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O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXVII

por Francisco Galego, em 29.06.11

As Festas nos anos 50 (4)

 

Na continuação do texto anterior, Marciano Cipriano continua a relatar com riqueza de pormenores o que se passou durante as Festas deste ano de 1953. Repare-se contudo que, não se limita a fazer o elogio "bacoco" de o que foi realizado. Vai mais além, fazendo uma análise critica do que foi feito, com a intenção pedagógica de apontar o que está mal, para que possa ser corrigido, ou de propor que se tente mudar o que possa ser melhorado. É nestas atitudes que podemos observar o carácter, a inteligência e a seriedade de propósitos que este homem colocava em tudo o que publicava.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953


Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo


Não há efeito sem causa…


(…) No que se refere à propaganda das festas, lacuna por demais evidente e clamorosa, é de lamentar que nunca se tivessem convidado os representantes da imprensa a assistirem a algumas das reuniões – e elas foram tantas! – que lhes fornecessem os elementos que os habilitassem a cumprir a sua missão.

   - Missão estimável e que não trazia quaisquer encargos para a organização.

   Tal comportamento trouxe, como era natural, o alheamento compreensível dos representantes dos jornais.

   Além do mais, a sua presença estimularia os organizadores dos festejos, posto que podiam sentir-se amparados por uma colaboração desinteressada e útil…

   Que o programa não este à altura do esforço admirável do povo que ornamentou e transformou em fantástica visão de sonho e beleza as ruas da vila? Não restam dúvidas a ninguém. Nós fomos os primeiros a lamentá-lo. Mas, concluir-se daí e empiricamente que poderia haver o propósito de colocar mal a nossa terra, é atitude que não corroboramos por nos parecer um excesso que a paixão ditou.

   À primeira vista e no auge da paixão, assim parece. Mas, serena e objectivamente, nenhum de nós aceita que assim tenha sido e nem mesmo aqueles que assim pensaram, o aceitam hoje.(…)

   Todavia, a crítica tem de fazer-se e não podemos deixar de referir que é realmente desolador obrigar uma banda que nos visita a efectuar os seu concertos na “cave” – como graciosamente lhe chamaram – do nosso formoso Parque que, diga-se de passagem, exibia feérica iluminação fúnebre; como foi igualmente desoladora a pobreza dos números festivos e, mesmo assim, não cumpridos integralmente.

   Quatro corridas de touros à alentejana e um balão que não subiu, é pouco para festas de tão elevado cunho tradicional e que tanto esforço demandam por parte do povo que lhes dá vida, calor e os encantos duma esplendorosa intuição artística!

   Excluído o excelente espectáculo dos artistas da rádio – que não pode dispensar-se em nossos dias, mas que é incaracterístico por não ter qualquer cunho regionalista – o programa das festas foi, praticamente, inexistente.

   É verdade. Mas acreditamos e, sinceramente o afirmamos, que a Comissão das Festas sentiu como nós a angústia e a tristeza dos comentários e exclamações de muitos forasteiros: “Isto é muito lindo!”… “As ruas são um encanto!”… “Isto é único!”… Mas “além disto o que há mais?!”…

   E, então, voltamos ao princípio: não há efeito sem causa e a Comissão das Festas pode ter sido o efeito de uma causa a que não soube estar atenta…

   E como eles, tal qual nós, são amigos da nossa terra é que quisemos apontar-lhes as falhas, não para os condenar unilateralmente, mas para que apontando os deslizes – que nós próprios podíamos cometer em idênticas circunstâncias – possamos contribuir para uma melhor actuação no próximo ano.

   Estas Festas do Povo de Campo Maior podem e devem constituir o nosso melhor cartaz; mas só em boa e leal colaboração poderemos levar o grito álacre desse cartaz através de todos os recantos de Portugal.

   E a crítica construtiva, serena, calma e objectiva é, em nosso entender, o primeiro passo para tão bela jornada.

   Por nossa parte assim o pensamos.

                                                              Marciano Ribeiro Cipriano

 

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publicado às 16:20


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXVI

por Francisco Galego, em 25.06.11

As festas nos anos 50 (3)

 

Mais uma vez, a intenção da anualidade das festas, aqui vai ficar testemunhada. As festas vão realizar-se no ano seguinte, no ano de 1953, procurando manter o que se julgava ser a tradição praticável mas que, devido a acontecimentos vários, era constantemente interrompida.

