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Coisas que fui escrevendo XIV

por Francisco Galego, em 30.10.09

 

 Neste novo século, a escola como instituição e os profissionais a ela ligados, encontram-se num ponto de viragem tão profunda como aquela em que se encontravam no início do século passado. Tão radical é esta mudança, que melhor seria falarmos numa mutação. As novas exigências que a sociedade impõe à escola exige dela, rápidas e constantes adaptações. A escola é cada vez mais um universo aberto à comunidade e, em consequência disso, vê-se condenada a uma autonomia que a responsabiliza e obriga a gerir bem os recursos de que dispõe, ao mesmo tempo que, em consequência da mesma autonomia, fica exposta à pública prestação de contas através da avaliação dos efeitos sociais que produz.
            Não é por acaso nem por capricho de moda que ocorrem estas transformações. No estado actual em que se encontra o mundo, em que os dogmas substituem a razão, em que o fanatismo se sobrepõe à tolerância, em que a desenfreada busca dos prazeres e da notoriedade faz esquecer o necessário cumprimento dos deveres, torna-se urgente, torna-se inadiável que a escola desenvolva novas perspectivas curriculares que integrem conteúdos de aprendizagem que vão para além dos conhecimentos específicos das disciplinas e cursos de formação, integrando também aprendizagens referidas às atitudes, aos valores e às responsabilidades sociais. Dito de outro modo, são grandes as responsabilidades educativas que hoje se proporem às escolas e aos professores.
            Novas exigências em termos curriculares implicam o desenvolvimento de novas competências da parte dos profissionais ligados às organizações escolares. Para uma adequada educação para os valores torna-se necessário que os professores se tornem educadores.
Novas condições sociais provocaram efeitos relevantes na organização do trabalho e na estruturação das famílias. Depois das duas grandes guerras do passado século, a escola viu-se confrontada com duas grandes modificações que vão abalar as suas seculares convicções e rotinas: a massificação das populações escolares; a complexificação das aprendizagens.

            A escola do século passado, habituada à tranquila uniformidade das clientelas burguesas que normalmente a frequentavam, vê-se actualmente invadida por uma pluralidade de classes, com uma grande variedade de culturas e de atitudes comportamentais. Os saberes, antes muito estáveis, ficam sujeitos a uma mudança contínua e progressivamente acelerada.

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ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A SITUAÇÃO ACTUAL

por Francisco Galego, em 28.10.09

 

Foi constituídoe empossado um novo governo para Portugal. Será que teremos novas condições de governabilidade, tão necessárias à resolução dos gravíssimos problemas que o país enfrenta neste momento?
   Em declarações recentes, José Sócrates tem vindo a expressar mágoa e ressentimento por ter sido atacado, constante e persistentemente, ao longo da passada magistratura. Sindicatos, partidos da oposição, órgãos de comunicação social, formaram uma frente de contestação, usando quase sempre o ataque pessoal contra o seu carácter, honestidade, clareza e lisura de processos e intenções.
Apesar destes ataques sistemáticos, manteve o apoio do povo português e, ainda que com algum desgaste em termos de resultados, a ele cabe dirigir o governo do país, na próxima legislatura. Será que os ataques vão persistir até conseguirem finalmente alcançar o objectivo que falharam no último acto eleitoral, sendo certo que só o conseguirão mediante um grande agravamento da situação interna de Portugal?
Político bem preparado e determinado na consecução dos seus objectivos, José Sócrates tem vindo a traçar as linhas mestras da sua actuação para o futuro próximo, como primeiro-ministro. Segundo as suas declarações mais recentes, no governo minoritário que lhe cabe dirigir, terá de dar prioridade ao combate à recessão económica pois, sem recuperação da economia, não será possível vencer a crise e alcançar a estabilidade social. Claro que, sem maioria absoluta, terá de proceder a uma negociação constante com as outras forças sociais e políticas, procurando os consensos necessários para alcançar as metas traçadas para vencer a crise.
Mas, tudo isto terá de ser feito sem perder de vista que o PS, partido mais votado, se apresentou ao eleitorado com um programa que não poderá, de modo nenhum, deixar de ser tomado como ponto essencial de referência. Tanto mais que, o segundo partido mais votado, o PSD, fiel às crenças neoliberais dos seus actuais dirigentes, baseadas nas virtudes auto-reguladoras da economia de mercado, com intervenção mínima do Estado, contestou ao longo da campanha eleitoral que, para assegurar a retoma e conseguir a estabilidade, se recorresse aos grandes investimentos pelo sector público, como via mais consistente para vencer a fase mais depressiva do ciclo de crise económica. Este partido passou quase a toda a campanha eleitoral a clamar contra o deficit, enquanto o PS sempre deixou claro que as condições actuais do país ditavam a necessidade de deixar em suspenso a questão do equilíbrio das contas públicas para uma fase posterior, quando o crescimento económico já estiver assegurado. Isto na condição de ter um grande cuidado para evitar perigosas derrapagens que poderiam colocar em risco as finanças do país no médio prazo.
Em conclusão: esta situação económica muito complexa e muito difícil, exige de todos uma congregação de esforços e uma grande capacidade de diálogo para gerar consensos, de forma a criar as condições que permitam ultrapassar as dificuldades que o país enfrenta na actual conjuntura.

