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HOMENAGEM AO ZÉ FRANCISCO

por Francisco Galego, em 27.12.13

 

 

 

Era uns anos mais velho do que eu. Mas eramos parentes próximos. A mãe dele e a minha avó, eram irmãs, o que fazia que fossemos primos em segundo grau.

Houve sempre entre nós bastante afecto. Admirava nele a paixão que, desde muito novo, tinha pelas coisas do campo. O meu pai tentou ligá-lo à actividade comercial. Suportou-a por algum tempo, mas nunca se conformou: o campo era o seu destino.

As dificuldades que eram muitas e grandes, levaram-no como a muitos outros da sua geração, a ter que mudar de vida. Depois do serviço militar, candidatou-se à GNR. Na altura eu era estudante em Lisboa e tivemos de novo ocasião de conviver durante o tempo em que ele fez a sua formação como guarda.

Depois cada um seguiu o rumo que o destino ia tecendo. Soube que embarcou para Angola, onde se manteve muitos anos. Regressado e reformado voltou à sua antiga paixão, o campo, fixando residência em Portalegre, onde mantinha a actividade de criar algum gado. Só muito esporadicamente nos víamos, mas a amizade, ainda que distante, manteve-se.

Regressado ontem de Lisboa onde passei alguns dias, um amigo deu-me a notícia que me colheu de surpresa: o José Francisco Toureiro Rúbio morrera no passado dia 24. Eu soubera que tinha adoecido de novo com alguma gravidade. Mas as últimas notícias que soubera davam-no em recuperação e mais animado.

Neste momento, presto-lhe a única homenagem que me parece adequada à estima que tinha por este meu primo. Como uma das coisas que lhe davam prazer era recitar décimas, transcrevo aqui uma dessas composições poéticas que ele muito gostava de dizer e em que ele, de certo modo, traçava o seu auto-retrato.

 

SENHORES QUE ESTÃO PRESENTES

 

                     MOTE

Senhores que estão presentes

Minhas senhoras também

Obrigado a toda a gente

E acho que assim está bem

 

                     I

Obrigado meus amigos

Se acaso me permitem o termo

Eu não sou nenhum enfermo

Nem s´tou no rol dos esquecidos

Sou mais um dos incluídos

Neste grupo de boa gente

E por aqui estar presente

Eu sinto um certo prazer

Por isso lhes quero agradecer

Senhores que estão presentes

 

                     II

Tenho andado por muito lado

Sempre fui bem-sucedido

E eu penso cá p’ra comigo

Sou um homem privilegiado

Mas tenho de ter muito cuidado

Não vá dizer mal de alguém

Porque isso não parece bem

E para que não seja censurado

Por isso o meu muito obrigado

Minhas senhoras também

                     III

 

Junto da nossa juventude

Sou um homem muito feliz

Há um ditado que diz

Goza a vida com saúde

Pois eu tenho essa virtude

Passo a vida alegremente

A reinar com toda a gente

Eu levo o tempo a brincar

Por hoje aqui me encontrar

Obrigado a toda a gente

                     IV

 

Vou estando velho e cansado

Já não estou para me ralar

Agora só penso em passar

O meu tempo em qualquer lado

A falar do meu passado

E que eu me encontro bem

Sem dizer mal de ninguém

Vou bebendo o meu copinho

Acompanhado ou sozinho

E acho que assim está bem

 

 

(José Francisco Rúbio)

 

 

 

 

 

 

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publicado às 15:24


NATAL

por Francisco Galego, em 26.12.13

Ninguém o viu nascer.
Mas todos acreditam
Que nasceu.
É um menino e é Deus.
Na Páscoa vai morrer, já homem,
Porque entretanto cresceu
E recebeu
A missão singular
De carregar a cruz da nossa redenção.
Agora, nos cueiros da imaginação,
Sorri apenas
A quem vem,
Enquanto a Mãe,
Também
Imaginada,
Com ele ao colo,
Se enternece
E enternece
Os corações,
Cúmplice do milagre, que acontece
Todos os anos e em todas as nações.


