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por Francisco Galego, em 30.09.08

 

VELHOS TEMPOS – NOVOS TEMPOS
 
            Acontece com gente de todas as idades, mas, com mais frequência, com pessoas de uma idade algo avançada: reagem por preconceito contra "este tempo": “Ao que isto chegou!” Elogiam os tempos passados: “No meu tempo é que era bom!” Como se este tempo em que ainda vivem, não fosse também o seu próprio tempo. Com empolado saudosismo, concentram nesse outro tempo todas as virtudes, vendo no tempo presente o tempo de todos os males e defeitos.
            Tomemos, como exemplo, a violência geradora de insegurança, porque é ela que é, mais frequentemente, considerada como um dos males dos “tempos que correm”. Se as pessoas soubessem um pouco mais dos tempos passados, teriam mais cuidado com as suas lamentações. A violência é uma constante de todos os tempos e, quanto mais recuamos no tempo, maior é a violência que encontramos entre os humanos.
            Tomemos como exemplo o que acontecia no tempo dos nossos pais: Há pouco mais de cinquenta anos, com as ruas mal iluminadas, com o hábito de frequentar as tabernas onde as rixas acabavam, as mais das vezes, à navalhada, com a falta de policiamento que se verificava, principalmente nos povoados mais pequenos, as coisas corriam muito pior. Basta ter um mínimo de conhecimento histórico para o constatar.
            Outra razão de descontentamento e de lamentação com “esta pouca vergonha dos dias que correm” é o que acontece ao nível da política e dos políticos. Mas, há cinquenta anos atrás, como era? Como podem os mais idosos, de boa e justa consciência, achar que dantes era melhor?
            E as prisões arbitrárias, as ameaças contra os mais contestatários que se atreviam a denunciar as arbitrariedades? E a prepotência dos influentes, os únicos que a “lei e a ordem” verdadeiramente protegiam?
            Hoje todos se queixam dos políticos e da política, esquecendo que nos “belos velhos tempos” de outrora o mais inocente reparo ou reclamação podiam ser motivo para incómodos de graves consequências.
            Todos recriminam a política e os comportamentos dos políticos, esquecendo que somos nós, todos nós, que os escolhemos, conferindo-lhes os cargos de que eles usam e abusam, quando se instalam no poder. Sim, somos nós os únicos responsáveis: porque votamos sem critério ou porque não votamos, deixando aos outros a escolha que depois censuramos.
            Claro que é mais fácil dizer que “isto é tudo o mesmo”, que “todos vão para lá para se amanharem”. Quando, na verdade, em todos os tempos, houve bons e maus políticos. O que acontece é que, porque vivemos em democracia, todos eles alcançam o poder pela força do nosso voto. Por isso, temos de ter o cuidado de participar conscientemente na escolha do que nos parecer mais adequado ao interesse público. Se à partida nos abstemos de votar, estamos a ser cúmplices na eleição de maus políticos, porque aqueles que estão na política apenas para com ela se beneficiarem, aproveitam-se disso para se instalarem nos cargos públicos.
            Claro que não é fácil, porque, quanto piores são os políticos, mais tentam seduzir os eleitores com ilusórias esperanças e vãs promessas. Uma parte considerável dos políticos, para melhor se servirem do povo, juram ter como projecto "fazer a vontade do povo". Mas, consideram que o povo é uma massa uniforme e passiva de ignorantes que apenas se contenta com as "cócegas" que lhe façam para se divertir. Pensam eles: mais festinha menos festinha e o povinho fica contente. Assim, arranjam maneira de, por falsas promessas e muitas ilusões, convencer o povo a conceder-lhes o voto que lhes garanta o poder.
             Estes políticos têm uma concepção, "rasca" e oportunista da política. Na maioria dos casos, sendo ignorantes e incompetentes, servem-se da demagogia para manipular os menos esclarecidos. Porque a função básica da política consiste em agir para corresponder às necessidades, ao bem-estar e à segurança do povo. Mesmo que parte desse povo possa não aplaudir algumas das medidas tomadas, o bom político sabe que não governa para obter votos mas para servir o bem comum de todos os que votaram e não apenas dos que o elegeram.
