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A CRISE DE TODOS NÓS

por Francisco Galego, em 04.12.08

 

Os que tendem a assobiar para o lado e fingir que nada têm a ver com os problemas que, em geral, se estão a deparar à nossa sociedade, devem estar a pensar neste momento que esta questão da crise global não passa de um alarmismo sem fundamento, descabido, que vai passar, sem que venhamos a dar pelos seus efeitos.
Bom seria que assim fosse, mas, infelizmente, tudo aponta para que, desta vez, as coisas não se irão passar assim. A situação é grave e, até agora, os seus efeitos apenas começaram a manifestar-se. Mas, para quem esteja atento, esses efeitos são já evidentes.
Os jornais começaram a noticiar factos, dados e situações a que se torna necessário prestar toda a atenção possível Aliás, há já muita gente atenta a estes problemas. Veja-se como certos gastos com coisas que não são de necessidade imediata nem imprescindíveis, que não têm carácter de urgência, estão a ser evitados, reflectindo-se, por exemplo, na queda dos níveis de vendas de casas, dos automóveis e, mesmo, no vestuário. O recurso ao crédito retraiu-se. Prudentemente, as famílias reservam os seus recursos para os meios essenciais de sustentação, procurando garantir as suas necessidades básicas.
A nível político, os responsáveis tomam as devidas providências procurando antecipar soluções que respondam aos problemas que se avizinham. Os jornais da semana passada anunciavam que o Partido Socialista, suporte político e parlamentar do actual governo, apresentou ao Parlamento uma proposta de autorização para que o orçamento de Estado possa subir até 30% os limites do seu endividamento. Esta medida, absolutamente necessária, porque inevitável face aos problemas impostos pela crise financeira – veja-se o caso concreto do Banco Português de Negócios que o governo teve que nacionalizar e dos encargos que daí advêm – terá efeitos que irão cair sobre as condições de vida de todos nós.
Os efeitos da crise financeira estão a alastrar a toda a economia e irão atingir todos os sectores da sociedade, com maior magnitude e efeitos mais desastrosos para os que são economicamente mais desfavorecidos. Haverá menos recursos para a saúde, para a segurança social, para a educação e estes são sectores fundamentais para os que dispõe de menores recursos, porque, os mais ricos terão os meios necessários para colmatarem as deficiências do Estado.
Perante esta situação, será responsabilidade do governo reprimir os excessos controlando as despesas a nível da administração central e local, procedendo a uma política rigorosa de lançamento e cobrança dos impostos, criando condições de investimento em obras públicas que, ao mesmo tempo que contribuem para a sustentação do emprego, criarão, se criteriosamente seleccionadas, condições de produção e de circulação dos recursos.
A nível da administração local, a tarefa não vai ser fácil se atendermos ao despesismo de muitos autarcas, habituados mais aos gastos supérfluos do que aos investimentos em benefícios sociais ou em projectos promotores de desenvolvimento económico. Esta situação tende sempre a agravar-se quando, como agora, estamos à beira de eleições.
No que respeita ao poder local, os partidos têm uma pesada responsabilidade porque, além da escolha ponderada dos candidatos aos órgãos da gestão, de forma a garantir a eleição dos mais aptos e competentes, devem desenvolver uma acção pedagógica de esclarecimento, de explicação dos programas eleitorais e de denúncia de abusos e desvios cometidos pelos anteriores detentores dos cargos autárquicos. O populismo, de tão nefastas consequências, deve ser evitado e denunciado. Estamos a atravessar tempos que exigem clarividência de ideias, clarificação de intenções e aberta justificação das acções realizadas ou a realizar.
As dificuldades inerentes a estes tempos de crise, exige que tenhamos cuidados redobrados na busca de soluções. A manutenção de situações instaladas pode vir a tornar-se trágica para as populações. Em muitas autarquias prevaleceu a filosofia de vida da leviana cigarra que se desgarrou em cantorias sem cuidar de acautelar, como a diligente formiga, o sustento para o tempo difícil que estava para chegar.
Os recursos financeiros foram malbaratados em actividades que apenas procuravam a satisfação imediata das vontades de diversão e a garantia do voto favorável dos que estavam instalados nos cargos de decisão. Mas, com isso foram sacrificadas as reais necessidades das populações. Cantorias e obras de fachada não servem para resolverem os problemas nos tempos de crise que vamos viver.
Se a responsabilidade social deve estar sempre presente nos actos políticos, essa responsabilidade aumenta em tempos de crise porque escasseiam os recursos para resolver os problemas gravíssimos que essa situação provoca e, nessa situação, são sempre os mais pobres, os mais velhos e os mais carenciados os que sofrem mais fortemente os efeitos das crises.
Quanto maior for o grau de consciência que tenhamos dos problemas reais da sociedade, maior é a nossa responsabilidade e esta obriga-nos a estarmos atentos e a esclarecer, na medida do possível, os que, por desconhecimento ou por menos atenção, possam não estar suficientemente despertos para a necessidade de todos contribuirmos para que sejam encontrados os mais aptos e mais competentes para estarem nos lugares onde devem ser tomadas as mais importantes decisões.
Ao contrário do que alguns possam pensar, não adianta fingir que nada temos a ver com esta situação. Quanto menos quisermos saber sobre os problemas que nos estão a atingir, mais mal preparados estaremos para os resolver e mais fortemente seremos atingidos pelas suas consequências.

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publicado às 12:03


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