Miguel Torga

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publicado às 08:36


ÚLTIMO NATAL

por Francisco Galego, em 22.12.13

Menino Jesus, que nasces
Quando eu morro,
E trazes a paz
Que não levo,
O poema que te devo
Desde que te aninhei
No entendimento,
E nunca te paguei
A contento
Da devoção,
Mal entoado,

Aqui te fica mais uma vez
Aos pés,
Como um tição
Apagado,
Sem calor que os aqueça.
Com ele me desobrigo e desengano:
És divino, e eu sou humano,
Não há poesia em mim que te mereça.

 

Miguel Torga, Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

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publicado às 11:24


NATAL

por Francisco Galego, em 18.12.13


Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.


Miguel Torga

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publicado às 11:40


NA ASSEMBLEIA MUNICIPAL DE 13 DE DEZEMBRO DE 2013

por Francisco Galego, em 14.12.13

Todos nós, o que pretendemos viver de forma correcta e respeitando os princípios de uma justa vivência social democraticamente estruturada, sentimos quão difíceis são os tempos que estamos a viver. Nestas condições, não adianta enterrar a cabeça na areia, porque assim deixamos o campo aberto para nele se instalem as prepotências, as corrupções e todo o tipo de abusos que tornam cada vez mais problemática a nossa vida em sociedade.

Se começarmos a participar mais activamente na vida da nossa comunidade, poderemos talvez contribuir para que as coisas se vão tornando um pouco menos difíceis. Tenho registado com agrado que se tem vindo a estabelecer o hábito de haver público a assistir às sessões da Assembleia Municipal. Por isso, dou aqui a conhecer os conteúdos da breve participação que tive na sua última sessão.  

 

 

Comecei por referir a importância que tem a recuperação dos três baluartes da antiga praça de guerra que era Campo Maior que são propriedade do Município, sendo, portanto, de sua administração directa: O do Curral dos Coelhos; o do Mártir Santo ou S. Sebastião; o da Boa Vista.

Essa importância resulta do seu valor como património que testemunha o passado histórico de Campo Maior e da importância que pode assumir, no presente, para incrementar o turismo, tanto mais que no interior do Mártir Santo se encontra a igreja de S. Sebastião, antiga capela da guarnição militar da praça de guerra, a qual, se bem restaurada, pode tornar-se um interessante polo de informação para os turistas.

Referi também a importância que poderá assumir a actual restauração da “Casa do Governador” em Ouguela, a que se poderá seguir a restauração das muralhas dessa antiga vila. Estas são decisões importantes, se bem enquadradas na situação de proximidade em relação a Elvas que, devido a uma inteligente recuperação do seu património, alcançou a distinção de Património Mundial da Humanidade, com todos os proventos que daí resultam.

Com base no exposto, expressei o meu aplauso ao projecto apresentado pelo Senhor Presidente da Câmara de construção de habitações onde pudessem ser alojadas as famílias de etnia cigana que estão a ocupar os espaços atrás referidos, concordando com a descriminação positiva de lhes ser dada prioridade na atribuição dessas habitações, porque assim se tomavam em consideração as necessidades dessas famílias, ao mesmo tempo que eram recuperados esses espaços em benefício de toda a comunidade. Mas sugeri que, não se excluísse que, no futuro, famílias não ciganas pudessem vir a candidatar-se a essas habitações se viessem a ficar vagas. Referi também a necessidade de serem estabelecidas regras claras de condições de candidatura e de uso correcto das habitações com responsabilização, no caso de essas regras não serem cumpridas ou de serem frequentemente violadas.

Comentei também, com apoio e com agrado, as referências que tinham sido feitas às acções desenvolvidas nesta comunidade no domínio da acção social, sublinhando que o título de “Vila Solidária”, mais do que uma distinção, é a assunção de uma responsabilidade e que se torna necessária uma constante atenção para que a solidariedade nunca se venha a traduzir numa “caridadezinha”, ou seja, na hipocrisia ostensiva dos que, dando apenas as migalhas do muito que possuem, fazem muito alarde do pouco que efectivamente dão. Isto porque penso que, mais importante do que dar a quem muito pede, é dar a quem, nada pedindo, muito necessita.  