            O que na verdade acontece é que, nos tempos que correm, temos um grande problema: estamos numa época de crise, como são todas as épocas de profunda e rápida transição. Há uma ausência muito grande de valores. Nestas condições, tendem a instalar-se os mais incompetentes, os mais ávidos de protagonismo e dos benefícios que os cargos políticos podem propiciar.
            Não há muito tempo, o Prof. Cavaco Silva, que agora desempenha as funções de Presidente da República, usava uma metáfora muito de acordo com a sua condição de economista. Dizia ele que em tempo de crise a “má moeda” tende a instalar-se, afastando a “boa moeda”, querendo assim significar que o mesmo se verifica com os políticos. Ora, a única maneira de combatermos esta tendência é intervirmos com o nosso voto a fim de evitar a escolha errada que leve o poder para as mãos dos que não nos podem governar com eficácia e com competência. E a melhor maneira de tal conseguir, não é desistir, porque senão instalam-se os que não servem para orientar as questões que a todos dizem respeito, os que agem da pior maneira, que é a de governar em seu próprio proveito e não seguindo o interesse de todos nós.
            Mas, muitas pessoas movem-se por interesses imediatos. Escolhem “politicozinhos” e não verdadeiros “POLITICOS”, com a missão, a vontade e a determinação de servir o povo. Os “politicozinhos” usam a demagogia, que sabem ser a forma mais fácil de manipular as pessoas. Não têm rumo, não têm princípios, nem têm projectos: pretendem servir-se e não servir. Manipulam para conseguir que o povo os eleja, dando-lhes a ilusão que escolhem de livre vontade. Entre as obras boas, porque necessárias, e as que servem apenas para ostentar, escolhem sempre as que garantem os votos. Porque estes demagogos não são movidos pelo bem público, mas apenas pelos seus mesquinhos interesses. Os “politicozinhos” escolhem sempre fazer o que melhor serve o seu principal objectivo: perpetuarem-se no poder. Prometem sem qualquer intenção de cumprir. Mentem, caluniam, difamam, gabando-se de que todos os meios se justificam para atingirem os fins que mais favoreçam os seus interesses e a sua vaidade.
            É esta a causa primeira de todas as inseguranças, a razão da maior parte das desgraças que atormentam a nossa sociedade.
            Como sair disto? Preparando as actuais e as novas gerações para que saibam decidir com discernimento e escolher o que mais lhes convém, em plena liberdade.
            O progresso constrói-se escolhendo os que garantam que se esforçarão por encontrar respostas para os novos problemas, as novas situações e novas realidades que se deparam à nossa sociedade.
             Dizia Lamartine, poeta e político francês do século XIX:
O governo constitucional (democrático) é dos melhores, mas tem de mau o primeiro século, no qual os povos não estão convenientemente educados e, como tal, pouco habilitados para conhecerem os especuladores políticos que pretendem ganhar posição, abusando assim da sua boa fé.
Hoje como ontem. Ora, nós, desse primeiro século que é o pior, cumprimos apenas um terço, pois a nossa democracia tem apenas 34 anos. Temos de apostar, principalmente, na educação, pois, como o outro diz: Povo pouco educado, dá eleitorado facilmente manipulado.
Escreveu Manuel Mª Carrilho no Diário de Notícias de 13/9/2008: “…porque onde não há conhecimento, domina a ignorância. E o cocktail de poder com ignorância – que tem sido frequentemente servido em Portugal – é sempre, como Maquiavel sabiamente sublinhou, o mais fatal de todos, seja qual for a época ou o país em que ocorra.” De facto, o preconceito e a ignorância são a raiz de todos os males. Porque onde não há conhecimento e se instala a ignorância no poder, são sempre tomadas as piores decisões, propagandeadas e justificadas pelas piores razões.
Voltando à questão da “boa e da má moeda”. Existe moeda falsa e moeda de confiança em todos os partidos e em todas as ideologias. Basta apenas estar atento para se escolher o que, em consciência, nos parecer melhor.
                                                                      

