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DIZER VERDADES CANTANDO ( II )

por Francisco Galego, em 29.08.12

As quadras que a seguir se transcrevem, referem a situação dos trabalhadores no tempo do Estado Novo. Algumas, de forma divertida, outras clamando contra as duras condições de vida dos trabalhadores, referem a situação dramática dos que, nesse tempo de grande miséria, viviam sujeitos à apertada vigilância dos maiorais e manajeiros e sob a permanente ameaça de despedimento pelos patrões, o que significaria a perda do magro e raro salário que ganhavam, a mourejar de sol a sol, no trabalho do campo. Algumas são também clara manifestação de revolta contra as injustiças e as profundas desigualdades sociais:  

 

Pedi a Deus que me desse,

 Uma vida d’alegria;

Deus então me respondeu,

Trabalha, semeia e cria.

 

O meu vizinho barbeiro,

Passa a vida alegre à porta;

Eu trabalho noite e dia,

Não passo da cepa torta.[1]

 

Homem rico é mandrião,

Faz figura de espantalho;

O pobre sempre a sofrer,

E às vezes nem tem trabalho.

 

Nasci pobre, pobre sou,

Fortuna não me conhece;

Mas enfim, é sorte minha,

Quem mais faz menos merece.[2]

 

Ó rico tira o chapéu,

Vai um enterro a passar;

É o corpo d’um operário,

Que morreu a trabalhar.



[1] Idem, nº 145,  Elvas, 20 de Agosto de 1882.

[2] Idem, nº 137, Elvas, 23 de Julho de 1882.

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publicado às 16:19


DIZER VERDADES CANTANDO ( I )

por Francisco Galego, em 22.08.12

 

As quadras que a seguir se transcrevem, referem a situação dos trabalhadores no tempo do Estado Novo. Algumas, de forma divertida, outras clamando contra as duras condições de vida dos trabalhadores, referem a situação dramática dos que, nesse tempo de grande miséria, viviam sujeitos à apertada vigilância dos maiorais e manajeiros e sob a permanente ameaça de despedimento pelos patrões, o que significaria a perda do magro e raro salário que ganhavam, a mourejar de sol a sol, no trabalho do campo. Algumas são também clara manifestação de revolta contra as injustiças e as profundas desigualdades sociais:  

 

Adeus ó Zé Abanão,

Moiral do Chico Corado,

És chefe da inquisição,[1]

Está o povo desgraçado.

 

Ó meu amor diz-me lá,

Para quê trabalho eu?

Trabalho, mato o meu corpo,

Não tenho nada de meu.[2]

 

É triste nesta labuta,

Não haver contemplação;

O trabalho é do operário,

Os lucros são do patrão.

 

Para o rico andar gozando,

É o pobre quem trabalha;

O suor do pobre é doce,

A paga do rico amarga.

 

No campo da divina luz,

Onde tudo se consome;

Há quem come e não produz,

Há quem produz e não come.

 



[1] Repare-se na conotação da palavra inquisição (repressão, opressão, perseguição), numa terra em que, como Campo Maior, devido à política de D. João II de acolher os judeus expulsos de Espanha nas terras de fronteira em Portugal, conheceu a tenebrosa acção do Tribunal do Santo Ofício, nos séculos XVII e XVIII.

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 135, Elvas, 16 de Julho de 1882, com diferença do 1º verso: Ó minha mãe dos trabalhos,.

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publicado às 16:05


CANTAR AS FESTAS E ROMARIAS ( II )

por Francisco Galego, em 15.08.12

A Feira do S. Mateus em Elvas

 

A Feira de São Mateus em Elvas e a Romaria ao Senhor da Piedade tiveram o seu período de maior esplendor entre meados do século XIX e meados do Século XX. O texto que segue retrata com bastante precisão a dimensão deste acontecimento:

 

…Noite fora vai chegando gente dos mais variados locais. Vêm de Campo Maior e de Vila Boim, da Terrugem e de Santa Eulália, de Varche e de São Vicente, de Barbacena e de Vila Fernando. Sobre um talude que domina o Parque da Piedade, onde se efectua a feira, vão-se agrupando os carros, roda contra roda, varais ao alto, as bestas desaparelhadas e presas atrás, tasquinhando a erva. Os canudos das coberturas dos “churriões”, os tejadilhos planos das carrinhas, formam pequenas casas a que não faltam garridas cortinas de chita ou “cretone” formando portas graciosas. Para fora saem as cadeiras de fundo de buínho, os fogareiros de ferro, os tachos de barro, o farnel.

