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O MODELO DAS FESTAS NOS ANOS DO SÉC. XX - III

por Francisco Galego, em 27.02.15

O Campomaiorense, Ano III, Nº 62, 30 de Outubro de 1923

As festas do Povo

    As Festas do Povo tiveram este ano um brilhantismo desusado. Cerca de 5.000 pessoas aclamaram os briosos aviadores militares que visitaram a vila por ocasião das festas.

A grande falta de espaço com que lutamos neste número do nosso jornal não nos permite fazer uma descrição minuciosa das festas, por isso nos limitaremos a fixar em pequenas notas as impressões que colhemos na nossa missão de repórter.

O programa das festas inseria uma pequena crónica de um nosso camarada de redacção e foi um belo pretexto para o comércio e a indústria locais, anunciarem os seus produtos.

Intercalavam-se no texto alguns clichés da vila que, por banalizados, já se não deviam aproveitar. É certo que a Comissão não pode adquirir novas fotogravuras por falta de verba, embora tivesse mandado tirar fotografias de sítios ainda inéditos em gravura.

Os programas foram primorosamente executados na Tipografia Popular de Elvas.

Fraca concorrência à festa religiosa do primeiro dia. Orou o reverendo Dr. Costa Gomes. A Capela da Orquestra da Academia dos Amadores de Música agradou.

À tarde, a procissão teve numeroso acompanhamento. Pelas janelas muitas senhoras e algumas caras bonitas a porem uma nota galante no cortejo.

Realizaram-se três touradas à vara larga, sendo a última a benefício da Misericórdia. A improvisada praça, sempre à cunha. A faena com pouco interesse. Pouco entusiasmo nos diestros. Gado fraco, gratuitamente cedido pelos lavradores Srs. António Sousa da Gama, irmãos Tenório Rente, João Serra, João Minas, Francisco Corado Júnior e Dr. Pereira Agrela. Algum bicho mais teso que apareceu, não tinha com quem se defrontar, pois tudo fugia a sete pés… Apenas uma boa pega, na segunda tourada, em honra do aviadores, que brindaram o forcado com 50 escudos, tendo este recebido mais uns 200 escudos duma quete que se abriu na praça.

Na segunda tourada deu-se um desastre que podia ter tido lamentáveis consequências. Em determinado momento, para melhor verem o que se passava no redondel, toda a gente que se encontrava num camarote, junto ao curro, se amontoou à frente, dando em resultado partir-se uma trave, que cedeu ao peso e abateu o telhado, caindo ao solo os espectadores que ali se encontravam, homens, mulheres e algumas crianças, tudo enrodilhado, o que provocou grande pânico. Felizmente, só duas crianças ficaram feridas sem gravidade. O maior charivari foi depois feito pelo povoléu que discutiu acaloradamente o incidente, tendo havido ainda um esboço de conflito com a força da Guarda Republicana que policiava o local, mas tudo serenou por fim. No entanto, a diversão terminou um pouco precipitadamente.

Quase todas as ruas se achavam ornamentadas a capricho. Merecem especial referência o Largo do Terreiro e as ruas do Pedroso, Major Talaya, Visconde de Seabra, Vasco Romão e Miguel Bombarda. Das surpresas, a destacar: o moinho do hábil artífice Sr. Peguinho e um avião dos Srs. Humberto Pires e Serafim Sobrinho.

Os arraiais no Jardim Público, foram muito concorridos. O local achava-se primorosamente iluminado a electricidade e numa disposição artística, o que se deve à perícia do hábil electricista Sr. Norberto Corado. O fogo de artifício, regular.

A Banda União Artística de Castelo de Vide foi, como sempre, muito apreciada. Os concertos que deu, deixaram a melhor impressão no público conhecedor.

O torneio de tiro aos pombos, que estava anunciado, não se realizou por dificuldades que surgiram à última hora.

O trânsito na fronteira esteve livre durante os dias de festa, mas poucos espanhóis vieram assistir a elas.

