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DA INCERTEZA DOS TEMPOS QUE CORREM…

por Francisco Galego, em 18.02.09

 

 
As más notícias não param de chegar: mais despedimentos; maior dificuldade de obter créditos; reduções drásticas nos consumos; as economias em recessão; os governos sem soluções e incapazes de desenvolver estratégias porque as situações agravam-se tão rapidamente que nem é possível fazer previsões a médio e a longo prazo.
Os estudiosos destas conjunturas de crise costumam considerar que os grandes conflitos sociais ocorrem quando se cruzam duas situações que se desenvolvem em convergência: Os grupos dominantes perdem o controlo político das sociedades e deixam de poder governar; As populações que já perderam a confiança nos que governam, deixam de suportar as condições de vida que lhes impuseram e recusam-se a aceitar a continuação do sistema tal como ele estava constituído, explodindo em movimentos de contestação que exigem a criação de novas condições.
Quando as coisas chegam a este ponto pode-se chegar a uma conjuntura de tal desencanto e desespero que, ao menor pretexto, pode desencadear-se um processo de revolta descontrolada. Assim sendo, os governos têm de encontrar rapidamente soluções e, no vórtice de uma crise, elas não são fáceis de encontrar.
Na verdade, não devemos cair no exagero alarmista de que estamos à beira do colapso total. Mas o momento que estamos a viver dá motivo para sérias preocupações e urge encontrar soluções para o progressivo agravamento da situação. Assistimos ao empobrecimento de grande parte das famílias. A voz pública reclama que os que provocaram a situação continuam instalados no conforto das suas enormes fortunas, por vezes acumuladas por processos fraudulentos. Estes são claros indícios de quebra de confiança do contrato que mantém a estrutura da sociedade.
Quando as pessoas se sentem encurraladas, quando pressentem que já nada têm a perder e se desvanece a esperança de solução adequada, aí podem dar-se as rupturas que fazem colapsar os esteios das sociedades organizadas.
 
Para além destes grandes vectores de estruturação económica da sociedade, há também uma progressiva degradação que vai minando a coesão social.
Os banqueiros que dantes eram tidos como garantes da honestidade, sigilo e segurança que deve regular as actividades financeiras e a gestão dos bens e dinheiros alheios, passaram a ser vistos como manipuladores desonestos, apropriando-se indevidamente dum poder de decisão que não lhes foi concedido, para obterem ilicitamente lucros pessoais. Por ganância, correm riscos que colocam em perigo a estabilidade financeira dos que neles depositaram confiança. Especulam e desenvolvem esquemas enganosos para se locupletarem com lucros conseguidos com o máximo de rapidez e o mínimo de lisura.
Nos tribunais, destinados a aplicar as leis com justiça e equidade, a coisas descambam tantas vezes para processos de duvidosa isenção, que suscitam uma enorme e por vezes fundada desconfiança.
Ao nível das mais variadas acções profissionais, sobretudo das de maior incidência social, têm vindo a crescer os sinais de descontentamento, insatisfação e degradação dos serviços produzidos.
Multiplicaram-se os serviços de saúde, mas as relações entre os profissionais que neles actuam e os utentes não parecem ter melhorado na mesma progressão. Muitas vezes parece ter acontecido uma lamentável desumanização em que apenas a doença é considerada, esquecendo o que devia merecer a sua maior preocupação. Os médicos têm vindo a refugiar-se cada vez mais no tecnicismo das especializações, esquecendo tantas vezes o doente para cuidar apenas da parte da doença que fica no âmbito da sua especialização.
Os professores aferram-se de tal modo na defesa corporativa dos seus direitos que acabam por cair numa concepção tão funcionária do seu estatuto, que fica quase desvanecido o carácter eminentemente social da sua profissão.
Os jornalistas, em tempos idos arautos da verdade, campeões das liberdades, defensores de direitos e denunciantes de injustiças e duvidosas situações, enfronham-se de tal modo num escarafunchar de escândalos a que chamam investigação, que muitas vezes esquecem a sua função de noticiar e explicar os factos para se tornarem apenas emissores de simples opiniões pessoais.
Para além da situação financeira e da conjuntura económica e talvez como pano de fundo e provável causa, há uma crise mais profunda que consiste na galopante degradação moral em todos os sectores da nossa sociedade. Talvez esteja a chegar o tempo de voltarmos a fazer como, noutro tempo de crise profunda, fez Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América: Um New Deal. Ou seja, perdido este jogo, é tempo de baralhar as cartas, distribuí-las de novo para que um novo jogo possa começar.
  

