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IN ILLO TEMPORE : A ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

por Francisco Galego, em 30.08.16

Julgo que será por ser dia do meu aniversário que me deixei tomar de uma certa nostalgia. Também pesou o facto de fazer a soma dos 75 anos. Com eles chega uma certa tendência que leva a ir fazendo contas com os tempos que já passaram há tanto tempo, pois eles só já perduram na memória dos que viveram muitos anos. 

Em Campo Maior, em meados do século vinte, os assalariados rurais reuniam-se ao ar livre nos Cantos de Baixo. Os pequenos agricultores tendiam mais a juntarem-se aos Cantos de Cima. Os que não estavam ligados ao trabalho nos campos, tendiam mais a juntarem-se no Terreiro. Quando o tempo o não permitia,  frequentavam  as sociedades: os trabalhadores rurais, a sede da música no Assento, ou a da Casa do Povo; os comerciantes, os oficiais e os mestres dos ofícios, bem como os pequenos e médios proprietários, eram presença habitual na Sociedade da Praça que, aliás, fazia cuidadosa selecção na admissão de novos associados; acima destas e no vértice da pirâmide social, a vulgarmente chamada "Sociedade dos Ricos" era o “santo dos santos” só acessível a uma elite muito restrita porque muito seleccionada.

Um pouco mais tarde, por razões clubistas, tinham aparecido alguns centros de convívio mais interclassistas como a sede do Sporting Clube Campomaiorense e ainda mais tarde a Casa do Benfica.

Como locais de convívio masculino, para os trabalhadores rurais, havia também muitas tabernas espalhadas por quase todas as zonas da vila.

Mais tarde surgiu a Pastelaria  -  Alcor, de seu nome -  de clientela também muito seleccionada.

Café, propriamente dito, apenas o desaparecido Café Central ou Café Guitano, com uma extraordinária organização ao encontro da estratificação que caracterizava a sociedade campomaiorense nesse tempo: no lado direito de quem estava voltado para o prédio, numa primeira sala, encontrávamos um clima perfeito de taberna, tanto no que respeitava ao mobiliário, como no tipo de serviço que aí se dispensava aos clientes; na parte central uma zona constituída por duas salas – a do bilhar e a das mesas para se tomar café e cavaquear; depois seguia-se uma espécie de reservado para os clientes de categoria que não apreciavam o convívio generalizado com a outra gente. Num canto desta última sala, ficavam as mesas que funcionavam como restaurante.

 

Esta organização dos centros de convívio numa vila como Campo Maior, sociedade fundamentalmente agrícola e com características bastante arcaicas, parecerá hoje inacreditável para as novas gerações. Mas estava irremediavelmente de acordo com as condições de vida desse tempo.

Depois, embora tudo parecesse continuar na mesma, uma vez que a situação política de ditadura persistia, tudo começou a mudar. Começou com o incontível fluxo migratório que arrastou para as grandes cidades e para a Europa uma tal massa de gente que nada poderia, a partir daí, permanecer como tinha sido. Os pobres tornaram-se muito menos e muito menos pobres. Com isso, os ricos começaram a cair do seu pedestal. Com a mecanização, a agricultura sofreu tão profundas mudanças que muitos não conseguiram sobreviver-lhes. Viram-se obrigados a mudarem por completo o seu modo de vida. Parecia que tudo se desmoronava, tal era o impulso de mudança provocado pela nova situação.

Foi todo um estilo de vida que desapareceu. Nestas condições, tornava-se inevitável que muitas das organizações e associações desaparecessem porque tinham nascido para outro modelo de sociedade.

Diz-se que as fontes, em períodos de grandes secas, antes de secarem por completo, deitam um jorro mais forte parecendo que vão renascer. De certo modo, foi isso que aconteceu com as antigas “sociedades” e locais de convívio. No início dos anos 60, quando elas já tinham entrado numa acentuada decadência prenunciando o seu fim, a televisão começara a transmissão regular de programas para todas as regiões do país. Os equipamentos e os aparelhos receptores eram caros. As associações e clubes aproveitaram para os instalar e, organizando espaços para assistência aos programas, atraíram de novo as massas associativas que garantissem a sua subsistência.

Foi sol de pouca dura. A facilidade na aquisição desses equipamentos pelas famílias ditou o fim irremediável dessas agremiações. Delas nada mais resta na vila raiana de Campo Maior.

A nova sociedade, muito mais interclassista, ditou outros locais e outros usos e costumes. E eu, se falo disto, não é porque o que acontecia IN ILLO TEMPORE, me tenha deixado qualquer indício de saudade. Trata-se apenas de lembrar...

 

 

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NUM OUTRO TEMPO ... O VERÃO ...

por Francisco Galego, em 20.08.16

Quando chegavam as grandes calmarias de Verão, o Alentejo tornava-se mais profundo. Mais isolado do resto do mundo.

A terra ressequida, nas horas de calor mais intenso, parecia tornar-se um imenso brasido. Olhando para longe, sobre os restolhos, víamos aquele tremeluzir que fazia desvanecer o contorno das coisas.

É a memória desta terra esbraseada que mais me traz as recordações da minha infância.

Por esta altura, livres da escola e das tarefas a que ela obrigava, batíamos os campos, insensíveis ao calor que tanto incomodava os mais velhos.

Numa busca vadia procurávamos grilos, pássaros que, estonteados pelo calor, se punham ao alcance das nossas gailoas de cana e da nossas fisgas, a que chamávamos afundas. Deitávamos a mão a alguns figos que, na ausência dos donos, ficavam ao nosso alcance Quando regressávamos esbraseados e sedentos, trazíamos os bolsos cheios de tudo a que pudéssemos ter deitado mão. Éramos livres e felizes, embora muito inconscientes dos perigos a que frequentemente nos expunhamos e, sobretudo, das maldades e excessos que quase sempre praticávamos.

Por circunstâncias da minha vida, cedo abandonei esta vida, vivida com grande sentido de camaradagem. As “maltas”, formadas pelos que viviam em proximidade de ruas, eram autênticas escolas que nos ensinavam coisas, que não se aprendiam nos bancos da escola, mas que nos moldaram para o resto da vida:

- a solidariedade entre os membros do grupo;

- o sentido de pertença àquelas pequenas comunidades;

- o sentido de entreajuda;

- a lealdade e o dever de cuidar dos mais novos, dos mais desprotegidos;

- a coragem para lutar em defesa do interesse de todos.

 A vila mudou muito. O mundo da minha infância morreu. Como morreu a comunidade rural em que cresci para a vida, aqui, em Campo Maior.

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AINDA EM FÉRIAS MAS...

por Francisco Galego, em 10.08.16

PORQUE É TEMPO DE RELER, ... É TEMPO DE REDESCOBRIR:

 

Um muito difícil ponto da economia política e social: Quantas almas é preciso dar ao Diabo e quantos corpos se têm de entregar no cemitério para fazer um rico neste mundo.

 

ALMEIDA GARRETT - Viagens na minha terra, Cap. III, (publicado em 1846, portanto, há 170 anos, num tempo em que começara a usar-se uma avançada forma de viajar rápida e confortavelmente: o combóio a vapor)

 

Pensando assim, facilmente chegamos à conclusão de que, se é indiscutível que há uma  mudança  rapida e contínua nas condições de vida, há, contudo, algo que muda tão lentamente que chega a parecer que, de facto,  não muda. Senão vejamos: Em que é que mudou a inteligência política e a consciência social dos que neste mundo acumulam o poder e a riqueza?

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publicado às 08:13


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