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O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXVII

por Francisco Galego, em 29.06.11

As Festas nos anos 50 (4)

 

Na continuação do texto anterior, Marciano Cipriano continua a relatar com riqueza de pormenores o que se passou durante as Festas deste ano de 1953. Repare-se contudo que, não se limita a fazer o elogio "bacoco" de o que foi realizado. Vai mais além, fazendo uma análise critica do que foi feito, com a intenção pedagógica de apontar o que está mal, para que possa ser corrigido, ou de propor que se tente mudar o que possa ser melhorado. É nestas atitudes que podemos observar o carácter, a inteligência e a seriedade de propósitos que este homem colocava em tudo o que publicava.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953


Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo


Não há efeito sem causa…


(…) No que se refere à propaganda das festas, lacuna por demais evidente e clamorosa, é de lamentar que nunca se tivessem convidado os representantes da imprensa a assistirem a algumas das reuniões – e elas foram tantas! – que lhes fornecessem os elementos que os habilitassem a cumprir a sua missão.

   - Missão estimável e que não trazia quaisquer encargos para a organização.

   Tal comportamento trouxe, como era natural, o alheamento compreensível dos representantes dos jornais.

   Além do mais, a sua presença estimularia os organizadores dos festejos, posto que podiam sentir-se amparados por uma colaboração desinteressada e útil…

   Que o programa não este à altura do esforço admirável do povo que ornamentou e transformou em fantástica visão de sonho e beleza as ruas da vila? Não restam dúvidas a ninguém. Nós fomos os primeiros a lamentá-lo. Mas, concluir-se daí e empiricamente que poderia haver o propósito de colocar mal a nossa terra, é atitude que não corroboramos por nos parecer um excesso que a paixão ditou.

   À primeira vista e no auge da paixão, assim parece. Mas, serena e objectivamente, nenhum de nós aceita que assim tenha sido e nem mesmo aqueles que assim pensaram, o aceitam hoje.(…)

   Todavia, a crítica tem de fazer-se e não podemos deixar de referir que é realmente desolador obrigar uma banda que nos visita a efectuar os seu concertos na “cave” – como graciosamente lhe chamaram – do nosso formoso Parque que, diga-se de passagem, exibia feérica iluminação fúnebre; como foi igualmente desoladora a pobreza dos números festivos e, mesmo assim, não cumpridos integralmente.

   Quatro corridas de touros à alentejana e um balão que não subiu, é pouco para festas de tão elevado cunho tradicional e que tanto esforço demandam por parte do povo que lhes dá vida, calor e os encantos duma esplendorosa intuição artística!

   Excluído o excelente espectáculo dos artistas da rádio – que não pode dispensar-se em nossos dias, mas que é incaracterístico por não ter qualquer cunho regionalista – o programa das festas foi, praticamente, inexistente.

   É verdade. Mas acreditamos e, sinceramente o afirmamos, que a Comissão das Festas sentiu como nós a angústia e a tristeza dos comentários e exclamações de muitos forasteiros: “Isto é muito lindo!”… “As ruas são um encanto!”… “Isto é único!”… Mas “além disto o que há mais?!”…

   E, então, voltamos ao princípio: não há efeito sem causa e a Comissão das Festas pode ter sido o efeito de uma causa a que não soube estar atenta…

   E como eles, tal qual nós, são amigos da nossa terra é que quisemos apontar-lhes as falhas, não para os condenar unilateralmente, mas para que apontando os deslizes – que nós próprios podíamos cometer em idênticas circunstâncias – possamos contribuir para uma melhor actuação no próximo ano.

   Estas Festas do Povo de Campo Maior podem e devem constituir o nosso melhor cartaz; mas só em boa e leal colaboração poderemos levar o grito álacre desse cartaz através de todos os recantos de Portugal.

   E a crítica construtiva, serena, calma e objectiva é, em nosso entender, o primeiro passo para tão bela jornada.

   Por nossa parte assim o pensamos.

                                                              Marciano Ribeiro Cipriano

 

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publicado às 16:20


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