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publicado às 12:51


OBAMOMANIA OU A URGÊNCIA DE MANTER VIVA A ESPERANÇA?

por Francisco Galego, em 06.02.09

 

Obama vai defrontar-se com o dilema que o coloca perante a opção, que frequentemente terá de fazer, entre a vontade de agir e a contingência que lhe condicionará as decisões a tomar.
A sua brilhante ascensão até à presidência dos EUA fez-se pela união de todas as minorias que ele soube amalgamar na maioria que lhe serviu de ponto de apoio para conseguir a eleição como mais alto magistrado da mais forte e mais influente potência a nível mundial.
Convirá que esse apoio persista, em nome de uma visão realista das condições em que o novo presidente terá de tomar as suas decisões. Se em nome da pureza de certos princípios que venham a considerar defraudados, adiados ou posto de lado, lhe retirarem a confiança e lhe cobrarem impacientemente promessas que, por mais justas e por mais desejadas que sejam, não são ainda concretizáveis, maior se tornará a dificuldade que ele terá para enfrentar e resolver os problemas e as crises que a desastrosa administração Bush lhe deixou como herança.
Politicamente falando, a defesa intransigente e apressada da consecução dos objectivos e o apego excessivo à pureza das causas, exigindo decisões imediatas e radicais que as circunstâncias não permitem, tornam-se no principal obstáculo para que possam vir a ser tomadas, no momento mais acertado, as decisões que estão em concordância com os objectivos que foram traçados.
A política que o novo presidente dos EUA irá desenvolver parte da convergência de muitos anseios, perspectivas e vontades que se encontraram no projecto de apoio à sua candidatura. Mas, nunca poderá, em absoluto, ser a realização total e perfeita de cada uma delas. A atitude mais adequada e mais conveniente, consistirá em analisar se, da sua acção política, resulta ou não o caminhar em direcção aos grandes objectivos, com a flexibilidade necessária, para que não fique comprometida a possibilidade da sua consecução com o mínimo de conflitos, de desgastes e de sobressaltos.
Nas suas intervenções como presidente eleito, Barack Hussein Obama foi dando sinais de quais são os projectos de mudança que considera prioritários para enfrentar os tempos difíceis que se lhe vão deparar no início da sua governação. Evoca mesmo a necessidade de uma nova “nova declaração da independência” querendo significar que o projecto a desenvolver é tão essencial que, na sua essência, significa uma nova fundação da nação americana, convocando os seus concidadãos para que se disponibilizem para que abandonem atitudes de egocentrismo, de preconceitos discriminatórios que têm caracterizado o modo de vida americano, em determinados estratos, comunidades e regiões da sociedade estadonidense.
Numa declaração proferida em Filadélfia, pouco antes da tomada de posse, referiu as linhas gerais da conjuntura em que vai assumir o poder começando por afirmar: “Raras vezes na nossa história, uma geração se viu confrontada com tão importantes desafios”, explicitando depois que a economia se encontra em profunda recessão, enfrentando simultaneamente duas guerras, que o planeta está sujeito a um galopante e perigoso aquecimento global devido à tremenda dependência do petróleo e a braços com uma crise global, com múltiplas tensões e conflitos abertos em diversas regiões do mundo. Tudo isto exigindo uma acção rápida e decisiva da parte da diplomacia dos Estados Unidos.
No fundo, Obama tem plena consciência que é preciso voltar ao verdadeiro conceito de democracia expresso por Abraham Lincoln: “A democracia é o governo do povo pelo povo”. Frase de uma extrema simplicidade que, como todas as coisas verdadeiramente simples, encerra uma grande verdade, pois o fundamento da democracia é, desde os seus pais fundadores, os iluministas liberais do século XVIII, o principio de que a soberania deve pertencer ao povo.
Ora, esta verdade que para alguns parece tão evidente, tem andado muito afastada do que deve ser a concepção do poder político em democracia. Pois que, sendo o povo o detentor legítimo da soberania, deveriam os que ele elege para governarem, ter apenas em conta os interesses desse mesmo povo. Ora, na maior parte dos casos, assistimos à inversa situação de ver o povo tão submetido à vontade e aos interesses dos que exercem os cargos políticos, que são eleitos os que, não tendo competência, nem, carácter, nem honra nem escrúpulos, governam mais para se servirem, do que para servirem segundo as necessidades do povo que os elegeu.
Algo vai mal neste sistema a que continuamos a chamar democracia. Talvez porque a democracia tem vindo a ser substituída por um conjunto de formalidades que muito pouco terão a ver com a verdadeira democracia. Talvez porque a democracia só pode funcionar correctamente quando o povo é constituído por verdadeiros cidadãos. Ou seja, por homens e mulheres conscientes dos seus direitos e dos seus deveres, capazes de entenderem claramente que é importante terem atenção na escolha dos mais competentes e dos mais capazes de agirem em proveito do bem comum.
No fundo, muitos dos que apoiaram Obama projectaram nele a esperança de verem renascer a possibilidade de restituir ao povo a consciência da sua soberania. Sem isso, que futuro poderá existir para os próprios regimes que se reivindicam dos ideais democráticos?
Permitam-me que termine este texto com este excerto do “Caderno de Saramago” do passado dia 20:
“Barack Obama, no seu discurso, deu-nos razões (as razões) para que não nos deixemos enganar. O mundo pode ser melhor do que isto a que parecemos ter sido condenados. No fundo, o que Obama nos veio dizer é que outro mundo é possível. Muitos de nós já o vínhamos dizendo há muito. Talvez a ocasião seja boa para que tentemos pôr-nos de acordo sobre o modo e a maneira. Para começar.”
Para já, nas primeiras decisões que tem vindo a tomar, o presidente Obama tem ido ao encontro das expectativas e esperanças nele depositadas.