 

A nota mais animada das festas, foi a vinda de dois aviões do Grupo de Esquadrilhas de Aviação República, da Amadora, cuja chegada estava anunciada, no programa, para o primeiro dia das festas, tendo sido, à última hora, marcada para o segundo dia, por motivo dos mesmos aviões terem de inaugurar um campo de aviação, em Vila Real de Santo António.

Manhã cedo, as estradas que conduzem ao Rossio de S. Pedro, onde se devia fazer a aterragem, ofereciam um aspecto curioso. Quase toda a população da vila e os forasteiros, afluíram aquele local para gozar o emocionante espectáculo da chegada dos aparelhos que, pela primeira vez, nos visitaram. A aterragem estava marcada para as 9 horas. A essa hora, encontravam-se já no Rossio cerca de 5.000 pessoas.

Dava uma nota garrida as mulheres com seus trajes multicolores. O serviço de policiamento era feito por uma força de cavalaria e infantaria da Guarda Republicana. Um ou outro popular lembrava-se, de vez em quando, de dar o grito de alarme e logo, toda aquela mole de gente, se lançava em manifestações de entusiasmo, perscrutando o espaço na direcção do sul, presa da maior ansiedade. Duas águias que pairavam sobre o campo, a enorme altura e que alguém se lembrou de dizer que eram os aeroplanos, mereceram uma estrondosa manifestação… Breve se reconhecia o logro e, em comentários alegres, se ia passando o tempo.

Ao meio dia, como não houvesse notícia dos aviões, a multidão que se aguentara três horas a pé firme, sob um sol ardentíssimo, começou a debandar, desgostosa com o insucesso.

Só depois se soube que o motivo do incidente tinha sido a falta de gasolina, por um telegrama que anunciava a chegada para o dia seguinte, terceiro das festas. A mesma multidão afluiu de novo ao Rossio, mas já um pouco receosa de novo insucesso.

Cerca das 11 horas, quando o desânimo começava já a invadir o público e depois de se repetirem os episódios da véspera, avistaram-se os aviões que vinham dos lados de Badajoz, ouvindo-se distintamente o ruído característico dos motores, num voo sereno e majestoso. Junto da pista foi acesa uma fogueira para servir de guia aos aviadores. O que então se passou quase não sabe a nossa modesta pena descrevê-lo. A enorme massa de povo que, na quase totalidade, pela primeira vez presenciava semelhante espectáculo, rompeu em ruidosas exclamações de alegria, batendo palmas, soltando entusiásticos vivas, as senhoras acenando com os lenços, saudando os denodados tripulantes dos aviões que, a pequena altura, faziam diversas evoluções sobre o campo, como preparação para a aterragem. Esta, fez-se de uma forma magistral, mostrando a perícia dos oficiais pilotos, o que provocou vibrantes aplausos da multidão. Eram 11 horas e 15 minutos. O primeiro aparelho que aterrou foi o Breguet 5, pilotado pelo tenente Sr. Jorge de Ávila, tendo como tripulantes os Srs. capitão Carlos Cabrita e tenente observador Francisco Larcher. O segundo era o Breguet 13, pilotado pelo tenente sr. Sérgio da Silva, tendo como tripulantes os Srs. tenente observador Brandão de Brito e mecânico-chefe Gouveia.

Estes aparelhos foram baptizados em Vila Real de Santo António, respectivamente com os nomes de Tinita e Condestabre II, tendo sido madrinhas duas gentis senhoras da melhor sociedade daquela importante vila algarvia, segundo nos informaram depois os arrojados pilotos.

A primeira pessoa que chegou junto dos aparelhos foi o nosso redactor que abraçou os aviadores, apresentando-lhe os cumprimentos de boas vindas em nome do Campomaiorense, tendo-nos o Sr. tenente Ávila informado que a viagem decorrera magnificamente. Embora o vento nordeste fosse prejudicial à marcha, a etapa Vila Real de Santo António – Campo Maior, fizera-se em 2 horas e 5 minutos.