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Descasos da Política II

por Francisco Galego, em 25.10.09

 

Tornou-se corriqueiro dizer mal dos partidos: que são todos iguais; que o que querem é o “tacho”; que são todos uns oportunistas desonestos; que se estão nas tintas para a justiça e para o bem-estar das pessoas. Mas, tomando em consideração algumas situações que se passaram nas últimas eleições, parece que os cidadãos votantes são bem mais merecedores de censura quando votam e elegem determinados autarcas. Senão vejamos: em Oeiras, Isaltino Morais foi eleito, embora condenado pelos tribunais; algo de semelhante aconteceu com Valentim Loureiro, em Gondomar; o mesmo teria acontecido com Ferreira Torres, em Marco de Canaveses e com Fátima Felgueiras, embora desta vez os povos destas terras tenham sacudido o jugo e encontrado forças para se libertarem destas figuras que tão má fama têm dado às populações que os elegeram.
Contudo, estas quatro personagens, tinham sido repudiadas pelos partidos (PSD; CDS; PS) e continuaram a ser votadas pelos eleitores. Por incrível que pareça, há quem despreze pessoas notáveis e de comportamento exemplar, homens e mulheres que se dedicam de alma e coração à causa pública, para apoiarem gente que se distingue por acções e comportamentos mais do que censuráveis. A democracia tem, por vezes, destas contradições. O remédio é continuar a lutar e a esclarecer para que deixem de acontecer situações destas e haja correcções como as que se verificaram agora no Marco e em Felgueiras.
 

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Descasos da Política I

por Francisco Galego, em 23.10.09

 

Já pensaram nas razões que terão levado a que, numa freguesia do Concelho de Mondim de Basto, um candidato à Junta se tornasse assassino de outro que, supostamente, devia ser apenas o seu rival?
Vejam a que conduz a desunião levada ao extremo do ódio por quem não tem a mínima ideia do que seja democracia e, por isso, não tem condições absolutamente nenhumas para se candidatar a desempenhar qualquer função política. Que diriam vocês se entre nós uns dos candidatos, nas anteriores eleições, tivesse proferido ameaças de morte contra um dos seus opositores?
A política deve ser um confronto de ideias, de propostas e de intenções, sem excluir a possibilidade de uma acção conjunta, tendo em vista a realização do bem comum. Tudo o que estiver fora deste conceito, deixa de ser política para se tornar apenas um jogo sujo de interesses pessoais.

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A situação actual

por Francisco Galego, em 20.10.09

 

