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CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO II

por Francisco Galego, em 27.04.12

NA APANHA DA AZEITONA ( II )

 

 

Os amores da azeitona,

São como os da cotovia;

Em s’acabando o trabalho,

Fica-te com Deus Maria. [1]

 

Namorados d’azeitona,

São como os da cotovia;

Acabada a azeitona,

Adeus amor d’algum dia. [2]

 

A apanha da azeitona,

É como a rama do alho;

Dura pouco e quando acaba,

Ficam todos sem trabalho.

                                                       

Azeitona já está preta,

Já se pode armar aos tordos;

Rapariga já é tempo,

De tomares amores novos.[3]

                                                       

Oliveira do pé d’oiro,

Deita raminhos de prata;

Tomar amores não custa,

Deixá-los é que nos mata.

 

Azeitona miudinha,

Toda vai para o lagar;

As meninas desta terra,

Todas sabem namorar.

 

Azeitona cordovil,

Tem o caroço riscado;

O amor que há-de ser meu,

Já Deus o tem destinado.

 

 

 

 



[1] Publicada em Cantos Populares Portugueses – Recolhidos da tradição oral por A. T. Pires. Elvas (1902-1905), p. 157

[2] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 387, Elvas, 7 de Agosto de 1885.

[3] Idem, nº 166, Elvas, 2 de Novembro de 1882.

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publicado às 16:36


CANTAR O TRABALHO E CANTAR TRABALHANDO I

por Francisco Galego, em 21.04.12

NA APANHA DA AZEITONA ( I )

 

Os descantes ligados ao trabalho nos campos perderam-se na sua grande maioria. Uns porque sendo autênticos brados de revolta em tempo de ditadura, só podiam expressar-se entre gente de confiança não fosse a acção dos delatores provocar grandes problemas a quem os cantava. Outros, porque, devido às grandes modificações verificadas no trabalho dos campos, foram, por desuso, caindo no esquecimento.

Por alguns exemplares que chegaram até nós, podemos ficar com uma pálida ideia da riqueza poética e de informação social que encerrariam.

Para cada uma das campanhas de trabalho haveria o seu cancioneiro. Por exemplo, num Cancioneiro da Apanha da Azeitona, poderíamos encontrar cantigas como as que se seguem:

 

 

Olival são oliveiras,

As searas são trigais;

 A azeitona é para os tordos,

O trigo é p’ros pardais.

 

A Senhora da Saúde,

Está no meio dos olivais;

Está guardando a azeitona,

Não a comam os pardais.[1]

 

Os amores d’ azeitona,

São com’os amores d’Entrudo;

Em s’acabando a apanha,

Acaba-se o amor e tudo.

 

Os amores da azeitona,

São do tamanho d’amora;

Em s’acabando a apanha,

Adeus que me vou embora.

 

Os amores da azeitona,

São como talos de couve;

Em acabando a azeitona,

Adeus menina qu’eu vou-me.

 



[1] Publicada em Achegas para o Cancioneiro Popular Corográfico do alto Alentejo, por J.A. Pombinho Júnior, 1957, P. 57 e publicada em O Arqueólogo Português, vol. 21º - 1916- P. 187.

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publicado às 16:26


VAIDADES FEMININAS

por Francisco Galego, em 16.04.12

 

As jovens camponesas casadoiras, punham todo o esmero e cuidadosa escolha nos apetrechos de trabalho e, principalmente, nos trajos que envergavam. Rapariga que se prezasse escolhia cuidadosamente os canudos que na ceifa lhe protegiam os dedos da mão que juntava o trigo para ser cortado, e ponderava com cuidado a escolha da sua foice, da sua roçadoira ou do seu sacho.

Mas, acima de tudo, cuidavam da roupa que envergavam. Tinham um grande orgulho no seu trajo de trabalho. O chapéu era cuidadosamente escolhido e enfeitado, bem como o lenço que lhe colocavam por baixo.