Na pista, os aviadores receberam os cumprimentos da Comissão das Festas e da Comissão de Recepção, que era composta dos Srs. Dr. Tello da Gama, presidente da Comissão Executiva da Câmara Municipal, Caiola Júnior, administrador do concelho, comandante Cabrita, comandante da secção da Guarda Fiscal, tenente-médico miliciano Dr. Carreiras e João Dores, oficial do registo civil, seguindo todos de carro para a vila, sendo os bravos aviadores alvo das mais sinceras manifestações de simpatia durante o trajecto. À entrada da vila, eram os nossos visitantes aguardados pela Banda de Castelo de Vide e muito povo, repetindo-se as manifestações. Os oficiais aviadores foram alojados numa dependência do rés-do-chão do palácio Camaride, obsequiosamente cedida pelo seu actual proprietário Sr. Dr. Tello da Gama. À tarde, assistiram à tourada, tendo-se repetido as manifestações ao tomarem lugar no camarote da Comissão das Festas. À noite foram os aviadores recebidos no salão nobre da Câmara Municipal, sendo-lhes dadas as boas vindas pelos Srs. Dr. Gama, Caiola, Dores e Dr. Carreiras, usando da palavra para agradecer os Srs. capitão Cabrita e tenentes Ávila e Brito, servindo-se um primoroso copo de água oferecido pelo município e ao qual assistiram alguns vereadores e outras entidades oficiais do concelho que haviam sido convidadas.

No dia seguinte, último das festas, teve lugar numa das salas do Grémio, um jantar de despedida aos aviadores a que assistiram os membros da Comissão das Festas e da Comissão de Recepção e o nosso redactor, tendo-se trocado amistosos brindes, erguendo-se calorosos vivas à aviação militar. Os aviadores manifestaram o seu reconhecimento pela carinhosa recepção que lhes haviam feito as comissões referidas e o povo de Campo Maior, ao qual ergueram entusiásticos vivas.

Os aviadores partiram no dia 6, tendo descolado às 7 horas e 30 minutos. A manhã estava soberba e à partida assistiram muitos populares que tributaram aos intrépidos aeronautas uma quente e expressiva manifestação de despedida. Os aparelhos, depois de evolucionarem sobre a vila, onde se viam pelas varandas e mirantes muitas senhoras acenando com os lenços, tomaram rumo de Lisboa, passando sobre Estremoz e outras terras, tendo aterrado na Amadora, com a maior felicidade depois de 2 horas de excelente viagem, isto é, às 9 e 30. Logo que aterraram, os simpáticos aviadores dirigiram telegramas de saudação e de agradecimento ao Presidente da Câmara, Administrador do Concelho, Comandante Fiscal e ao nosso redactor, como intermediário entre a equipa aeronáutica e a Comissão das Festas.

Durante a estada dos aviões no campo do Rossio, foi ali uma constante romaria de populares, curiosos de os verem de perto, sendo a guarda dos aparelhos feita permanentemente por uma patrulha.

A Comissão das Festas trabalhou afanosamente para que elas tivessem o brilho que as distinguiu. A Comissão, se bem que teve alguma decididas boas vontades a auxiliá-la, teve também muitas más vontades a embaraçar-lhe o caminho mas, apesar de todas as contrariedades e dissabores, houve-se por forma a merecer a simpatia geral dos campomaiorenses. Só quem acompanhou de perto os trabalhos da Comissão pode avaliar quanta energia e tenacidade foi preciso desenvolver para chegar a tão brilhantes resultados. O Campomaiorense, agradecendo aos simpáticos rapazes da Comissão as gentilezas com que cumularam o seu redactor, louva-os pelo seu acentuado bairrismo e pela sua acção inteligente em prol de Campo Maior.

               

 

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publicado às 10:07


O MODELO DAS FESTAS NOS ANOS DO SÉC. XX - I

por Francisco Galego, em 23.02.15

Repare-se como na notícia que se segue vão aparecer rebaptizadas as Festas que, desde há muito, Campo Maior organizava em honra de São João Baptista: Festas do Povo. A criação desta expressão genial porque designava a situação real das festas, que já não eram obra de um grupo socioprofissional, os artistas, mas de todo o povo de Campo Maior. A expressão teve como seu criador, o homem que animou a vida cultural de Campo Maior nesta época, João Ruivo. Ele era de facto a alma e o corpo do jornal e foi ele que redigiu todas as notícias que se seguem e se referem às Festas

O Campomaiorense, Ano II, Nº 37, 15 de Setembro de 1922

Festas do Povo

Nos dias 3 a 6 do corrente realizaram-se nesta vila as tradicionais Festas do Povo, cumprindo-se à risca o programa que publicámos no nosso último número.