As Festas de 1953 atingiram um brilho inesperado, trazendo à memória dos mais velhos as saudosas Festas Grandes de 1927. É que, tal como estas, as Festas do princípio dos anos cinquenta, deixaram de ser promovidas por instituições e passaram de novo a ser organizadas por uma comissão constituída por artífices, como tinham sido até aos finais dos anos vinte.

 

 

LINHAS DE ELVAS, nº 154, 12 de Setembro de 1953


Notícias de Campo Maior – As tradicionais Festas do Povo


   Como tinha sido anunciado, realizaram-se nesta leal e valorosa vila de Campo Maior, nos dias 6, 7, 8 e 9 de Setembro, as populares Festas dos Artistas, este ano a favor da Cantina Escolar e da Santa Casa da Misericórdia.

   As ruas vistosas e artisticamente arranjadas, diferentes todas, apresentavam-se bonitas, garridas e mereceram dos milhares de pessoas que as visitaram os mais rasgados e merecidos elogios.

   Efectivamente, é de louvar este esforço colectivo de um povo artista, capaz de realizações desta natureza e levadas a cabo, note-se bem, a expensas particulares.

   Merecia Campo Maior das entidades oficiais protecção eficaz, propaganda verdadeira, tanto mais que estas festas são de acentuado cunho popular. Este espectáculo das ruas floridas é único em todo o país e devia ser conhecido de todos os portugueses. Para tanto, é necessário, propaganda em todos os sentidos, bairrismo extreme, programas mais variados e tudo o mais que se puder fazer, para que ao visitante se proporcionem umas festas de sonho.

   No programa das festas estiveram incluídos os seguintes números a que assistiram imensas pessoas: alvoradas e concertos pelas bandas de Campo Maior e Elvas; festividades religiosas em honra de S. João, padroeiro da vila; bailes populares; vistoso fogo-de-artifício e ainda um magnífico espectáculo de variedades, conseguido por Guilherme Ruiz e apresentado na Praça da República, também decorada e ornamentada a primor.

   O vasto e alegre recinto recebeu uma multidão numerosa que foi assistir ao grandioso festival e no qual actuaram os categorizados artistas: Luís Piçarra, Fernanda Peres, Margarida Amaral, Gina Maria, Eduardo Futre, os bailarinos excêntricos Geny e Bel Guerra; Casimiro Ramos e Castro Mota. A locução esteve a cargo de Mimi e Hernâni Muñoz, tendo Guilherme Ruiz, da Comissão das Festas, proferido antes do espectáculo, um caloroso discurso em que evocou as origens remotas das Festas dos Artistas, explicou a sua projecção no campo popular e beneficente e terminou, com muitos aplausos, exortando o povo de Campo Maior para que continue a tradição, apresentando estas maravilhas de cor e beleza que são as ruas de Campo Maior, no Alto Alentejo, nestes primeiros dias de Setembro.

   O trabalho dos artistas agradou completamente (excepção feita à orquestra Odeon) não lhe regateando o público fortes aplausos, não obstante a desagradável espera de uma hora que todos sofreram pelo começo do espectáculo.


Marciano Ribeiro Cipriano

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publicado às 16:08


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXV

por Francisco Galego, em 21.06.11

As Festas nos anos 50 (2)

 

O texto que se transcreve é bastante extenso; talvez deamasiado extenso para o que é habitual em blogs. Mas a sua riqueza literária e valor documental, são tão grandes que seria pena cortar nele fosse o que fosse. Por isso vai publicado na íntegra tal como foi publicado pelo seu autor que eu bem conheci e que muito estimei e admirei apesar da grande diferença de idades.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 104, 13 de Setembro de 1952


As Festas do Povo de Campo Maior


Notas de reportagem por Marciano Ribeiro Cipriano:


   Inundados de beleza os olhos, transbordante de encantamento a alma, assim andamos de rua em rua durante os quatro dias que duraram as Festas do Povo da nossa terra.

   Perdidos qual vagabundo em voluntária peregrinação, não nos cansámos de admirar o poder criador de moços e velhos que, embora esgotados pela labuta diária na dura conquista do pão, ainda lograram ânimo para mostrar alegremente como a intuição artística e culto do belo vivem em seus corações, tantas vezes amargurados por mil vicissitudes e desenganos.

   - Admirável este povo da minha terra!

   - Magnífico o seu esforço, numa multiplicação de vontades inquebrantáveis para mostrar a naturais e visitantes, a beleza de sonho das suas festas!

