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UMA ESPERANÇA CHAMADA OBAMA

por Francisco Galego, em 18.11.08

 

Quando eu leccionava História a turmas do 12º segundo ano, tinha de conduzir os alunos à análise das questões raciais no mundo com incidência especial no que se estava a passar, desde meados do século XX, nos Estados Unidos da América (USA). Relacionando certos factos e tendência, costumava dizer-lhes que me parecia evidente e inevitável que, dentro de poucos anos, um americano negro iria chegar à presidência. Eu dizia negro porque, partindo do princípio que as palavras têm um significado, este só pode variar se mudarmos a intencionalidade com que as utilizamos. Como eu nunca tive preconceitos racistas, negro designa apenas o tom da pele e nada mais do que isso. Tal termo nunca teve para mim e julgo que jamais terá qualquer intenção pejorativa. Não tenho portanto que cuidar de usar termos ditos “politicamente correctos”. Deixo-os para aqueles que, efectivamente, os usam mais com uma intenção de politiqueira conveniência, do que com uma preocupação de bem-intencionada correcção. Esses que usem termos como “afro-americano” e outros do mesmo jaez.
            O meu vaticínio, aliás fácil de antecipar para quem estudasse um pouco a evolução daquela sociedade nas últimas décadas, está concretizado: Um descendente de africanos conseguiu ser eleito presidente da nação considerada como a mais poderosa do mundo. A luta começou de modo mais aceso e decidido nos anos 50 do século passado, com a conquista dos direitos mais elementares como o de os negros poderem sentar-se nos mesmos lugares que os brancos nos transportes públicos, de frequentarem as mesmas escolas, as mesmas igrejas, de terem acesso aos mesmos espaços públicos e empregos, o direito de poderem votar e de serem candidatos aos mesmos cargos, enfim a tudo o que a constituição democrática americana, a mais antiga do mundo, teoricamente lhes concedia, mas que a realidade prática do dia-a-dia lhes negava.
            Essa luta atingiu agora um ponto culminante quando Obama foi eleito presidente para assumir a mais alta magistratura do país que é o seu, de pleno direito, que é a sua pátria, a sua terra, o seu povo, a sua nação.
            É nestas alturas que os Estados Unidos da América justificam o título, que por direito lhes pertence, de serem o estado democrático mais antigo do mundo moderno e aquele onde os direitos cívicos estão há mais tempo consignados na sua lei fundamental que é a Constituição. Isto apesar de todos os desvios, atropelos e distorções porque tenham passado e continuem a passar, ao longo da sua história.
            Basta constatar o oceano de esperanças e de vontades que se reuniu à volta da sua candidatura para se ter uma ideia da importância que se consubstancia no acto da sua eleição. Alguns já lhe chamaram Presidente-Messias, significando apropriadamente esse mar de esperança e o atingir de uma meta que realiza a justa aspiração de várias gerações que se comprometeram até ao âmago na luta pelos seus direitos enquanto cidadãos.
            Pesado fardo assenta sobre os ombros do cidadão Barak Obama. Mas, independentemente do que possa vir a realizar e a conseguir, a América já atingiu uma vitória que nada nem ninguém lhe poderá, a partir de agora, negar: a existência de uma real igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos, apesar de todos os preconceitos, conflitos e contradições que atravessam a sociedade americana. Obama, um “afro-americano”, como gostam de dizer os “politicamente correctos”, conseguiu o direito de ocupar um dos cargos que conferem maior poder e influência em todo o planeta. E, isto constituiu, a nível simbólico, um marco de significativa importância histórica.
            Para além desta importância simbólica, a sua eleição representa muito mais do que isso para o actual momento que se vive nos Estados Unidos e no Mundo. Ele foi eleito na expectativa de uma mudança real que afaste os problemas que geraram uma das crises mais graves, mais generalizadas e mais preocupantes que o mundo teve de enfrentar nos últimos cinquenta anos.
            Os americanos esperam do governo, que ele irá constituir e liderar, uma mudança substantiva. A falência do capitalismo liberal pouco regulado foi confessadamente reconhecida pelos seus mais importantes mentores. Os estados necessitam de encontrar novos modelos e rápidas soluções sob pena de caminharem para o colapso generalizado das economias e das sociedades. Esta espécie de “capitalismo de casino”, como é muitas vezes designado o modelo que arrastou o mundo para esta crise, exige o regresso a soluções políticas muito atentas às necessidades das populações. Obama foi eleito por encarnar a esperança de um estilo alternativo de governação que, mais atento aos problemas da população americana, seja também mais empenhado nas questões que garantam a paz, a tranquilidade nas relações internacionais, tendo como objectivo a realização das condições que tornem o mundo melhor e mais humanizado.
            Será certamente peso demasiado para colocar sobre os ombros de um único homem, transformado, por força das circunstâncias, no profeta de tantas aspirações, de quem se espera a solução de tantos, tão grandes e tão desencontrados desejos. Mas, enquanto não vem a realidade nua e crua do possível, ele continuará a polarizar todas as esperanças. A sua campanha foi uma imensa caminhada para a esperança bem expressa no “Nós podemos!”, uma esperança que, com a sua vitória, se tornou na certeza do pretérito perfeito “Nós pudemos!”, raiz de uma nova etapa, começo de um futuro que, esperamos, comece a partir de agora.
 

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publicado às 11:34


VELHOS CONCEITOS - NOVAS REALIDADES

por Francisco Galego, em 07.11.08

 

 
Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, no recente encontro com o presidente dos Estados Unidos, expressou a convicção de que a crise que está a alastrar pelo mundo, torna necessário o estabelecimento de uma “nova ordem económica mundial”, que deve ser orientada pelos princípios democráticos fundamentais: justiça, liberdade, igualdade e solidariedade.
 