 

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publicado às 12:26


NELSON MANDELA MORREU

por Francisco Galego, em 06.12.13

 

 

Morreu um homem que nos inspira para que, quando nos olhamos no espelho, vejamos, não a cor da nossa pele, ou o reflexo do poder, da fama ou da riqueza que adquirimos, mas apenas a justiça, a força e a pureza dos nossos pensamentos, dos nossos comportamentos e das nossas atitudes.


 

A sua biografia, publicada em 1992, escolheu como título Um Longo Caminho para a Liberdade. Mas a vida de Nelson Mandela foi mais do que esse título expressa. Na verdade, foi um longo caminho, porque longa foi a sua vida: nascido em 1918, faleceu agora com 95 anos de idade.

 

Mas, se queremos expressar com exactidão o significado e o valor da sua vida, melhor será que se diga que foi longo, muito penoso, muito sofrido, mas muito glorioso esse caminho. Porque se tratava, não apenas de lutar para atingir a liberdade pessoal de que o privaram durante grande parte da sua vida. Tratava-se, mais do que isso de libertar o seu povo dessa enorme vergonha que se se chamou apartheid, pelo qual alguns se atribuíam o direito de privar, a grande maioria que eram os outros, dos seus direitos mais elementares, apenas porque eram diferentes pela cor da pele.

 

Mas, a sua luta foi ainda mais gloriosa porque, libertando o seu povo, libertou todos os homens e mulheres que justamente se sentiam oprimidos pela tirania imposta a outros homens e mulheres com base nesse incrível anacronismo a que se dá o nome de racismo.

 

Ainda que desde há muito tivesse havido alguém a proclamar a igualdade essencial de todos os homens, porque todos eram igualmente filhos de Deus, poucos, muito poucos, tiveram ouvidos para ouvir aquilo que claramente fora dito. E, verdade seja dita, continuam a existir ouvidos que se recusam a entender essa tão clara verdade.  

 

 

 

O seu povo, por carinho, tratava-o por Madiba, desprezando o nome Nelson copiado dos brancos e adoçando com ternura o nome Mandela que a sua família africana lhe atribuíra.

 

Este homem fez da sua vida um exemplo de coragem para vencer o medo. E um exemplo  de força, sacrifício e rectidão para conservar a pureza das suas  intenções, apesar de todas as injustiças, perseguições e humilhações.

 

Uma vez libertado e glorificado, repudiou qualquer desejo de vingança adoptando a reconciliação e perdão como vias para atingir os seus objectivos. Em vez de lutar para que apenas os negros se libertassem, fez questão de impor que todos pudessem coabitar sem diferenciação, sem vinganças e sem ressentimentos, num país de tantas e diferentes línguas e de tão variadas raízes étnicas.

 

 Como todos os grandes homens, Nelson Mandela sempre soube que a injustiça não se deve combater com injustiça, porque com ela apenas mudam os injustiçados, mas a injustiça continua a manter-se.


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publicado às 14:18

Em primeiro lugar, saúdo os que aqui estão presentes, com especial destaque para o ilustre visitante que tanto nos honra com a sua presença. A honra fica acrescida pelo facto de este livro já ter sido antes apresentado, com grande aceitação e sucesso, em locais considerados de grande destaque e importância no que respeita a actos de índole cultural. Por isso, estamos reconhecidos ao seu autor, pela amabilidade que teve ao vir até nós, apresentar esta sua obra que tem sido tão apreciada pelos leitores e tão elogiada pelos comentários da crítica especializada.

 

Em segundo lugar, tenho previamente que confessar, publica e abertamente o seguinte:

Até há muito pouco tempo, desconhecia completamente este autor e as obras que tem vindo a publicar: A ESCRAVA DE CÓRDOVA – publicada em 2008, A PROFECIA DE ISTAMBUL – publicada em 2010 – e O SEGREDO DE COMPOSTELA – publicada neste ano de 2013.