A banda União Artística de Castelo de Vide apresentou-se com galhardia, com distinção e executou com muito brilho o seu repertório. Muita pontualidade, muita correcção. Castelo de Vide, a Sintra do Alentejo, pode orgulhar-se de ter sido muito bem representada pela sua filarmónica, que teve a gentileza de nos vir cumprimentar. Da janela da casa do nosso amigo Sr. José Ramos, onde se acha provisoriamente instalada a redacção, agradeceu o nosso camarada João Ruivo. Serviu-se um modesto copo-de-água, brindando o nosso camarada Eduardo Ramos e agradecendo em nome da direcção da filarmónica, o Sr. António de Almeida Bucho, que teve também a amabilidade de vir apresentar-nos os seus cumprimentos de despedida. (…)

No primeiro dia, as ruas da vila surgiram vistosamente engalanadas como que numa apoteose de mágica. Cordões de verdura, bandeira multicolores, galhardetes, arcos de triunfo a quebrarem a monotonia dos dias normais.

A destacar, a ornamentação da Praça da República onde o nosso amigo José Valente pôs uma nota de bom gosto; a Rua Miguel Bombarda, ornamentação dirigida pelo hortelão Mourato, bom velhote, com grande jeito para coisas bonitas; a Rua da Misericórdia e a de Pedroso; o labirinto do Largo do Barão de Barcelinhos; as entradas da Rua Major Talaya; as iluminações à veneziana da Rua 13 de Dezembro e à moda do Minho da Rua da Poterna; as varandas do Srs. Manuel Joaquim Correia, Diogo Chouriço, Manuel Prateiro e João Gonçalves Júnior, artisticamente ornamentadas.

Festa de igreja regularmente concorrida de senhoras; sermão péssimo como obra literária e como meio de propaganda religiosa. Procissão com numeroso acompanhamento de gente do povo; as janelas apinhadas de senhoras a verem passar.

Três touradas à vara larga, características, regionais, Alentejo puro. Muito sol, animação, interessante matiz de cores, pitoresco desde a construção da praça à disposição do povinho pelo círculo de carros. Algumas caras bonitas nos camarotes. Gado regular e menos trambolhões do que no ano passado. O núcleo de ‘caixeirato’ local, apresentou-se em quadrilha com uma capa que não teve ocasião de servir por motivo do gado ser fraco. Um verdadeiro sucesso…

A última tourada foi em benefício da Misericórdia. Todos os proprietários de camarotes os cederam gratuitamente apesar da maior parte não ter sido feliz na receita dos dois primeiros dias, que quase não deu para a despesa. O Sr. Pedro Ruivo, além de ceder o camarote, ainda pagou os bilhetes para todas as pessoas da sua família. O serviço de venda de bilhetes, fiscalização, etc., foi todo feito por elementos categorizados da vila, cujos nomes nos é impossível mencionar neste pequeno relato. A comissão de festas não quis ter a gentileza de ter convidado nosso jornal para o seu camarote. Escusado será dizer que ‘O Campomaiorense’, não deixaria de pagar o lugar do seu representante em todas as touradas, mesmo que fosse convidado.

Arraiais muito concorridos. Vimos muitos forasteiros. O fogo de artifício pouco e fraquito, por falta de verba para coisa de mais efeito. Culpa de quem não contribui como deve para festas tão interessantes. Muitos bailes populares, onde os camponeses alentados e as moçoilas de trajos garridos se desafiavam em quadras singelas, numa toada lenta, que revela a índole bonacheirona do nosso povo. Iluminação deficiente no jardim. Será bom que, nos anos futuros, as comissões das festas tomem em conta este pormenor.