Nédias galinhas ainda vivas, atam-se às rodas dos carros, na mira de engordarem um pouco mais à custa de punhados de cevada que, guardadas ainda estão para matança do último jantar. Na frigideira de ferro estanhado fritam-se os bocados de coelho – o cocho frito – como lhe chamam, e um odor a um tempero esquisito e a saborosa banha de porco exala-se no ar. [1] (…)

“Tradicionalmente, os romeiros acampam, consoante as terras, em sítio determinado: nos olivais ao Norte da Igreja, os de Varche, Vila Boim, Vila Fernando, Santa Eulália, Borba, Vila Viçosa, Estremoz, Évora, Veiros, Alandroal e outros daquelas bandas; no olival da família Vasconcellos, a Sul, os da Ribeira de Anha-loura e aldeias próximas; os de Campo Maior e Badajoz, que dantes (quando a Feira se fazia no Rossio do Calvário) ficavam nas imediações da ermida de Nossa Senhora da Nazaré, distribuem-se presentemente pelo olival do sr. Joaquim Alfredo de Sá e Almeida Júnior, juntamente com os de Olivença, que costumavam acampar no ferragial da horta de S. Paulo; mais abaixo, à entrada da Avenida, é o acampamento dos ciganos, que lêem a “sina” e fazem espantosas transacções de gado; os de Barbacena, Monforte, Vaiamonte e Orada fixam-se pela Tapada da Saúde, uns, e outros pela mata.

         Nalgumas freguesias, como Barbacena, era de ver a chegada dos romeiros de Monforte, Vaiamonte, Alter do Chão e Alpalhão! Vindo em filas, onde imperava a alegria, atingiam aquela povoação ao lusco-fusco do dia 19 e aí pernoitavam, mas ninguém conseguia pregar olho, pois todos cantavam e bailavam na mais franca confraternização. Os habitantes de Barbacena aguardavam sempre, com ansiedade, “as alpalhoeiras”, pois assim designavam essa ruidosa reunião, que só terminava quando lá para as 5 ou 6 da manhã todos se punham novamente em marcha a caminho da Piedade.

         Nos nossos dias, as carreiras das camionetas mataram, em grande parte, estas usanças tão simples, tão puras, tão características, que já só vão sendo recordadas, com saudades infinitas, pelas pessoas mais velhas.

         Contudo, não diminuiu, antes parece que aumentou, a concorrência aos Arraiais e principalmente na noite de 21, a Piedade é um autêntico mar humano. “A Ordem” um pequeno jornal que se publicava em Elvas, Calculou de 20 a 30.000 o número de romeiros no arraial de 1889, e hoje pode aceitar-se como bastante aproximada a última daquelas cifras.[2]

(…)

Pese aos meios de transporte muito mais rápidos, que permitem a quantos os utilizam virem todos os dias ao Arraial e regressarem a suas casas lá para as 2 horas da madrugada, no ano findo ainda se reuniram nas vizinhanças do Parque umas boas centenas dos inconfundíveis “churriões”, o que não nos fez, porém, esquecer que, ( segundo o Correio Elvense, de 19 de Setembro de 1891),em 1891 houve quem contasse o bonito número 2.500![3]



[1] GAMA, (1965), pp. 223 e 224.

[2] GAMA, (1965), pp. 223 e 224.