 

Um amigo comum, o Pedro, aqui presente, sabendo à partida que muito me iria agradar com tal lembrança, trouxe-me um livro anunciando-me que aqui seria apresentado. Intitulava-se O SEGREDO DE COMPOSTELA e trazia uma dedicatória do seu autor em que expressava os votos de boa leitura ao redor dos mistérios do nosso passado colectivo.

Tanta amabilidade não podia deixar indiferente o apreciador que eu sou de romances históricos, um género literário em que, como leitor, tenho investido tanto do meu tempo e com tanto tenho ganho, devido ao meu interesse pela História, principalmente sobre a que se refere à nossa terra e às gentes que foram construindo a nossa cultura.

 

O romance histórico tem encontrado entre nós cultores geniais que vão desde Alexandre Herculano e Almeida Garrett, no passado, aos actuais, de que intencionalmente destaco apenas alguns, por serem do meu conhecimento directo e muito do meu apreço, como Fernando Campos, Seomara da Veiga Ferreira, Deana Barroqueiro e João Paulo Oliveira e Costa, a que agora acrescento a grande surpresa que foi descobrir, neste livro, a mestria de Alberto S. Santos, o seu autor. 

 

O romance histórico é um dos géneros literários que mais exige àqueles que, como autores, a ele se dedicam, quando pretendem não fazer uma simples proposta de entretenimento. Sendo fundamentalmente romance de reconstituição de figuras e de temas históricos, exige qualidade descritiva, interesse temático, elegância de linguagem e clareza narrativa. Mas, acima de tudo, porque se apresenta como histórico, assume perante os seus leitores, o compromisso de se fundamentar num conhecimento aprofundado das situações, dos sentimentos e das emoções que se propõe apresentar. Ou seja, no romance histórico, à qualidade literária deve acrescentar-se o conhecimento tão profundo quanto possível, dos temas centrais da narrativa, a fim de que esta ganhe realismo, interesse e credibilidade.

 

Foi tudo isto que eu encontrei ao ler esta obra. Não me importo de manifestar com grande entusiasmo e de uma forma superlativa, que o livro que aqui nos juntou para, neste momento, dele tomarmos conhecimento é, por muitas razões, um romance histórico de muito interesse e de uma extraordinária qualidade.

Trata-se de uma narrativa romanesca muito bem fundamentada num conhecimento profundo dos factos e das circunstâncias que evoca. E, um tal conhecimento, só pode ser adquirido por um apurado estudo histórico, fruto de um grande trabalho de investigação, de informação e de reflexão.

 

Trata-se de uma narrativa que nos suscita a cada passo, uma verdadeira emoção perante situações e sentimentos, referidos de modo tão realista que provocam uma forte impressão. Não tenho qualquer problema em testemunhar que foram muitos os momentos em que, durante a sua leitura, tive de a interromper porque fiquei fortemente emocionado.

 

Não se trata de uma narrativa para nos entreter, mas de uma reconstituição que, ainda que ficcionada, nos faz meditar. A sua leitura alarga o nosso conhecimento sobre a condição humana a qual, embora evoluindo, se conserva muito semelhante no que lhe é essencial, enquanto vai percorrendo e tecendo esse rasto do tempo a que chamamos História.

 

Este livro retrata personagens que, apesar de estarem distantes de nós pelos quase dois mil anos que nos separam, se nos assemelham tanto, no que respeita às suas atitudes, comportamentos e sentimentos que mais parecem ser nossos contemporâneos.

 

É esta a grandeza da nossa condição: vamo-nos adaptando às mudanças circunstanciais da nossa existência, mas permanecemos – para o bem mais sublime e para as mais abjectas maldades – fundamentalmente iguais ao que sempre fomos. Talvez porque é próprio da nossa condição e da nossa natureza de pessoas, sermos assim imperfeitos, mas, simultaneamente, emanar de nós, este poder de nos sublimarmos na mais etérea espiritualidade.