Serviço de policia regular… as festas decorreram sem incidentes desagradáveis. Não houve uma única desordem; o povo comportou-se à altura…

As festas terminaram deixando as melhores e mais gratas impressões. A comissão de festas, à parte pequenas falhas devidas à influência do meio, merece um louvor pelo trabalho extenuante e sacrifício que representa o seu esforço e boa vontade.

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publicado às 09:24


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – V

por Francisco Galego, em 19.02.15

O MODELO DAS FESTAS NOS ANOS DO SÉC.  XX

 

 

O Campomaiorense, Ano I, Nº 2, 15 de Agosto de 1921

Grandiosas e deslumbrantes festas nos dias 1, 2, 3 e 4 de Setembro de 1921, em honra de S. João Baptista Padroeiro desta vila e que se venera na Igreja do mesmo nome.

 

- Imponente cerimonial de igreja

- Orquestra composta de um grande número de executantes, sob a hábil

   regência do Sr. José Francisco Soares

- Sermão pelo distinto orador Vener. Dr. Costa Gomes

- Vistosa e geral ornamentação de todas as ruas e largos da vila

- Quermesse onde figuram muitas e ricas prendas

- Festival na Avenida Dr. Agrela

- Concerto musical pela “Banda União Campomaiorense” sob a regência do

   maestro José Francisco Soares

- Imponentes touradas à vara larga

- Maravilhoso fogo de artifício confeccionado pelo hábil pirotécnico das

Mouriscas, Francisco Marques Amarante

- Corrida de bicicletas e diferentes jogos desportivos

- Concurso de ruas ornamentadas

- Bailes, grande iluminação eléctrica e à veneziana e outros atractivos

 

Programa das festas

Dia 1

Às 5 horas alvorada pela “Banda União Campomaiorense” e repique de sinos em todas as igrejas da vila e que será anunciado por girândolas de foguetes.

Às 17 horas corridas de bicicletas e diferentes jogos desportivos na Avenida Dr. Agrela.

Às 22 horas concerto musical pela “Banda União Campomaiorense”em S. Joãozinho (extramuros) com iluminação à veneziana e salvas de morteiros.

Dia 2

Às 12 horas, solene festividade religiosa a grande instrumental, sob regência do maestro José Francisco Soares, na paroquial igreja de S. João Baptista, sendo orador sagrado o Rever. Dr. Costa Gomes.

Ás 17 horas procissão com a imagem do Padroeiro e Santíssimo Sacramento, que percorrerá o itinerário do costume.

Às 22 horas concerto na Avenida Dr. Agrela pela “Banda União Campomaiorense”, queimando-se um brilhante fogo de artifício pelo hábil pirotécnico das Mouriscas Francisco Marques Amarante, quermesse, bailes e descantes populares, grandiosa iluminação eléctrica e à veneziana.

Dia 3

Às 11 horas, entrada do gado para a praça e embolação do mesmo.

Às 17 horas, grandiosa corrida de touros à vara larga, pertencentes ao abastado lavrador Sr. Francisco Rasquilha Corado.

Às 22 horas concerto na Avenida Dr. Agrela, queimando-se um vistoso fogo, confeccionado pelo mesmo pirotécnico. Quermesse, bailes e descantes populares, 2ª iluminação eléctrica e à veneziana.

Dia 4

Às 11 horas, entrada do gado para a praça e embolação do mesmo.

Às 17 horas, 2ª corrida de touros à vara larga, pertencentes ao abastado lavrador Sr. Francisco Rasquilha Corado.

Às 22 horas, na sede da comissão, distribuição dos prémios aos vencedores das provas desportivas e às ruas que melhor ornamentadas se encontrem.

Às 24 horas, na Avenida Dr. Agrela, proceder-se-á ao leilão das prendas que não foram sorteadas na quermesse.

A comissão, penhoradíssima, agradece ao povo de Campo Maior e a todos que contribuíram com qualquer donativo para fazer face às despesas das festas.

A Comissão

Humberto Carreiras Pires

António Serafim da Conceição

Manuel António Veríssimo Borrego

Amaro Porfírio Serra

Jaime Flaviano Caeiro

Romão Semedo Batuca

Wolfogango Sabino Leitão

António Mourato

Notas:

Encontram-se patentes ao público:

Casa dos ossos, Igrejas da Matriz e de S. João, Castelo e as Sociedades Club Artístico Campomaiorense, Grémio Campomaiorense e Centro Popular Recreativo Campomaiorense.