   Chamam-se Festas do Povo, embora originariamente se tivessem designado por Festas dos Artistas [quer dizer, artífices] e nunca uma designação foi dada com tamanha propriedade!

   São, na verdade, as Festas do Povo, porque é o povo, numa manifestação de vontade colectiva, que transforma por completo a vila num encantador jardim das mais variadas e caprichosas tonalidades.

   Cada rua, cada travessa e até cada beco, surgem a nossos olhos qual encantador painel que mão de consagrado artista tivesse trabalhado.

   E a vila surge, assim, na alvorada do primeiro dia de festa, transformada num imenso e encantador parque que mais parece um conto de fadas das mil e uma noites.

   - E, durante quatro dias e quatro noites, toda a vila vibra e se agita, num frenesim constante e aliciador!

   A beleza e encantamento assumem aspectos de grandiosidade e as ruas, numa disputa admirável – sem prémios nem incentivos, note-se bem! – apresentam-se cada qual diferente da vizinha, mas todas elas mostrando ao visitante o poder de uma arte que não teve escola nem mestres, porque é uma intuição admirável e notabilíssima do povo – massa anónima – que guarda sempre em si o sortilégio vivificante das grandes realizações.

   Causa, na verdade, admiração e pasmo ver tanta beleza e arte semeadas por mãos calosas de rapazes e raparigas que, durante mais de três meses consecutivos, laboram pacientemente e até altas horas da madrugada, as florzinhas, lustres, franjas e demais enfeites originais em elegantes recortes de papel a cores.

   São estes moços e moças que, ajudados por outros moradores das ruas, embora com diferentes possibilidade mas como eles simples e compreensivos, quem se ufana de deslumbrar os visitantes, transformando a sua rua num encantador altar de beleza e de espontânea manifestação artística.

   E não se cuide que o custo elevado da ornamentação das ruas recebe qualquer auxílio material de entidades oficiais ou colectividades afins. A cada morador das ruas cabe o seu quinhão nas despesas e cada qual contribui conforme as suas possibilidades.

   Aos mais abonados – e ainda os há, felizmente com alma grande em algumas ruas – cabe naturalmente maior quinhão nessas despesas, mas ao fim e ao cabo sentem-se compensados pela alegria natural que sentem em compartilharem directamente na festa que podemos apontar como modelo da mais salutar fraternidade.

   Nem em todas as ruas acontece assim. Mas isso não ofusca de modo algum o brilho das Festas do Povo de Campo Maior.

   Percorremos as ruas de lés a lés e, por toda a parte, encontramos a mesma salutar demonstração de alegria, o mesmo brilho e o mesmo esplendor, mesmo naquelas ruas que a modéstia dos seus moradores não permitia largos voos.

   As Festas do Povo não se realizavam há perto de dez anos. E aquilo a que assistimos este ano leva-nos a acreditar que a sua realização anual é absolutamente viável e possível.

   Falam por nós o entusiasmo dos que para elas trabalharam; garantem-no, ainda, as expressões de êxtase e de deslumbramento que observamos nas muitas centenas de forasteiros que nos visitaram. Não exageramos nesta afirmação: - ultrapassou em muito a casa do milhar, o número de pessoas que visitaram Campo Maior durante os dias das festas!

   Se atentarmos que foi quase nula a propaganda – limitou-se às notícias que voluntariamente nos lembrámos de dar – tal número de visitantes deve encher-nos de júbilo. Dentre eles, contam-se algumas destacadas personalidades da região e até de Lisboa, importando salientar a presença dos senhores coronel Pereira Coelho, subdirector do Diário de Notícias e Dr. Cayola Zagalo, conservador do Palácio da Ajuda e conservador adjunto do Museu de Arte Antiga, que não esconderam a mais viva admiração pela inédita maravilha que desfilou perante os seus olhos.

   Com uma propaganda bem orientada e inteligentemente desenvolvida, as Festas do Povo de Campo Maior podem transformar-se no cartaz vivo e aliciador da nossa terra, convite admirável para que melhor nos conheçam e menos mal nos julguem…

   As Festas do Povo de Campo Maior, designadas originariamente por Festas dos Artistas, como já referimos, realizaram-se pela primeira vez há mais de sessenta anos. Vive ainda, felizmente, um dos seus promotores, o nosso simpático e querido amigo, Sr. José da Gama Piñol que, nos seus enérgicos e admiráveis quase noventa anos nos contou a sua origem e o respeito pela tradição vincadamente regional que, desde início, lhe imprimiram e que jamais se perdeu.