José Sócrates, agora indigitado como primeiro-ministro, vai ter de formar governo em condições muito diferentes das que tinha no começo da anterior legislatura. A situação actual é bastante menos sólida do que aquela em que se encontrava em 2005 pois já não dispõe de maioria absoluta e saiu da eleição de 27 de Setembro passado com menos de cerca de meio milhão de votos, o que determinou que o seu partido passasse a dispor no parlamento de menos 25 deputados.
Há quatro anos e meio, Sócrates saía duma eleição coroado pela auréola dos grandes vencedores. Agora está desgastado por uma crise que colocou tremendos entraves ao desenvolvimento de projectos, obrigou a acudir a urgentes necessidades, a resolver grandes problemas sociais e fez desandar a economia para índices bastantes gravosos.
Sendo agora pouco provável que o governo se possa fundar numa coligação, terá de ser um governo minoritário. À partida, trata-se de uma situação que exigirá uma constante procura de equilíbrios. Mas não há razão para se concluir que terá de ser um governo que coloque o país à beira da ingovernabilidade.
Há experiências anteriores que provam que, pelo contrário, um governo minoritário pode não ser um governo fraco. Veja-se por exemplo o primeiro governo que teve como primeiro-ministro Cavaco Silva. Este foi constituído com base numa situação ainda menos consistente do que aquela de que, neste momento, pode dispor José Sócrates, uma vez que, enquanto este obteve 36,5 % dos votos e aquele tinha apenas obtido menos de 30% dos sufrágios. Repare-se que muitos consideram que o governo então constituído pelo actual presidente da República, foi um dos bons governos que Portugal teve depois do 25 de Abril.
Poderemos ver a actual situação pela seguinte perspectiva: se é verdade que é agora mais frágil a base de sustentação do governo, também não é muito sólida a situação dos grupos parlamentares constituídos pelos partidos da oposição. Repare-se que, tanto à esquerda como à direita, não existem condições para se constituírem alianças que levem à queda do governo, pois não é muito credível que se coliguem todos para conseguirem esse objectivo. A esquerda (PS, BE, CDU) dispondo de 127 deputados, constitui uma maioria folgada de mais 11 votos do que os necessários. Assim sendo, dificilmente se concebe que CDU e BE se disponham a facilitar o acesso dos partidos da direita ao governo, sem sofrerem forte contestação pelas suas bases de apoio. Basta ver como funcionaram as alianças e apoios nas votações na Assembleia da República ao longo da anterior legislatura para constatarmos que muito dificilmente se chegará a tal situação.
Há que ver também que a actual conjuntura impõe aos partidos da oposição uma adaptação estratégica que poderá vir a favorecer a vida do próximo governo minoritário de Portugal. Como já não poderão adoptar a posição de estarem todos, ainda que não coligados, nem em consonância, em oposição frontal a um governo de maioria, como estavam na anterior legislatura, isto deixa a sua liberdade de acção bastante condicionada.
Tendo o governo de procurar apoios pontuais para fazer aprovar as suas medidas e iniciativas legislativas, cada um deles vai sentir-se obrigado a apoiar aquelas que são concordantes com os seus programas políticos, negociando o seu apoio com as necessárias adaptações. Se o não fizerem, arriscam-se à censura dos seus próprios eleitores, pois o governo poderá sempre acusá-los e constituir-se como vítima, demitindo-se para provocar novas eleições retirando daí vantagens eleitorais. Foi assim, grosso modo, que Cavaco Silva terá chegado à maioria absoluta.
Os que passam o tempo a afirmar que o governo poderá não cumprir integralmente o seu mandato, esquecem-se de acrescentar que existe uma forte probabilidade de isso acontecer porque o próprio partido do governo terá todo o interesse em antecipar novas eleições. Tudo depende do grau de apoio que suscitar a sua acção governativa. Ou seja, um governo minoritário está, no fundo, apenas limitado quanto à possibilidade de levar a efeito grandes reformas, pois elas suscitam sempre grandes resistências corporativas daqueles que, com elas, sentem ameaçados os seus privilégios.

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Razões de uma atitude

por Francisco Galego, em 18.10.09

 

Nunca gostei de convencer, de influenciar ou de doutrinar as outras pessoas. Creio que foi esta faceta da minha personalidade que me encaminhou para a minha inclinação profissional tornando-me professor. A minha grande preocupação foi a de ajudar os outros a saberem pensar. Mas a pensar criticamente, ou seja, a fundamentarem aquilo que pensam em bases sólidas que dêem razão a conclusões e argumentos que permitam desenvolver planos de acção úteis, exequíveis, dirigidos à resolução de problemas concretos e ao preenchimento de carências e necessidades reais.
Tenho uma visão ética da política e isso implica que a conceba como uma missão que alguém assume com o objectivo de se colocar ao serviço dos outros. Por isso, o que mais me repugna na política é a propaganda manhosa, a campanha intencionalmente feita de mentiras, calúnias boatos e deturpações da verdade. Numa palavra, a política como projecto pessoal de alguém que procura nela apenas maneira de se beneficiar e sair dela a ganhar, ainda que isso implique passar por cima de tudo e de todos, ignorando razões e princípios de ordem moral.
Ao longo da minha vida, embora nem sempre o tenha conseguido, sempre procurei não assumir cargos. Mas, sempre que cedi a pressões para que me envolvesse, acabei por me censurar e chegar à conclusão que há de facto coisas que nem faço bem, nem me dá gosto fazer.
 Há contudo situações políticas tão fora dos parâmetros da ética que eu não resisto ao apelo de nelas me envolver para tentar ajudar a que as coisas regressem à sua forma justa, certa e normal. Foi o que agora fiz e não me arrependo de o ter feito.
 