Participa-se aos Exmos. Senhores forasteiros que há abundância de água para abastecimento de gados nos chafarizes da vila.

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Consta-nos que, por ocasião das próximas festas, um grupo de estudantes em gozo de férias nesta vila, se propõe realizar um festival desportivo constando de demonstrações de boxe e luta greco-romana, corridas pedestres, saltos, luta de cabeçalhos, corridas negativas e de obstáculos, corridas de bicicletas, desafio de futebol.

Oxalá que se torne realidade essa iniciativa e que não fique só em projecto.

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publicado às 09:15


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – IV

por Francisco Galego, em 13.02.15
  1. O Recomeço das Festas que deixaram de ser “Festas dos artistas” e passaram a ser “Festa do povo”

 

 

O recomeço das “Festas” deu-se quando a sociedade reencontrou alguma estabilidade.

Ao contrário do que acontecia no país, os ventos pareciam voltar a soprar de feição para os campomaiorenses. Do ponto de vista económico, a vila inicia um período de desenvolvimento. De novo volta a parecer que Campo Maior constitui um caso de excepção, pois esta situação parece não poder generalizar-se. Perto, na vizinha Elvas, a população revolta-se com a subida do preço do pão, o que parece indicar graves dificuldades económicas.

Em Campo Maior, a vida comunitária reanima-se. Regressa de novo a vontade de voltar às Festas em Honra de São João Baptista que, desde 1909 não se realizavam. As festas voltam em força, recuperando o modelo tradicional conforme foi noticiado pelo recém-criado jornal – O Campomaiorense. Vão-se realizar três anos seguidos, no total de cinco vezes nos anos vinte: 1921; 1922; 1923; 1927; 1928.

É na segunda década do século XX, que a designação oficial de Festas em Honra de São João Baptista, foi mudada pela de Festas dos Artistas, para Festas do povo significando que passara a ser toda a população que se envolvia na sua realização.

A tradição foi reatada desenvolvendo-se segundo o projecto que se iria manter durante o século XX: A ornamentação das ruas e a sua iluminação nocturna, um programa festivo do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as alvoradas, os concertos pelas bandas locais ou convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo-de-artifício.

            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer. Por isso, tendo sido concebidas para serem anuais elas têm sofrido muitas interrupções, ditadas pelas circunstâncias que determinaram a vida da sua população.

            As Festas do Povo de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação, recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel, utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas e flores. Por isso, estas festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer quando a população dispunha de condições económicas favoráveis.  

 

 

 

 

 

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publicado às 08:46


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – III

por Francisco Galego, em 09.02.15

           

  1. O MODELO DAS FESTAS NAS SUAS ORIGENS

 

 

Correio Elvense, Ano IX, nº843 de 10 de Setembro de 1898, p.2

Eis o programa dos grandiosos festejos que se hão-de realizar na vila de Campo Maior, em honra de S. João Baptista, nos dias abaixo designados:

Dia 10

Grandes ornamentações por todas as ruas e largos, tudo transformado em jardins por diferentes gostos.

Às 3 horas da tarde, Grande arraial no sítio de São Joãozinho, extra-muros da vila, tocando a filarmónica União, composta de elementos das duas filarmónicas desta vila, escolhidas peças dos seu vasto repertório.

Às 10 horas da noite arraial e iluminação à veneziana em todas as ruas e junto da Igreja de São João, tocando a filarmónica União até à meia noite, terminando com um balão confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão.

Dia 11

Às 6 da manhã alvorada por música em diferentes pontos da vila.

Às 11 horas, festa na Igreja de S. João Baptista, em que toma parte a reputada orquestra Campomaiorense, dirigida pelo Exmo. Sr. José Gonçalves Niza. Ao Evangelho subirá à tribuna sagrada o distinto orador, reverendo padre José Vitorino Alves Captivo.

