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Grandes são os problemas que, neste tempo de grandes transformações, tornam tão complexa a função dos mestres, dos professores e dos educadores.

No início de um novo século, a escola como instituição e os profissionais a ela ligados, encontram-se num ponto de viragem tão profunda como aquela em que se encontravam no início do século passado.

Tão radical é esta mudança, que melhor seria falarmos numa mutação.

Não é por acaso nem por capricho de moda que ocorrem estas transformações. No estado actual em que se encontra o mundo, em que os dogmas substituem a razão, em que o fanatismo se sobrepõe à tolerância, em que a desensofrida busca dos prazeres e da notoriedade faz esquecer o necessário cumprimento dos deveres, torna-se urgente, torna-se inadiável que a escola desenvolva novas perspectivas curriculares que integrem conteúdos de aprendizagem que vão para além dos conhecimentos específicos das disciplinas e integrem também aprendizagens referidas às atitudes, aos valores e às responsabilidades sociais.

Novos currículos implicam o desenvolvimento de novas competências da parte dos profissionais ligados às organizações escolares. Uma adequada educação para os valores implica que os professores se tornem educadores. O desenvolvimento das competências que preparem as novas gerações para a inserção no mundo do trabalho, torna necessário que os professores actuem como formadores.

Por outro lado, a escola é cada vez mais um universo aberto à comunidade e, em consequência disso, vê-se condenada a uma autonomia que a responsabiliza e obriga a gerir bem os recursos de que dispõe, ao mesmo tempo que, em consequência da mesma autonomia, fica exposta à pública prestação de contas através da avaliação dos efeitos sociais que produz.

No final dos anos 80, António Nóvoa, professor universitário e investigador no domínio da História da Educação, publicava uma obra de grande mérito com o título: O Tempo dos Professores.

Focada sobre os finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX, a obra pretende simbolizar a emergência de um novo tipo de profissionais do ensino e de uma nova maneira de viver e exercer o ofício da docência.

Aos velhos mestres trabalhando isolada e rotineiramente no ministério do ensino como simples repetidores de conhecimentos, o autor contrapõe os primeiros professores que ele caracteriza por dois aspectos:

- A consciência de serem um grupo socioprofissional que se agrega como corpo organizado em volta de associações sindicais para lutar pelos seus direitos;

- A consciência de que a sua acção profissional exige saberes e competências específicas que fazem dos professores não apenas meros mestres instrutores mas pedagogos dotados de teorias que iluminam e orientam a sua prática docente.

O Tempo dos Professores é o tempo duma forte luta sindical e o tempo das sucessivas, às vezes coincidentes, correntes pedagógicas resultantes mais duma reflexão filosófica do que o resultado de investigações empíricas, praticamente inexistentes na época.

Hoje, no começo de um novo século, evidenciam-se os indícios de que estamos a chegar ao fim desse tempo. Estamos a chegar ao fim do tempo dos professores.

Novas condições sociais provocaram efeitos relevantes na organização do trabalho e na estruturação das famílias. Depois das duas grandes guerras do passado século, a escola viu-se confrontada com grandes modificações que vão abalar as suas seculares convicções e rotinas:

- A massificação das populações escolares;

- A complexificação das aprendizagens;

- A entrada massiva das mulheres no mundo do trabalho;

- A passagem da família de modelo tradicional para a família nuclear.

A escola, habituada à tranquila uniformidade das clientelas burguesas que normalmente a frequentavam, vê-se invadida por uma pluralidade de classes, com uma grande variedade de culturas e de atitudes comportamentais.

Os saberes, antes muito estáveis, ficam sujeitos a uma mudança contínua e progressivamente acelerada.

Dentro da profissão docente verifica-se uma tremenda ruptura. A partir dos anos 50, chegaram à profissão docentes improvisados, destituídos dos saberes científicos, didácticos e pedagógicos necessários ao exercício competente da docência.

A investigação científica, muito alheada das questões escolares, demorou a reagir e a procurar as soluções para os novos problemas que em todos os campos se levantaram: formação dos professores, indisciplina e dificuldades de aprendizagem dos alunos, insucesso escolar massivo e tremendamente selectivo do ponto de vista social.

Tudo isto provocou uma fractura, até hoje não resolvida, entre os professores. Enquanto uns aceitaram os novos desafios e fizeram deles o estímulo que os levou a evoluírem para práticas que os transmutaram em autênticos educadores-formadores, outros aferraram-se aos velhos hábitos, refugiaram-se nas esgotadas e inúteis rotinas que em muitos casos levaram à sua anulação como pessoas responsáveis e como professores.