Para trabalhar impunha-se a saia de riscado, rodada e comprida que se arrepanhava pela bainha de trás para a frente e se prendia com alfinetes entre as pernas à altura dos joelhos de modo a formar uma espécie de calção; no Inverno a blusa de flanela e, pelas costas, o pequeno xaile de lã cruzado no peito, com as pontas presas na cintura; no Verão, uma blusa de chita; nos pés meias e sapatos de carneira ou botas de atacar à frente que chegavam ao joelho, protegendo as pernas e resguardando o decoro do corpo durante o trabalho; a cabeça e o rosto protegidos pelo lenço e pelo chapéu de feltro ou de palha, consoante a época do ano, que eram ostentados com grande garridice.

A vaidade das jovens camponesas no seu porte era de tal ordem que algumas se davam ao cuidado de levarem consigo o “traje de porta”, assim chamado porque era envergado no regresso da jornada de trabalho, às portas da vila, para não se exporem sujas e descompostas quando – de regresso a casa ao fim do dia – tinham de percorrer as ruas. Envergavam então casaquinhas cintadas, blusas de folhos, saias de ramagens, xailes e lenços finos, aventais bordados, colocando no traje toda a garridice que fosse consentida pelas regras da moda, do bom gosto e da decência.

Claro que estas vaidades não escapavam ao escarnecimento dos cantadores de “saias”:

 

 

Estas meninas d’agora,

Só comem meia sardinha;

Andam a juntar dinheiro,

Para a saia travadinha.

 

Pensaste em ser da vila,

Já não ligas aos ganhões;

Vais aos “balhes” do assento

E só queres “trevisões”

 

Tens saia tens avental,

Tens tudo que é preciso;

Só te falta uma coisinha,

Teres na cabeça juízo.

 

 

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publicado às 16:02


VAIDADES MASCULINAS

por Francisco Galego, em 10.04.12

Nesta região de Portugal, as “saias” funcionavam também como descante nos trabalhados rurais. Cantava-se geralmente quando se trabalhava no campo, isoladamente ou em grupo. Mas cantava-se, principalmente, quando as tarefas agrícolas tinham de ser realizadas colectivamente, por grandes ranchos de camponeses, o que acontecia em determinadas épocas do ano: em grupos mais pequenos, quando os ganhões lavravam os campos ou quando se faziam as sementeiras; em grandes ranchos de homens e mulheres, quando se ocupavam na apanha da azeitona no Inverno, no escardar das searas por altura da Primavera, nas ceifas do Verão e nas vindimas do Outono.

Nesse tempo havia uma cultura camponesa que se manifestava nas atitudes e nos comportamentos das pessoas que faziam dos trabalhos agrícolas a sua principal ocupação.        

Os carreiros e os pastores, por exemplo, tinham grande orgulho na maneira como aparelhavam e enfeitavam os animais entregues ao seu cuidado pelos maiorais. Os mais jovens, quando ainda solteiros, rivalizavam na maneira como iam adquirindo, à custa de algum dinheiro que conseguiam poupar dos seus magros salários – quase sempre com o sacrifício de outras necessidades – guizos, cascavéis, esquilas e chocalhos para dar um som personalizado ao andamento das parelhas que conduziam, ou aos animais colocados sob sua guarda no pastoreio.

 

Não quero amor de boieiro,

Que não ganha bons tostões;

E toda a sua riqueza,

São chocalhos e esquilões.[1]

 

A escolha combinada do som desses apetrechos era tarefa que podia demorar horas pois exigia muita e atenta ponderação. Só quem pôde observar os jovens camponeses, nas feiras ou no comércio local, entregues a essa delicada missão, pode fazer ideia do valor que eles atribuíam a essa escolha e de quanto empenho punham em tão importante decisão.



[1] Publicada em A Sentinella da Fronteira, nº 346, Elvas, 15 de Novembro de 1884, mas com algumas diferenças.

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publicado às 14:34


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