A democracia nasceu fundada sobre três conceitos fundamentais que constituem os pilares em que assenta, por natureza, toda a sua legitimidade e estruturação:
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE.
 
  1. Destes conceitos deriva o direito de todos verem garantida legalmente a sua condição de cidadãos, ou seja, de todos serem considerados livres e iguais perante a lei, o direito à igualdade de oportunidades e, em contrapartida, a responsabilidade de cada um de nós se sentir fraternalmente ligado aos outros por laços que nos obrigam a ter consciência de que os nossos direitos e liberdades terminam no momento em que interfiram e limitem os direitos e liberdades dos outros. Isto que, para alguns, podem parecer conceitos demasiado abstractos, para outros, lugares comuns que não necessitam de ser enunciados, são valores e princípios que, por não estarem ainda bem consensualizados, tornam tão imperfeito o funcionamento da nossa sociedade de base democrática. Estas ideias que desde há muito vinham a ser desenvolvidas pela Filosofia das Luzes, pelos pensadores ditos iluministas que, com base na crença numa Razão Universal, recuperavam princípios estabelecidos por Cristo como base de uma nova ética e concepção da humanidade. Esses princípios proclamavam o direito dos homens à liberdade, à igualdade e à fraternidade, contra todas as tiranias, todas as exclusões, marginalizações e diferenças de condição.
 
  1. Foi no final do século XVIII que se constituíram os primeiros estados de base democrática. Primeiro, no outro lado do Atlântico, na América do Norte, os ingleses que tinham fugido às perseguições políticas e religiosas que lhes moviam no seu país de origem, fundaram no Novo Mundo um conjunto de treze colónias. Nestas foram constituídas comunidades baseadas no direito à liberdade de convicções e na igualdade de direitos dos seus elementos. Proclamaram a independência em 1776 e, após uma guerra que durou de 1775 a 1783, contra a Inglaterra, potência colonizadora, constituíram o primeiro modelo de estado democrático moderno.
Quase em simultâneo, em França, uma revolução começada em 1789, destruiu o estado absolutista e provocou o começo do desmoronamento da chamada Sociedade de Antigo Regime dando início a um novo período da história da humanidade: a Idade Contemporânea.
 
  1. A sociedade de base democrática só se pode instituir em sociedades avançadas, que tenham atingido um determinado grau de desenvolvimento que possibilite garantir o bem-estar e as condições fundamentais de subsistência. Por isso, não existem ainda sociedades democráticas perfeitas mas apenas situações mais ou menos próximas de um modelo perfeito de democracia. Daqui decorre que a democracia, mais do que um modelo de organização política do Estado ou do que uma ideologia, é um estádio da civilização, que se vai gerando e aperfeiçoando no desenrolar do processo histórico, na procura de soluções cada vez mais adequadas às necessidades da Humanidade. Porque não é um modelo de organização política, nem uma ideologia, a convicção democrática não é exclusiva de apenas alguns partidos. Todos os que agem com clareza de intenções e de processos, desenvolvendo acções legitimadas, movidos pelo interesse de todos, procurando realizar serviço público em favor de todos os elementos da população, todos estes, têm o direito de ocupar o seu lugar na vida política, participando, na medida das suas capacidades e disponibilidades, na construção do bem comum.
 
  1. A sociedade democrática é uma sociedade integradora, não repressiva, que evita, tanto quanto possível, recorrer a métodos de exclusão. E isso que constitui uma das suas maiores virtudes, torna-se muitas vezes o seu maior ponto de fraqueza. Há os que se aproveitam das liberdades democráticas para se instalarem nos cargos políticos, para constituírem grupos de influência e de interesses (lobbyes), escondidas cumplicidades e imoralidades, secretos esquemas de negociatas, de tráfico de favores, criando uma situação de generalizada promiscuidade que favoreça os seus objectivos pessoais.
A democracia como sistema aberto e permissivo que é, por condição, possibilita a emergência destes oportunistas. Mas, o seu contraposto, são os sistemas não democráticos. Estes colocam no poder os que têm como projecto político esmagar liberdades, direitos e garantias para imporem a sua vontade.
Qual é, portanto a solução? A solução é que os cidadãos assumam uma posição cívica mantendo-se atentos e participativos na vida colectiva. Que usem de forma adequada o poder do seu voto quando se trata de escolher os mais capazes. Que se oponham firmemente a todas as ilegalidades, abusos de poder e desmandos. Essa é a tarefa de todos nós, os que apreciamos viver com honestidade, paz, boa consciência, justiça e tranquilidade.
 
  1. Com a sua tolerância e concessão das mais amplas liberdades, mesmo para os que a não aceitam e a combatem, a democracia abre portas às mais diversas críticas e expõe-se a todos os tipos de ataques. Talvez por isso, desde a constituição dos primeiros estados democráticos, muitas têm sido as tentativas de destruição deste modelo civilizacional. Todas elas resultaram em grandes desastres, implicando grandes sofrimentos para os povos que tiveram de suportar as suas consequências. Todas essas tentativas resultaram em grandes retrocessos na evolução da humanidade.
 
Há no ideal democrático muito de saudável utopia. Por isso, a democracia como modelo ideal de sociedade tem persistido, pois que, apesar de todas as suas insuficiências, continua a ser o caminho mais adequado e mais justo para se caminhar na direcção dos princípios orientadores que lhe servem de base:
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE.
 

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publicado às 10:47


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