Esta fractura manifestou-se em todos os sectores ligados às questões da educação: nas políticas educativas, nas práticas docentes e nas próprias organizações sindicais de professores. Nestas, a proliferação de associações é tanta quanta a confusão que lavra nas aspirações profissionais dos docentes. Algumas destas organizações sindicais privilegiam as opções políticas quase esquecendo as questões educativas. Quase todas elas estão de tal modo focadas na defesa intransigente dos interesses corporativos, que esquecem por completo as questões deontológicas tão essenciais ao profissionalismo docente. Ora, a defesa intransigente dos direitos perde força e razão quando ignora a necessidade de esclarecer e assumir os deveres essenciais que garantem o sentido social da educação. Não é por acaso que, com grande prejuízo dos interesses da classe, se vêem tantos bons educadores completamente alheados das questões sindicais.

No meio destes e doutros novos problemas vão emergindo as novas soluções. Uma nova época desponta. O tempo dos profissionais da educação que agrega à volta das questões educativas, professores, psicólogos, sociólogos, e todos os que trabalham na escola e com a escola para conseguirem preparar as novas gerações.

Assim como o pensamento sobre as questões escolares deixou de ser a especulação reflexiva das teorias pedagógicas para dar lugar à emergência das Ciências da Educação, também os professores vão dar origem a uma nova geração de profissionais ligados à escola. Começou já a emergir o tempo dos educadores-formadores.

Mas, entretanto e ainda por muito tempo, as escolas apresentarão este carácter confuso, algo anárquico e desorientado que lhes confere um certo ambiente de alienação. É que, nas escolas de hoje coexistem muitas e muito diferentes maneiras de estar na profissão. Ainda subsistem alguns, felizmente já muito poucos, que se assumem como meros instrutores. Outros, embora tenham competência para serem professores, foram-se reduzindo à condição de meros funcionários da educação. Há, contudo, outros que, pretendendo assumir uma atitude de verdadeiro profissionalismo docente, se angustiam por não encontrarem nem as respostas, nem as condições para agirem de forma profissionalmente competente. Apenas uma minoria consegue ir ultrapassando as dificuldades e, qual fermento levedando a massa, vão trabalhando no sentido de desenvolver uma acção que podemos considerar verdadeiramente educativa e formativa. São estes que podemos considerar os verdadeiros educadores-formadores.

São assim os tempos de viragem:

- Os saudosos do passado lamentam o fim de um mundo que gostavam de manter;

- Os esperançosos do futuro anseiam pela emergência de um mundo novo;

- Muitos, porque não entendem as mudanças, mergulham num desorientado desespero que os impede de agirem segundo objectivos claros, traçando projectos bem estruturados e agindo segundo programas de acção bem determinados.

As crises são dramaticamente perturbadoras. Mas são também geradoras de mudanças e as mudanças são a condição básica do progresso em busca de um mundo que se pretende cada vez melhor.

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publicado às 16:32


COMEMORAÇÃO DA PÁSCOA

por Francisco Galego, em 10.04.07
 

            A  comemoração da Páscoa, tradição multicentenária, sofreu na minha terra mudanças significativas ao longo dos últimos cinquenta anos. Pouco sobreviveu do que ainda recordo dos meus tempos de infância. Nesse tempo, o essencial da comemoração da Páscoa passava mais pelas manifestações de culto, sobretudo as várias procissões que se realizavam: a do Senhor dos Passos, a de Nossa Senhora das Dores, a de Domingo de Ramos e a do Senhor Morto.

Lembro-me do costume de se cobrirem de ramos e flores as calçadas das ruas frente aos Passos, do esmero com que cada Passo era ornamentado, havendo até um certo despique para cada um ser o mais bonito e da peregrinação que as famílias faziam na visitação das Igrejas e dos Passos que estavam ornamentados e iluminados a preceito.

Também recordo o costume de não se consumir qualquer espécie de carnes em todas as Sextas-feiras da Quaresma. 