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publicado às 16:35

 

           
 
Manifestei, por várias vezes, que uma das minhas principais intenções é a de levar até aos leitores o conhecimento de textos deste escritor campomaiorense que, para além de outras razões igualmente importantes, constituem preciosos documentos sobre o passado de Campo Maior.
Desta vez trago ao vosso conhecimento um texto que João Dubraz publicou na página 2 do nº 208 do jornal elvense A Democracia, em 14 de Setembro de 1876.
Este texto, não assinado, é o primeiro de uma série de artigos em que o autor sob o título de Carteira de um Viajante – Campo Maior, ficciona uma viagem com partida de Elvas tendo como destino a vila de Campo Maior. Neste primeiro artigo, é feita uma pormenorizada descrição dos arredores da cidade de Elvas. Um observador colocado no Forte da Graça, descreve o horizonte que se desdobra em seu redor. O que ele vai descrevendo é mais do que a vista pode alcançar: é o que o observador sabe que lá existe, mesmo além do alcance da sua visão. Mais do que observação, trata-se de uma descrição em cada lugar é nomeado, localizado e caracterizado com toda a precisão. No fundo, um guia ou roteiro que se coloca à disposição de quem queira obter conhecimento vasto e seguro desta região.
 Aqui fica o texto com uma sugestão: experimente o leitor subir ao Forte da Graça, de preferência equipado com binóculos e em dia de clara visão e ponha-se a observar seguindo as orientações do texto. Terá assim uma dupla lição, pois poderá perceber como as coisas eram há cento e cinquenta anos e quais foram as mudanças que, desde então se verificaram de Elvas.
Mas, ainda que não se disponha a fazer este passeio, o texto apresenta uma espantosa descrição que pode dar uma ideia interessante dos arredores desta cidade.
Ao contrário do que costumo fazer, hoje publico o texto com pequenas actualizações, ou seja, quase como o autor o escreveu e publicou.
 