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Coisas que fui escrevendo XIII

por Francisco Galego, em 08.10.09

 

Dentro da profissão docente verifica-se uma tremenda ruptura. A partir de meados do século passado, quando começou a massificação das populações escolares, chegaram à profissão docentes improvisados, destituídos dos saberes científicos, didácticos e pedagógicos necessários ao exercício competente da docência.
A investigação científica, muito alheada das questões escolares, demorou a reagir e a procurar as soluções para os novos problemas que em todos os campos se levantaram: formação dos professores, indisciplina e dificuldades de aprendizagem dos alunos, insucesso escolar massivo e tremendamente selectivo do ponto de vista social.
Tudo isto provocou uma ruptura fracturante, até hoje não resolvida, entre os professores. Enquanto uns aceitaram os novos desafios e fizeram deles o estímulo que os levou a evoluírem para práticas que os transmutaram em autênticos educadores, outros aferraram-se aos velhos hábitos, refugiaram-se nas esgotadas e inúteis rotinas. Esta ruptura manifestou-se em todos os sectores ligados às questões da educação: nas políticas educativas, nas práticas docentes e nas próprias organizações sindicais de professores. Nestas, a proliferação de associações é tanta quanta a confusão que lavra nas aspirações profissionais dos docentes. Algumas destas organizações sindicais privilegiam as opções políticas quase esquecendo as questões educativas. Quase todas elas estão de tal modo focadas na defesa intransigente dos interesses corporativos, que esquecem por completo as questões deontológicas tão essenciais ao profissionalismo docente. Ora, a defesa intransigente dos direitos perde força e razão quando ignora a necessidade de esclarecer e assumir os deveres essenciais que garantem o sentido social da educação. Não é por caso que, com grande prejuízo dos interesses da classe, se vêem tantos bons educadores completamente alheados das questões sindicais.
Ao mesmo tempo, mas de forma muito discreta, vão surgindo profissionais que se agregam á volta das questões educativas: professores, psicólogos, sociólogos, e todos os que trabalham na escola e com a escola para conseguirem preparar as novas gerações. Entretanto e ainda por muito tempo, as escolas apresentarão este carácter confuso, algo anárquico e desorganizado que lhes confere um certo ambiente de confusão. É que, nas escolas de hoje, coexistem maneiras muito diferentes de estar na profissão. Apenas uma minoria consegue ultrapassar as dificuldades e, qual fermento levedando a massa, vão trabalhando no sentido de desenvolver uma acção que podemos considerar verdadeiramente educativa. São estes os educadores de que a escola necessita para responder aos desafios que hoje se colocam no domínio da educação.
 

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NO TEMPO DAS VINDIMAS…

por Francisco Galego, em 01.10.09

           Estamos em plena época das vindimas. De manhã cedo encontro grupos de trabalhadores que esperam, junto à Avenida, o transporte que os leve até aos campos em que vão trabalhar. Quase todos são imigrantes. Pelo linguajar, são dos países do Leste da Europa. Trabalhadores naturais de Campo Maior, em trabalhos agrícolas, tornaram-se muito raros.

 