Em meu entender, este é o cerne da temática em que assenta a belíssima narrativa que o autor construiu neste livro.

 

Por outro lado, aborda-se nele a descrição de um tempo que, sendo de profunda crise, é também um tempo de gestação de grandes mudanças. Assistimos nele à agonia de um mundo e de um tempo que anunciava o fim próximo do Império Romano e um tempo em que já se anunciava um novo mundo que, tendo como base uma nova filosofia de vida assente no cristianismo, iria lançar as bases do novo milénio a que chamamos Idade Média, a qual constituiu a base de uma nova civilização que foi significativamente chamada de Civilização Europeia, Ocidental e Cristã.

 

É nesta viragem que assenta a essência analítica da narrativa. Centra-se na análise de como uma doutrina se foi afirmando pela aceitação de uma nova esperança e pela convicção de uma nova fé. E, ao mesmo tempo, de forma dramaticamente contraditória, mostra como nela se vão reinstalando os que, sequiosos de poder, começaram desde logo a corromper as novas bases e a subverter os novos princípios, procurando por todos os meios manter as razões que sempre orientaram as suas vidas: a imposição violenta do poder e da ganância; o uso da intriga e o recurso à conspiração e à traição, voltadas agora contra os que persistem em afirmar a pureza das suas convicções.

 

O SEGREDO DE COMPOSTELA, é uma narrativa de fundo histórico que se desenvolve em volta de um enigma que muito tem ocupado alguns historiadores. Mas eu, não pretendo desvendar aqui nem o conteúdo, nem o enredo do livro. Apenas tento, desta maneira simples e superficial, despertar o vosso interesse pela sua leitura.

Acreditem que muito terão a ganhar se decidirem fazê-la. Porque, de facto, sendo um livro grande pela sua dimensão e pelo número das suas páginas, é bem maior do que isso: é uma grande obra com a qual muito se pode aprender, pois nos leva à compreensão de quem eram, como viviam e com que intenções procediam os homens e as mulheres que começaram a erguer as bases da nossa civilização.

 

Queria ainda apenas acentuar um dos aspectos que mais me impressionou na leitura desta obra. Na maioria das obras sobre História, procura-se referir os aspectos que melhor testemunham a evolução, relatando sobretudo as mudanças que se vão operando. Mas, na verdade, o que na vida dos homens muda acaba sempre por ser menor do que aquilo que permanece. Por isso, eu aprecio muito os livros que dão especial importância àquilo que, ao longo do tempo, se vai mantendo, permanecendo, numa vida em contínua transformação.

Este livro, mais do que na evolução da sociedade, foca-se na análise do comportamento humano. Ora este é, por natureza, mais feito de permanências, limitando-se a adaptar-se às mudanças que se vão sucedendo. Por isso, é também um livro que se foca muito no que, para o bem e para o mal, vai permanecendo na natureza dos homens.

Em meu entender, este livro contém uma profunda reflexão sobre uma questão fundamental: a compreensão de que, se o mundo em que vivemos está em constante e rápida mudança, a natureza dos homens se mantem, no que lhe é fundamental, desde a origem dos tempos.

 

Repito: Este livro reporta, de forma romanceada, uma época muito importante para compreendermos a génese da nossa civilização. Trata-se do século IV, ou seja, do tempo em que o Império Romano agoniza, prestes a desaparecer, com a invasão da Europa, no século seguinte, pelos povos ditos bárbaros. Mas, o século IV, é também a época de início dum novo mundo, em que o cristianismo militante dos que seguiam e propagavam a doutrina cristã, sacrificando a própria vida em defesa da sua crença, começou a dar lugar ao cristianismo triunfante, que passou a ser reconhecido como religião oficial do Estado. Então, os cargos eclesiásticos começaram a ser ocupados pelos prepotentes que os utilizaram como instrumentos de repressão e de opressão contra os verdadeiros crentes, que para melhor consolidarem o seu poder, eles acusavam de estarem a renegar e a atacar a verdadeira doutrina.