            “Não se há-de arrepender, em verdade, alguém que não passe indiferente às belezas que o cercam se, procurando distracções e encantos à vista, ascender ao alto da serra de Nossa Senhora da Graça, entrar na fortaleza e, depois de ver o que ali há digno de ser visto, sair de novo, quando o Sol esteja a hora e meia do seu ocaso e percorrer as fortificações armado de um binóculo, por dentro da estrada coberta, se lhe for possível, ou pela vereda que serpeia em torno da fortaleza, se por outro modo não puderem encurtar o passeio. Há-de extasiar-se por mais de uma vez diante dos magníficos panoramas que a natureza desdobra, desde o olivedo que se lhe atapeta aos pés, até aos extremos longínquos do horizonte.
            Os plainos extensos da fronteira do reino, em que se destaca Badajoz, com a sua ponte de cantaria, o velho castelo, Santo Agostinho, a torre da Sé, o quartel de S. Francisco, ficando-lhe de fora, a uma banda, o forte de S. Cristóvão e a estação do caminho-de-ferro, como jardim no meio daquela aridez. E, a outra banda, o forte de S. Roque. Sobre o fundo, aquém da escarpada serra Machiel que parece desafiar novos titãs a escalar o céu, quatro povoações pequenas como que fazendo o cortejo à capital da Extremadura. Desde a ponte de Badajoz, o Guadiana, desenrolando as águas como fita de prata, reflectindo o raios do Sol. Mais além, um extenso ramo de vinhas, interrompido apenas na sua verdura por centenares de casais. Mais aquém o pão dourado pelo sol de Julho, as quintas pitorescas das duas albufeiras e os montes alvejando, como flocos de neve, espalhados por vales e cabeços.
            Ao longe, as serras de Albuera, testemunhas de uma das maiores batalhas que se têm ferido na Península. Valverde agrupado em torno da sua igreja.
            A serra de Olor, que serviu, até à entrada deste século, para traçar os limites de além Guadiana nesta parte, em cujos cabeços se eleva corpulenta a Torre de Almendral.
            Aquém da serra, Olivença, meio escondida por detrás de uma ruga do terreno, como que envergonhada de se ter naturalizado estrangeira e uma das aldeias que seguiram a mesma sorte de Olivença, obedecendo hoje à soberania de Afonso XII.
            São estes os pontos capitais do quadro mais pitoresco que a natureza e o homem têm produzido nestes arredores. Aqui, toda a atenção do observador se fixa na cidade de Elvas, encimada pelo seu castelo torreado, em que se observam, como espécimen arqueológico, as diferentes fases da arquitectura militar, desde as quadrelas de taipa do tempo dos mouros, até às torres de granito d’El Rei D. João II e, servindo-lhe de pedestal, a fortificação abaluartada d’El Rei D. João IV.
            Interpõe-se, dividindo Elvas do forte em que o observador está colocado, a ribeira do Ceto, em que, por meio de basto e vário arvoredo, sobressaem, uns após outros, os inúmeros casais prolongando-se, em ambas as margens, por cerca de dois quilómetros. Da direita da cidade parte, vencendo a profundeza dos vales em grandiosa arcaria, o aqueduto da Amoreira que vai perder-se na espessura dos olivais, deixando à sua esquerda a Piedade com a sua beleza e, à direita, S. Francisco com os seus ciprestes funerais. Por trás do aqueduto descobrem-se as duas eminências conhecidas por serra do Falcato e serra da Fortaleza. Uma escurecida de mato, outra escalvada e nua. Entre ambas, lá muito ao longe, confundindo-se quase no azul de um diáfano horizonte, o castelo de Monsaraz em alto monte, domina uma planície extensíssima. E as ruínas de Juromenha Velha, com alguma casaria de Juromenha Nova, parece que descansam na serra da Fortaleza, na sua vertente esquerda.
            Então, começa a encurtar-se o horizonte pelos altos do Rego e de Vila Boim, serra do Bispo e Assomada, sobressaindo do meio de um bosque de olivedo e azinhal, as aldeias do risonho Varche, a sua igreja de S. Brás, S. Lourenço das Vinhas, a Aldeia da Calçadinha e, muito próxima, a ermida de S. Jorge, o padrão das Linhas de Elvas e a aldeia do Vedor, nascida no século passado aquando da fundação do forte, em torno do qual o observador vai descrevendo uma circunferência quase perfeita.
            Sucede-se, a menos de tiro de canhão, a serra da Malefa, pedregosa, inóspita, em cuja esplanada, entre rochedos pode ver ainda hoje quem a ela for, os sinais de uma das plataformas em que o general Galluzo colocou a sua artilharia assestada contra o forte da Graça em 1808.
            Percorrendo a vista para a direita, deparam-se-nos as quintas de S. João, a das Longas, a de Rio Torto que ficam a uns seis a oito quilómetros. Mais além, a aldeia de Santa Eulália e, no horizonte, abrangendo uma larga linha recortada, Portalegre com as torres altas da sua sé, ao pé do pico da Senhora da Penha e a alta serra de S. Mamede, uma das mais elevadas do Alentejo, prolongando-se ininterruptamente até à de Albuquerque, num píncaro da qual se pendura esta povoação. Por último, a aldeia de Degolados e Campo Maior de que apenas se pode distinguir, a descoberto, a igreja de S. João a um extremo e, S. Francisco e S. Sebastião a outro, com os campanários da Matriz ao meio e, por trás as torres enegrecidas do castelo da vila.
            Do ponto em que está assentado Campo Maior, ao que o observador tomou por ponto de partida, encontra-se ainda afogueada pelos últimos raios de luz que o sol dardeja ao extinguir-se no horizonte, a ampla extensão das Fontainhas, sobre a via férrea de Leste e o pitoresco montinho das Choças, cercado de algum arvoredo, que o faz assemelhar a um jardim no meio da herdades.”