   Com que emocionante alegria e saudosa nostalgia, este nosso respeitável amigo, nos contou a origem das festas – que ele considera melhor designadas por Festas do Povo – e como os seus olhos brilharam de alegria por poder assistir, com perfeita saúde física e mental, às típicas e originais Festas do Povo que ele teve o privilégio de iniciar!

   Como se sentia feliz ao revelar-nos a origem das Festas do Povo de Campo Maior que ressurgiram depois de dez anos de intervalo, mercê do esforço deste belo povo e da ideia feliz da comissão promotora, os modestos operários Eduardo Costal, Manuel Vilas e Simão Tomatas, cujos nomes arquivamos com muita satisfação nas colunas do nosso jornal.

   Que o seu nome frutifique para o bom nome e prestígio de Campo Maior, são os nossos votos.

   As festas realizaram-se a benefício da Santa Casa da Misericórdia a comissão promotora foi auxiliada, em alguns pormenores da organização, pelos Srs. Dr. José Henrique Santos, João Minas e João Candeias.


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publicado às 15:29


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXIV

por Francisco Galego, em 17.06.11

As Festas nos anos 50 (1)

 

A vila que transbordara para fora das muralhas desde o início do século XX conheceu, nos anos cinquenta, um tão grande desenvolvimento que o seu espaço urbano duplicou até ao fim do século XX. Os novos bairros começaram a aderir à dinâmica das festas. Rapidamente, o número de ruas ornamentadas que nunca, até aos anos cinquenta, alcançara a meia centena, atingiu no auge deste desenvolvimento, o número espantoso de mais de uma centena de ruas ornamentadas.

Os espectáculos de variedades passaram a constituir uma parte importante no programa das Festas, passando a recorrer a artistas de projecção nacional. As Festas são planeadas para atraírem cada vez mais a gente de fora que vem de terras cada vez mais distantes. Constituindo como objectivo a sua projecção  a regiões cada vez mais longínquas, as Festas  foram-se tornando progressivamente um acontecimento turístico de relevância.

Por outro lado, havia cada vez mais campomaiorenses deslocados. A grande migração para os centros industriais e o êxodo da emigração pra países além dos Pirenéus, começaram a definir uma nova realidade social:os pequenos centros urbanos tiveram de adaptar-se ao regresso periódico de uma grande massa dos seus naturais que, chegado o Verão, vinham passar as férias acompanhados das suas famílias.

Esta nova conjuntura, no começo dos anos cinquenta,  fez renascer a vontade de realizar as Festas, alargando a sua dimensão e melhorando muito a sua qualidade.

 

LINHAS DE ELVAS, nº 102, 23 de Agosto de 1952

 

Festas do Povo


   Depois de um intervalo de 10 anos, Campo Maior leva este ano a efeito as suas tradicionais Festas do Povo.

   Únicas no Alentejo, dada a originalidade do seu número mais sensacional: a transformação completa de todas as suas ruas num encantamento e policromo jardim, têm este ano a valorizá-las o concurso dos artistas de variedades da Emissora Nacional, que se apresentam com todo o seu conjunto.

   Parece-nos que é Campo Maior a primeira terra do distrito que tem a honra de ter como hóspedes uma tão numerosa e meritória embaixada artística.

   O programa será radiodifundido e o espectáculo terá lugar no magnífico recinto da Praça da República.

   Oportunamente transmitiremos aos nossos leitores os restantes números de que se compõe o programa das festas do povo de Campo Maior, as quais são organizadas em benefício da Misericórdia e têm o seu início em 6 de Setembro próximo, prolongando-se até 9.

   É de esperar que os organismos oficiais prestem todo o seu auxílio à Comissão das Festas, no sentido de que lhes seja imprimido o maior brilhantismo, pois é bom não esquecer que muitos forasteiros nos visitarão naqueles dias.

   Acreditamos que a hospitalidade campomaiorense estará presente, como é seu hábito.

 

 Marciano Ribeiro Cipriano

 

 

 



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publicado às 15:00


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXIII

por Francisco Galego, em 13.06.11

 

Os Anos 50

 

Para as Festas do Povo de Campo Maior um novo ciclo ia começar. Preparavam-se novas adaptações na continuidade de uma já longa tradição.

 

Em 1950 falava-se novamente de Festas; mas estas só voltariam a realizar-se em 1952, 1953 e 1957. E, quando regressaram, as Festas voltaram para se renovarem, pois nestes anos dão-se algumas inovações a nível das ornamentações e das estruturas de decoração das ruas.