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publicado às 19:48


Pacheco Pereira admite cabala do PSD e CDS em 2005

por Francisco Galego, em 01.02.09

 

 
 
            No seu blogue “Abrupto”, José Pacheco Pereira ao pronuncia-se sobre o Freeport vem a admitir o que está hoje perfeitamente provado, ou seja, que o primeiro-ministro foi vítima em 2005, de uma, no seu dizer, “campanhazita negra”, com “origem nuns imbecis do meu partido e do PP, a brincar a coisas sérias”, acrescentando que “foi obra de amadores tão grosseira que tinha rabos-de-palha de fora e foi denunciada por muito boa gente do PSD na altura”.
            Em 2005 José Sócrates acusou Santana Lopes de, com a cumplicidade de elementos do CDC-PP, serem os mentores das notícias sobre o caso Freeport e das insinuações sobre a sua sexualidade, para o desacreditarem pessoal e politicamente em ano de eleições. Pacheco Pereira foi então dos que mais alto protestou, juntando-se ao coro dos que gritaram contra a “teoria da conspiração e da cabala” acusando Sócrates de se estar a vitimizar para daí tirar vantagem nas eleições que se iam realizar. Ou seja, inverteu descaradamente o argumento para tornar culpado quem efectivamente estava a ser atacado.
            Pacheco Pereira volta a assumir agora posição semelhante argumentando que entende que as “campanhas negras” e os poderes ocultos de que fala o líder do governo são uma ficção, pois que o que verdadeiramente está agora em jogo “é algo de mais grave e nada oculto”.
            É natural que sim. Afinal os conspiradores também aprendem com os seus erros e, em vez de uma “Campanhazita negra”, apresentem agora obra de maior vulto e muito melhor estruturada. Quem parece que não aprendeu muito com a tentativa anterior foi Pacheco Pereira, porque não acompanhou a evolução dos ditos conspiradores e volta a utilizar exactamente os mesmos argumentos.
 

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publicado às 18:33


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