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publicado às 18:18

 

Tenho vindo, por consecutivas tentativas, a procurar dar uma amostra, necessariamente modesta, do valor literário e documental da obra de João Dubraz, escritor Campomaiorense do século XIX. Porém, julgo também de algum interesse dar a conhecer alguns aspectos mais significativos da vida do escritor.
Tenho a consciência plena de que este tema despertará muito fraco interesse, para grande parte dos leitores deste jornal. Mas, como, em contrapartida, alguns me têm manifestado entusiasmo pelas crónicas que tenho vindo a publicar, sinto-me na obrigação de corresponder aos que me dizem que gostavam de saber um pouco mais sobre esta questão.
Saber mais sobre o homem, torna-se bastante difícil porque, por um lado, ele foi muito parco a falar de si e da sua família; por outro, no seu tempo havia muito pouco quem pudesse escrever sobre um indivíduo que, ainda para mais, tendia a criticar os usos e costumes dos seus contemporâneos, na esperança utópica de assim contribuir para que eles se tornassem mais reflexivos, melhorassem os seus comportamentos cívicos, e as suas atitudes sociais.
No que respeita à sua família, tenho recolhido algumas informações de que já dei conta na crónica anterior. Muito recentemente, o Dr. Rui Vieira, correspondendo com amizade a um meu pedido, desencantou no Arquivo Distrital de Portalegre, um documento do cartório notarial de Campo Maior, Caixa 22, Livro 20, folhas 4 vº - 6, uma escritura de composição e partilha amigável que entre si fazem João Francisco Dubraz, sua mulher Ana Cândida Félix Dubraz, António Francisco Dubraz e Ana Rita Dubraz, todos de maior idade, moradores desta vila de Campo Maior, cuja partilha fazem dos bens do casal de seus falecidos pais Francisco Gonçalves Braz e Isabel Teodora de Vidal.
Por esta escritura ficamos a saber que João Dubraz tinha um irmão e uma irmã, ao que parece, ambos solteiros, devido a não serem acompanhados de cônjuges no referido acto. Podemos, mais uma vez, constatar que o nome Dubraz que adoptou como escritor, se tornou patrónimo de toda a família porque, mesmo o pai, que aqui ainda aparece referido como Francisco Gonçalves Brás, mais tarde, como já sabemos, aparece referido como Francisco Gonçalves Dubraz no assento de óbito do escritor.
Podemos também notar que as origens de João Dubraz foram relativamente modestas. Filho de um comerciante que amealhou alguns bens de fortuna, a mãe, bem como uma sua irmã, como ele próprio testemunhou nas suas Memórias …, não sabiam ler nem escrever. O facto de a mãe, ao contrário da mulher de Dubraz que já se situava noutra posição social, não ter adoptado o nome do marido, aponta também para uma condição relativamente modesta ou de fraco reconhecimento social.
A escritura está datada de 22 de Março de 1862, permitindo calcular que a morte do pai teria acontecido algum tempo antes, pois que, pela leitura da Memórias Contemporâneas, sabemos que sua mãe morrera em 15 de Agosto de 1858. A assinatura da dita escritura decorreu na residência de João Dubraz, na Rua da Misericórdia, onde seus sogros tinham residido e tiveram estabelecimento de comércio.
            Os bens patrimoniais referidos na escritura são:
João Francisco Dubraz, com assentimento de seus irmãos, toma posse plena e absoluta das três propriedades seguintes que eram de seus pais:
- uma morada de casas sita no Largo da Misericórdia (Terreiro) … compreende um pavimento térreo e dois andares superiores;
- um farrageal de oito alqueires de terra, ou seja, oito mil setecentos e doze centiares, sito em Vale de Elvas;
- um farrageal de cinco alqueires de terra, ou seja, cinco mil quatrocentos e quarenta e cinco centiares, junto às terras ditas do Forte (local do actual estádio de futebol) ;
Ana Rita Dubraz aceita de seus irmãos, como legítima paterna e materna, toda a mobília e roupas de casa de seus pais e seis sortes de terra na Defesa de S. Pedro;
António Francisco Dubraz toma a seu cargo todas as dividas do casal de seus falecidos pais, sustentará como seus que são doravante todos os compromissos, direitos e acções que pertenciam aos três herdeiros … para amortizar as aludidas dividas e liquidar a sua herança paterna e materna, os restantes bens móveis e imóveis do casal que ficam desde já sua propriedade. Obriga-se também a libertar, dentro de um prazo razoável, as propriedades que couberam a João Francisco Dubraz, as quais estão hipotecadas por dívidas que, segundo as condições deste contrato, ele António Francisco Dubraz aceita e reconhece como suas.
 
