02.01.18

Além do calendário gregoriano e coincidindo com ele, subsiste também um calendário que, em tempos passados, era muito tomado em consideração. Tratava-se afinal de ligar cada dia santificando-o por ligação a uma entendidade ou facto relevante do ponto de vista da religião cristã.

Houve mesmo o hábito, respeitado por certas famílias, de atribuir aos recém-nascidos o nome, do santo ou santa, que correspondia ao dia do seu nascimento.

Em Espanha, havia mesmo a tradição de celebrar o que eles designavam como “El dia de su santo” que desconheço se ainda se mantém.  

A título de curiosidade, hoje, dia 2 de Janeiro, é o dia consagrado a dois santos: S. Basílio Magno e S. Gregório Nazianzeno, bispo.

Informações destas, só as podemos encontrar se tivermos o cuidado de adquirir o muito antigo e dantes também muito famoso e tido em consideração, “O Verdadeiro Almanaque BORDA D’ÁGUA”, perito e expedito em todas estas informações.

E mais: Pela módica quantia de 2,20 € (Iva incluído) ainda temos acesso ao Oráculo de Janeiro, à Astrologia e a informações sobre Agricultura, Jardinagem e Animais, tudo conhecimentos importantes para orientarmos as nossas vidas.

Com a consciência do dever cumprido, despeço-me por hoje...

 

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publicado às 16:03

Desde que os homens tiveram consciência da ciclicidade da Natureza, procuraram organizar-se sistematizando a forma de preverem e anteciparem as diversas etapas que decorrem no devir a que  chamamos o tempo.

Embora se tratasse de analisar e ordenar uma mesma realidade, foram muito diversas as soluções a que as diversas civilizações foram chegando. Aos sistemas de organização do tempo chamamos os calendários, compostos de horas, dias, semanas, meses, estações, anos ...

No império romano usava-se o "calendário juliano" implantado por Júlio César (100–44 a.C.), que foi adoptado na Europa, até que, em sua substituição, foi  promulgado pelo Papa Gregório XIII (1572–1585), a 24 de Fevereiro do ano 1582, pela bula Inter gravissimas o “calendário gregoriano”. Com a expansão da nossa civilização, dita ocidental e cristã,  expandiu-se pelas diversas regiões do mundo, embora algumas civilizações mantenham, nas celebrações do Novo Ano, ritualidades que remontam às suas tradições religiosas.

No nosso calendário dito “gregoriano”, a celebração do “Ano Novo”, no dia 1º de Janeiro, tem origem num decreto do imperador romano Júlio César publicado no ano 46 A.C. e coincide com o dia que os romanos consagravam a “Janus”, o deus de duas faces contrapostas, simbolizando o princípio e o fim de todas as coisas. Dele derivou o nome de  Janeiro. Trava-se de uma divindade romana de duas faces, uma olhando para o que acabava e outra para o que ia começar, que deu o nome ao mês primeiro do ano (Januarius) porque com ele acabava o ano que findava e começava um Novo Ano.

Mas, a uniformização desta celebração do Ano Novo, só muito mais tarde se verificou, pois que, na Idade Média, em diversos países, outros dias, como o 1 de Março, o 25 de Março, o 1 de Setembro, o 25 de Dezembro, foram considerados início do ano civil. Na Inglaterra e nos seus domínios coloniais, até meados do século XVIII, o ano novo começava em 25 de Março.

Entendido como um recomeço, tendeu a ser celebrado como o reinício, ou a nova etapa, no decurso contínuo das nossas existências.

 

POR ISSO, CUMPRINDO A TRADIÇÃO, AQUI FICAM OS VOTOS DE

 

FELIZ ANO NOVO

 

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