Às 5 horas da tarde sairá a procissão, que percorrerá as ruas do costume, saindo a imagem de S. João com a sua irmandade e as do Santíssimo, S. Pedro, S. Sebastião, etc.

Às 9 horas da noite, iluminação em todas as ruas e largos, arraial, fogos de artifício, bailes populares e música na Avenida às portas de S. Pedro. O fogo é confeccionado pelo pirotécnico, David Nunes e Silva, da Sertã, que tanto agradou nos centenários Antonino e de Vasco da Gama, terminando com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 12

Às 6 horas da manhã, alvorada por música na praça D. Luís 1º.

Às 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde grande tourada ao uso da terra. Gado bravíssimo, escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. António Pereira Claro.

Às 9 horas da noite, brilhante iluminação em toda a vila e na Avenida às Portas de S. Pedro, fogos-de-artifício de grande novidade, do mesmo pirotécnico da noite anterior, danças populares e música. Findou o fogo com um balão confeccionado pelo mesmo pirotécnico.

Dia 13

ÀS 11 horas, entrada do gado e embolação.

Às 3 horas da tarde, grande tourada; gado bravíssimo escolhido das manadas do abastado lavrador do concelho de Arronches, Exmo. Sr. Manuel Pereira Nunes.

Às 9 horas da noite, grande marcha aux flambeuax, dirigida pelos Ex.mos. Srs. José Augusto Leitão e Joaquim Manuel de Sousa Bexiga, indo à frente a comissão promotora dos festejos, seguida pelas classes artísticas campomaiorenses, percorrendo todas as ruas da vila, com a filarmónica União, dirigida pelo maestro Exmo. Sr. José Francisco Soares – em sinal de reconhecimento às pessoas que auxiliaram a comissão com os seus donativos. Terminam os festejos com um balão, confeccionado pelo Sr. Manuel das Chagas Pachão, e que subirá ao ar na Praça de D. Luís I.

 

 

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publicado às 08:42


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR – II

por Francisco Galego, em 04.02.15
  1. O Arranque inicial das Festas dos Artistas

 

 

Em 1893, foi um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, que resolveu reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João Baptista que, mais uma vez, tinham deixado de se fazer desde meados do século XIX. Estes jovens eram chamados de “artistas” por terem uma “arte” ou ofício não ligado aos trabalhos agrícolas, actividade dominante da população. Daí que essas festas começaram a ser chamadas de Festas dos Artistas.

Nesta modalidade, as “Festas” realizaram-se nos anos de 1893, 1894, 1895, 1896, 1897, 1898, 1902, 1904 e 1909.

As famílias mais dotadas de posses começaram a decorar as salas de rés-do-chão, com janelas que abriam para serem admiradas pelo que passeavam pelas ruas nos dias de festa que ocupavam um fim-de-semana.

As famílias mais modestas punham vasos de plantas ao longo das frontarias. Todos, na medida das suas posses, procuravam iluminar as frontarias das casas e as janelas com lamparinas e candeias, pois que a iluminação pública era ou inexistente ou insuficiente.

Havia bailes com descantes e desafios, nos largos e nos cruzamentos das ruas. As touradas à vara-larga, era o principal acto de animação.

Neste período começou o hábito de ornamentar os largos com mastros que eram enfeitados com ramos de verdura, com bandeirolas de papel e com balões de papel iluminados.

As festas foram ganhando dimensão e prestígio, começando mesmo a atrair populações de terras próximas, principalmente de Elvas. As Festas de Campo Maior começavam tornar-se um fenómeno de cultura popular e lugar de romaria, apesar de não estarem ligadas a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.

Este primeiro ciclo acabou porque acontecimentos com muito impacto social e política, alteraram o viver habitual da população. O primeiro foi a Implantação da República em 5 de Outubro de 1910, um importante facto a nível interno que mudou o regime político e desencadeou um período de sucessivos confrontos na sociedade portuguesa. Esta instabilidade interna foi agravada com a eclosão da 1ª Grande Guerra que durou de 1914 a 1918 e deixou marcas muito graves por mais alguns anos. Entre 1909 e 1921, as “Festas” não se realizaram.

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publicado às 08:39


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