Embora se mantivesse o esquema tradicional, havia uma maior preocupação com a decoração dos “tectos” que deixaram de se limitar às formas tradicionais das franjas, cadeados, lenços e mantilhas, adquirindo uma maior riqueza ornamental. As flores artificiais multiplicaram-se em formas cada vez mais originais e elaboradas, as “entradas” feitas de caniços, deram lugar a estruturas construídas em materiais mais consistentes e com maior apuro decorativo, tornando-se um elemento essencial na ornamentação das ruas.

 A grande cintura de hortas que rodeavam a vila e que garantiam o seu abastecimento em frescos, começou a desaparecer. Assim, as sebes que protegiam as culturas mais mimosas da acção nefasta dos ventos e que forneciam o revestimento de verdura de buxo e murta que tinham, desde a origem das Festas, constituído o material mais usado na decoração das ruas para revestimento dos paus e das cordas, foi-se tornando cada vez mais difícil de obter. O papel tornou-se rei como material base na decoração das ruas.

Cada rua procurava esmerar-se na descoberta de novos elementos: cordas de torcidos, tectos que são autênticos túneis de flores, entradas espectaculares em simbologia e em execução, ruas que reproduzem pomares, roseirais e flores que, de tão bem executadas, competem em graça e requinte com as naturais.

A Festa que fora "dos artistas", transfigurou-se numa espantosa manifestação de um povo artista.

A criatividade campeou de tal  modo por toda a parte que, num desses anos, mesmo numa família muito pobre e muito numerosa, os Piedade tiveram a brilhante ideia de enfeitar a sua pequena rua, tão pequena que é chamada de Caleja, forma castelhana de dizer ruínha, utilizando exclusivamente como material, papel de jornais. O efeito foi espectacular, pela surpresa e pela criatividade de uma pobreza assumida e orgulhosamente ultrapassada de uma forma genial, pela sua originalidade.

 

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publicado às 20:41


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXII

por Francisco Galego, em 09.06.11

ANOS 50  – UM NOVO RECOMEÇO

 

Passados os efeitos mais pesados da guerra, a vida começava a reorganizar-se. O próprio regime, por necessidade de sobreviver, perdera a acirrada combatividade ideológica inicial. A derrota, na Grande Guerra de 1939-1945, das potências que partilhavam de ideologias semelhantes ás que tinham estruturado o Estado Novo, obrigaram-no a adaptar-se a um novo equilíbrio de forças, saído da guerra e ditado pelas potências vencedoras. Nas conferências que entre si realizaram, os vencedores estabeleceram as condições da paz e a nova divisão política da Europa e do Mundo.

Por necessidade de manter as aparências, os governos de Espanha  e de Portugal, tiveram de moderar os seus impulsos ideológicos para se revestirem do carácter de um conservadorismo paternalista, com base no catolicismo tradicional mais conservador.  Contudo, apesar da forte tendência da sua liderança política para o conservadorismo, o país começava a mudar. A nível da rede viária verificaram-se algumas melhorias. Alargou-se o parque automóvel e tornaram-se mais fáceis, mais rápidas e mais confortáveis as deslocações de pessoas e de mercadorias.

Em Campo Maior, depois do constrangimento dos anos da guerra, notava-se a tendência para algum alívio, sobretudo no que respeitava às condições das classes médias. Pelas notícias da época, nota-se algum renascimento da vida associativa local. O Sporting Club Campomaiorense, depois de um período de apagamento, renasce e, sob a orientação de uma nova geração de gente com iniciativa, consegue, no pós-guerra, ascender por várias vezes ao campeonato da 2ª divisão nacional.

As sociedades recreativas reanimaram-se, passando a ser regularmente frequentadas pelos jovens. No início de 1952, nasceu uma nova colectividade, a Casa do Benfica que, nas duas décadas seguintes, irá ter bastante influência na vida recreativa e cultural de Campo Maior.

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publicado às 20:18


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXXI

por Francisco Galego, em 05.06.11

Os úlimos anos da década de 40

 

A falta de condições adequadas terá sido o factor determinante para que as Festas de 1944, tenham sido muito modestas, de muito fraca projecção e muito pouco brilho. Talvez por isso, seguir-se-ia um longo período de sete anos em que não se voltaram a realizar.

Registe-se como interessante o facto de, neste ano, se ter regressado à última das festas tradicionais que, desde o século XVIII, se realizavam em Campo Maior: a Procissão de Corpus Christi , que já se não realizava desde a Implantação da República.