 

O herói em que se centra a narrativa contida neste livro, é um exemplo sublime da eterna luta entre o Bem e o Mal.

Mais do que o objectivo de vencer a todo o custo os que o atacam usando o mal, ele foca o seu pensamento e a sua acção, na preocupação de nunca se desviar da sua missão de agir segundo o supremo bem.

 

Ao ler este livro lembrei-me muitas vezes da frase de um grande romancista que muito contribuiu para a minha formação enquanto pessoa. Leão Tolstoi escreveu: O Mal não pode vencer o Mal. Só o Bem o pode fazer. Demorei tempo a entender o que Tolstoi me queria ensinar e que é tão simples como importante: Pois que, se eu, para vencer o mal que me fazem, respondo com o mal, mesmo que eu vença, será o mal que venceu e não o bem. É esta a lição que o herói deste livro nos dá com a sua luta em defesa do Bem base da sua fé e das suas convicções.

 

 

 

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Assim fica cumprido o meu desafio que consistia em tentar convencer-vos a decidirem-se a ler esta obra notável. Cabe agora a cada um de vós aceitar, ou não, esta posposta que aqui decidi trazer.

Vou terminar com outra confissão: Fiquei com uma grande vontade de ler as outras duas obras que o autor – que hoje nos visita – também escreveu:

 

A ESCRAVA DE CÓRDOVA  e A PROFECIA DE ISTAMBUL.

 

Tentei informar-me sobre estas obras. Lendo-as, quero verificar uma observação que é, ainda, apenas uma simples suposição. Olhando para a trilogia formada pelos livros que este autor já publicou, ressalta-me a ideia de que todos eles fazem parte de um projecto.

Numa primeira análise parece-me que há três aspectos que os interligam, a saber:

 

Em 1º lugar - Nestas três obras, os tempos em que se inscreve a acção, correspondem a épocas de grandes viragens civilizacionais:

 

- A ESCRAVA DE CÓRDOVA, foca-se na viragem da Alta para a Baixa Idade Média, nesse período charneira da era medieval, que é a viragem do século X para o século XI;

 

- A PROFECIA DE ISTAMBUL, foca-se no período de declínio que anuncia o fim da Idade Média, com a emergência do Renascimento na Europa que é o começo de um novo tempo, dito a Idade Moderna;

 

- O SEGREDO DE COMPOSTELA¸ decorre na viragem do século IV para o século V que é o tempo do fim do Império Romano e o período de génese do mundo medieval.

 

Em 2º lugar- Nesta três obras, as questões religiosas têm um grande realce, bem como a vivência religiosa que deve conduzir à tolerância, a uma atitude de profunda caridade e de grande solidariedade;

 

Em 3º lugar - Nestas três obras, a luta do Bem contra o Mal consiste na busca do aperfeiçoamento moral e o amor é o sentimento sublime que une os seres na procura da felicidade.

 

Com a leitura das duas obras que me falta fazer, procurarei confirmar se se tratou apenas de uma mera coincidência, ou se estes aspectos comuns resultaram de uma opção intencional do seu autor. Garanto-vos que, muito em breve, poderei conferir esta minha suposição fazendo essa leitura. 

 

Antes de terminar gostaria de deixar uma proposta:

 

Creio que é a primeira vez que um livro que não foi escrito por um campomaiorense e que não tem como tema Campo Maior, foi aqui apresentado. Por isso, antes de terminar gostava de deixar esta proposta que poderia ser interessante:

Se entre os que estão aqui presentes, houver quem – depois de ler o livro – ache que nos poderíamos voltar a reunir para trocarmos impressões sobre a sua leitura, eu estaria muito interessado em participar nesse pequeno clube de leitores. Seria uma forma simples e útil de introduzirmos alguma animação cultural nas nossas vidas que às vezes se tornam um pouco monótonas.

 

Muito obrigado pela atenção que me dedicaram.

 

 

 Francisco Galego - Centro Cultural – Campo Maior, 29 de Nov. de 2013

 

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publicado às 11:16


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