Apesar de não estarem declarados os bens móveis e imóveis que constituíram a herança que coube a António Francisco Dubraz (entre os quais estariam os que integravam o estabelecimento comercial que a família possuía no Terreiro), fica-se com a impressão de que os bens patrimoniais seriam razoavelmente avultados. Contudo, as dívidas e hipotecas referidas, parecem denunciar algumas dificuldades na fase final da existência paterna.
No mesmo Arquivo Distrital de Portalegre encontram-se várias outras escrituras de compra e venda de propriedades, entre elas algumas das que constam da referida escritura de partilha de herança. Nelas recolhemos a informação que o casal João Francisco Dubraz e Ana Félix Dubraz, foi progressivamente alienando vários bens imóveis do seu património familiar. Aliás, referências da fase final da vida do escritor, revelam algumas dificuldades financeiras do casal. O próprio Dubraz, por diversas vezes se declara pobre e tendo como recurso apenas os proventos auferidos com o seu trabalho como professor e como advogado provisional.
            João Dubraz casou em 10 de Outubro de 1847, com 29 anos de idade, com D. Ana Cândida Félix Dubraz, de 24 anos de idade, a qual era viúva de José António dos Santos, grande amigo de João Dubraz e que morrera prematuramente, devido a acidente com arma de fogo. Desse casamento nascera um filho, José António Félix dos Santos que veio a ser advogado muito conceituado em Elvas, onde fixou residência, mas que sempre manteve fortes relações afectivas com Campo Maior. João Dubraz tinha um carinho muito especial por este enteado que criou como se fosse mais um dos seus cinco filhos: Artur Heliodoro Félix Dubraz, que foi oficial do exército e viveu entre 1854 e 1925; Alfredo Constantino Félix Dubraz, que foi bibliotecário municipal em Campo Maior; Alexandre Herculano Félix Dubraz, funcionário público; Amélia Augusta Dubraz; Maria Joana Dubraz. Das filhas, apenas foi possível saber que Amélia Augusta casou com Benedito Cândido de Sousa Araújo, tendo, desse casamento nascido duas filhas: Alice Irene Dubraz de Sousa Araújo e Beatriz Dubraz de Sousa Araújo. Maria Irene casou com José Maria Eugénio de Almeida, 1º conde de Vilalva.
            Sabemos que o patrónimo Dubraz foi criado por João Francisco Gonçalves Brás que, ao tornar-se escritor afrancesou o nome por que era chamado em Campo Maior: João do Brás. Adoptou-o, primeiro, como pseudónimo literário e, depois, como o seu próprio nome. Podemos então supor que, todos os indivíduos que usam o nome Dubraz, poderão ser descendentes deste escritor campomaiorense.
            Fazendo uma pesquisa na Internet, foi possível verificar que existem poucos indivíduos e famílias que tenham incorporado no seu nome, o nome Dubraz e que estes se distribuem por vários pontos de Portugal, do Brasil e de mais dois países da América do Sul.
 

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publicado às 17:59


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