Em 1945, terminava a guerra e começava um período que iria marcar profundamente a civilização mundial. A Guerra Fria, o terror das armas nucleares, o mundo sob a tensão constante de um novo conflito que só não se desencadeava porque todos sabiam que desta vez não haveria vencedores, apenas vencidos.

Na vila de Campo Maior, as preocupações eram outras pois a situação era extremente difícil. O abastecimento fazia-se com muita dificuldade. Havia carência de quase tudo. Os bens essenciais mantiveram-se sujetos a racionamento durante mais algum tempo. Os preços eram elevados e os salários muito baixos. O carácter sazonal dos trabalhos agrícolas criava regularmente  períodos de desemprego. A assistência social era praticamente inexistente. A fome era endémica e persistente. Nestas condições quem iria pensar em realizar uma festas que dependiam do trabalho e da vontade do povo?

Havia que esperar que novas e melhores condições de vida fizessem regressar a esperança e a vontade de criar, de novo, realizações colectivas como as Festas do Povo.

 

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publicado às 19:57


O QUE DIZEM OS DOCUMENTOS XXX

por Francisco Galego, em 01.06.11

OS ANOS 40 (IV)

 

Nas pequenas comunidades como Campo Maior, os efeitos da guerra continuariam a fazer-se sentir ainda por muitos anos. No ano de 1943, não se encontra qualquer referência às Festas, embora se continuem a celebrar todas as outras festividades do ritual e da tradição local. Nota-se contudo, um certo retraimento sinal de que os tempos não corriam de feição. Deixa de se fazer referência à Feira dos burros que se costumava fazer na Avenida, pelo São João.

Para agravar a situação, neste ano a produção agrícola foi calamitosa. Os assalariados agrícolas, além de só terem trabalho em determinados períodos e que este ano foram reduzidos pelas más colheitas, usufruíam de salários muito baixos. Nestas condições não seria de esperar que a população se dispusesse à realização das Festas.

 

No ano de 1944, todas as condições se mantinham quer no que respeita à situação da Guerra Mundial, quer no que se refere à situação da política nacional. Mesmo no que concerne à situação social e económica em Campo Maior, há grandes semelhanças com os dois anos anteriores, porque as condições agrícolas continuaram muito desfavoráveis. Contudo, as Festas realizaram-se e, mais uma vez, foi o Grupo Desportivo da Casa do Povo que as promoveu. Só que esta instituição já não podia dispor da forte liderança do Capitão César Correia. Já não havia projectos em curso. A Casa do Povo tinha regressado ao marasmo rotineiro em que ia arrastar a sua existência até ao fim do Estado Corporativo, em 1974.

 

Jornal de Elvas, Nº 831, 27 de Agosto de 1944


Festas do Povo


   Já são no próximo dia 3 de Setembro as festas do povo desta vila em Honra de S. João Baptista, padroeiro dos campomaiorenses. Em várias ruas já se estão organizando as comissões e começaram os peditórios nas casas dos habitantes dessas ruas. Segundo consta, os programas devem estar a ser distribuídos pela presente semana. Devido às grandes dificuldades que há em adquirir o papel, fio e pregos, é natural que muitas das ruas não venham a ser ornamentadas. O entusiasmo no pessoal novo é grande.

 

Jornal de Elvas, Nº 833, 10 de Setembro de 1944


Festas


   A fim de realizar um desafio de futebol com o Desportivo da Casa do Povo, integrado no programa das festas da vila, esteve em Campo Maior o onze de honra do Sport Lisboa e Elvas que venceu por 5 bolas a duas.

   No concurso de Jazzes levado a cabo nesta vila por altura das festas, coube o primeiro prémio ao Jazz Etner de Elvas, de que é director o Sr. António Cardos Rente.

   Durante as noites das festas do povo, quatro noites, quase ninguém pode dormir, tanto doentes como sãos.

   A Praça da República foi agora convertida em recinto de bailes, certamente autorizados, onde se cobra uma certa importância por cada cavalheiro que ali deseja entrar. Na embocaduras das travessas da mesma praça são colocadas umas cordas vedando o trânsito, privando assim de se gozar naquele passeio público as regalias a que temos direito.

 

A falta de condições adequadas terá sido o factor determinante para que as Festas de 1944, tenham sido muito modestas, de muito fraca projecção e muito pouco brilho. Talvez por isso, seguir-se-ia um longo período de sete anos em que não se voltaram a realizar.

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publicado às 19:30


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