[3] Idem, pp. 238 e 239

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publicado às 17:43


CANTAR AS FESTAS E ROMARIAS ( I )

por Francisco Galego, em 08.08.12

 

 

CANTIGAS PELO SÃO MATEUS, EM ELVAS

 

 

Tempos houve em que cada povoação tinha as suas próprias festas e romarias. Mas, algumas delas, por motivos religiosos, ou pelo brilho das suas realizações, atraíam gente de outras terras, tornando-se famosas como locais de trocas, de diversão e de peregrinação.

No Alto Alentejo, sobressaía entre todas a Feira de São Mateus, em Elvas. A Feira de São Mateus remonta ao século XVI pois, segundo os investigadores, terá começado a funcionar entre 1525 e 1574.[1] Cerca de duzentos anos mais tarde, veio associar-se-lhe uma peregrinação que, a partir de 1737, se começou a fazer no sítio onde se construiu o santuário do Senhor Jesus da Piedade. Tanto a feira como a romaria ganharam grande importância entre as gentes do Alto Alentejo, tanto mais que a sua realização, coincidindo com o equinócio do Outono, marcava o período em que se dava por encerrado um ano agrícola e se começavam a tomar as disposições para o arranque do ano agrícola que se ia seguir.

As pessoas, em grande parte as que estavam mais ligadas ao trabalho nos campos – aproveitando a romaria pela devoção, e a Feira de São Mateus por ser local de trocas muito necessárias às actividades agrícolas –, deslocavam-se a Elvas para aí permanecerem durante os três dias que durava o evento. Os transportes eram, nesses tempos, difíceis e lentos. Em volta do terreno da feira, formavam-se grandes acampamentos de gente vinda de quase todas as terras desta região.

Para além da grande diversidade de gentes que acorria a este evento, alguns vindo de terras bem distantes, é interessante constatar que, entre essas terras, tomavam relevo as gentes de Olivença, o que indica que eram ainda muito fortes os laços culturais que ligavam os oliventinos a Portugal.



[1] GAMA, (1965), p. 217.

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publicado às 17:37


CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO XVI

por Francisco Galego, em 01.08.12

Mas um cancioneiro geral do trabalho e das gentes que viviam do trabalho nos campos teria de referir muitas outras tarefas e muitas outras ocupações:

 

( IV )

 

37.

Olha o triste sapateiro,

Está batendo a sola ao sol;

Agachado no tripé,

Passando o fio no cerol.[1]

 

38.

Não há nada mais bonito,

Que um marido lavrador;

Eu hei-de casar contigo,

Hás-de ser o meu amor.

 

39.

Já não há p’raí quem queira,

Acomodar um ganhão;

P’ró alqueive e sementeira,

E p’ra ceifa no Verão.[2]

 

40.

Esta vida de boieiro,

É uma vida arrastada;

Não tem noite nem tem dia,

Nem sesta nem madrugada.[3]

 

41.

Triste vida a dum ganhão,

Andar sempre a trabalhar;

Dá-lhe Deus uma doença,

Vai morrer ao hospital.[4]

                                                       

42.

O amor do lavrador,

É que agrada às raparigas;

Boa bota, boa calça

E chapéu preto à rebimba.

 

43.

O meu amor é do campo,

Do campo e sabe lavrar;

Não é paivante da vila,

Que só saiba namorar.[5]

 

44.

O meu amor é do campo,

É do campo é camponês;

Mais vale um amor do campo,

Que da vila dois ou três.[6]

 

45.

A enxada com que cavo,

Meu pai com ela cavou;

O arado com que lavro,

Foi deixas do meu avô.

 

 

 

 

 



[1]Idem, nº 407, Elvas, 10 Dezembro de 1885.

[2] Idem, nº 290, Elvas, 23 de Janeiro de 1884, mas com algumas diferenças.

[3] Idem, nº 437, Elvas, 10 de Julho de 1886.

[4] Idem.

[5] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires, Elvas (1902-1910), p. 140.

[6] Publicada em Cancioneiro Alentejano, por Victor Santos, 1938, p. 43, como tendo sido recolhida no Redondo.

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publicado às 17:30


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