            No concelho de Campo há uma extensa área de cultivo da vinha e uma grande adega que se dedica à produção de vinhos de qualidade elevada, apetrechada com os mais evoluídos recursos e equipamentos. Mas há também um número considerável de pequenas adegas (a que, de tão pequenas, poderíamos chamar “adegas de garagem”), onde por métodos artesanais e segundo processos tradicionais, se fabricam vinhos que, em alguns casos, conseguem ter uma interessante qualidade.
            Noutros tempos, quando em Campo Maior predominava uma economia basicamente agrícola, a produção vinícola tinha uma certa importância, produzindo a terra tanto vinho que dava amplamente para exportar. Associada à produção do vinho, uma outra actividade dava fama aos artesãos de Campo Maior: o fabrico dos grandes potes ou talhas onde se produzia e guardava o vinho. Em certas famílias a arte do fabrico dos potes passava de pais para filhos, por várias gerações.
Nas linhas que seguem vou tentar dar breves notícias sobre as culturas da vinha e do vinho no concelho de Campo Maior, em tempos passados.
Em meados de século XX (1948), o Alentejo produzia apenas uma pequena parte dos vinhos de Portugal: em 8.176.000 hectolitros, fornecia 61 mil; a Estremadura e o Ribatejo, forneciam 3. 234.000; as Beiras 2. 185.000; o norte produzia quase dois terços do total. Só a Vidigueira e Vila de Frades se destacavam pela qualidade e quantidade do vinho que produziam.
Nem sempre assim terá sido, pois que documentos antigos referem a viticultura e a produção dos vinhos como uma actividade económica muito importante no Alto Alentejo.
Tomando como referência uma “Notícia de 1758”, as produções do azeite e do vinho ocupavam lugar de destaque na economia da região em volta de Portalegre. Essas produções são referidas com grande destaque enquanto a produção de cereais era pouco referida. As vereações de Portalegre revelam que os viticultores constituíam um grupo activo, uma verdadeira corporação com tal influência que, em 1800 conseguiram mesmo que fosse interditada a importação de vinhos para proteger o consumo do vinho de produção local.
Ao que parece, em meados do século XVIII a situação começara a mudar. O cura de Santa Maria Madalena refere que Elvas, Olivença, Cabeço de Vide, Fronteira e Campo Maior, localidades que antes importavam, tinham começado a produzir.
Aliás, o cura de Campo Maior na mesma “notícia de 1758” assinalava a importância da vinha na economia local: muito trigo, cevada, grão, muito vinho e de boa qualidade. Portanto, Campo Maior pode, a justo título, ser considerado como um dos concelhos vitícolas do distrito de Portalegre, nos séculos XVIII e XIX.
O desenvolvimento da vinha em Campo Maior está testemunhado num decreto de 12 de Agosto de 1819 que, em resposta a uma petição dos habitantes deste concelho, foi decidido que “os proprietários de vinhas e os vinhateiros da vila de Campo Maior tendo exposto que a viticultura ocupava um destaque considerável na vida da vila, e não apenas pela qualidade do vinho que produziam, a ponto de esta ter provocado a plantação de vinhas cada vez mais numerosas nas terras incultas e cobertas de matos, mas porque esta tão interessante actividade comercial estava actualmente ameaçada de ruína pela livre entrada de milhares de carregamentos de uvas que desde há anos têm vindo para esta vila doutras localidades fronteiriças, com origem em Espanha…”. Este texto mostra com clareza a importância da viticultura local, confirmada quarenta anos depois pelo redactor anónimo da memória da Academia que tão bem conhecia a região de Campo Maior, quando se queixava do progresso da vinha no Alentejo, dando como exemplo o caso de Santa Eulália, grande aldeia a Oeste de Campo Maior, onde a produção de aguardente tinha aumentado monstruosamente nos últimos vinte e cinco anos. Ora, o consumo desregrado desta bebida estava a provocar uma grande dissolução dos costumes. Houve insistente pedidos de medidas que atacassem o progresso da embriaguês entre os camponeses que os afastava dos usos e costumes de antigamente e que os atraía para as tabernas afastando-os dos trabalhos nos campos.
 Há referências documentais a que na aldeia de Santa Eulália se vendia muito vinho para a cidade de Elvas.
Borba já era então um afamado centro vinhateiro, sendo mesmo considerado um dos mais importantes do Alentejo desde o século XIII.
Por volta de 1820, existia nesta região do Alentejo uma grande pressão das terras para que fosse estabelecida uma situação de relego sobre o vinho para evitar que a importação de vinhos de fora prejudicasse a venda dos vinhos da terra. O relego consistia numa disposição legal que vinha da Idade Média e se destinava a garantir que não fossem importados vinhos de fora enquanto não fossem vendidos os vinhos da terra. Ao longo do século XIX foi aumentando a área de cultivo da vinha tanto mais que, nas pequenas propriedades se estabeleceu o hábito de associar a olival e a vinha intervalando as fileiras do olival com as do bacelo.
Estamos actualmente a assistir a um novo período de expansão das vinhas no nosso concelho.
 
 
 

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