 Nessa época as procissões eram espectaculares. Sobretudo a do Senhor dos Passos que incluía o Encontro no Terreiro. A imagem do Senhor, carregando a pesada cruz, percorria a via-sacra da visitação dos Passos. Regressando pelo Terreiro, encontrava-se com as imagens de São João Evangelista e de Nossa Senhora das Dores que, saindo da Matriz e descendo pela Rua Estreita, tinham vindo ao seu encontro. Começava então o sermão perante as três imagens santas reunidas a meio do largo. Este era feito por pregador de renome convidado especificamente para esse efeito. Alguns desses pregadores atingiam uma tal efeito dramático com as suas prédicas que conseguiam comover profundamente a audiência que os escutava em profundo silêncio. Havia os que eram precedidos de tal fama que, quando se sabia que vinham, atraíam tal assistência que, o acanhado espaço do Terreiro não dava para conter tanta gente. A prédica era proferida a partir de uma janela da casa da família Carrilho.  

            Para a rapaziada, a comemoração da Páscoa começava verdadeiramente no Sábado de Aleluia. Começavam por se juntarem no Largo da Matriz, cada um munido dos chocalhos que podiam ter recolhido para o efeito. Esperava-se com impaciência que os sinos da igreja anunciassem a Ressurreição. Partia-se então, qual revoada de passarada louca, percorrendo as ruas da vila para chocalhar furiosamente em frente às casas das lojas até que o comerciante, que já estava previamente preparado, lançava sobre aquele bando ávido, as mais diversas guloseimas em que predominavam os rebuçados, as amêndoas e os confeitos. Os adultos divertiam-se a verem as autênticas batalhas que se travavam entre eles tratando cada qual de recolher o maior número de doces possível.

            Mas a festa acontecia verdadeiramente no Domingo de Páscoa. A maioria das pessoas vestiam os seus trajes domingueiros e iam em passeio até à Ermida de São Joãozinho comer o folar. A banda dava concerto, improvisavam-se bailes, namoriscava-se. Havia famílias que iam até às quintas e às hortas. Enfim, se o tempo era favorável, aproveitava-se para um passeio no campo. Mas, a festa da Páscoa era em grande parte também uma festa de sabores: o ensopado e o assado de borrego, o arroz de miúdos, os bolos amassados, os merengues, as broinhas, faziam as delícias de crianças e adultos.

            Infelizmente eram tempos de grandes dificuldades para grande parte das famílias. Tempo de tremendas guerras, tempo de grandes misérias. Nem todos tinham acesso a tais iguarias. Mas, cada um, de acordo com as suas posses, procurava ter “rancho melhorado” e, ainda que pouco, o borrego era a base dos comeres nesta celebração.

 

            Nos anos 50 do século passado, as coisas começaram a mudar. A emigração, tanto interna como para o estrangeiro, provocou grandes mudanças na sociedade campomaiorense. Foi por essa altura que se começou a generalizar o hábito das famílias se deslocaram para junto dos rios para, em conjunto, celebrarem a Páscoa. Primeiramente em grupos pequenos, partiam em carroças no Domingo de Páscoa ainda quando o sol mal começara a raiar e regressavam ao cair da tarde. Quem tinha familiares num monte ou num moinho à beira-rio podia arriscar-se a permanências de mais de um dia. Mas o tempo era ainda muito incerto e não havia os recursos “campistas” que existem hoje para se acampar em qualquer lugar. Além disso, as pessoas, nesse tempo, gostavam ainda de guardar recato e, por isso, escolhiam lugares onde pudessem estar com alguma privacidade. Assim, o mais normal era que fossem muitos os lugares para onde as famílias se deslocavam para celebrar a Páscoa.

            Lembro-me de a Ermida de Nossa Senhora da Enxara ser um lugar ermo, abandonado e em tal estado de degradação que as suas dependências serviam para recolha de gado. Depois começou a ser escolhida por grupos de homens que aí se juntavam para acamaradarem em alegre convívio. Lentamente começaram a aparecer as famílias até que, por volta dos anos 60, se transformou no lugar de romaria que é nos dias correntes.

A beleza do lugar, a facilidade do acesso para o crescente número de automóveis que foram surgindo, a recuperação de antigos actos de culto religioso, o aperfeiçoamento dos recursos para acampamentos, tudo se conjugou para que tão rapidamente se tornasse na maior romaria em que actualmente participam os campomaiorenses.

As autoridades locais, entendendo as mudanças operadas na sociedade, fizeram a oportuna mudança do feriado municipal de 28 de Outubro, data anterior em celebração de um acontecimento que já não tinha qualquer significado para os campomaiorenses, para a segunda-feira depois do Domingo de Páscoa, criando assim a possibilidade de uma curtas férias neste fim-de-semana alongado no início da Primavera. Escolha acertada pois que, além do mais, permite aos que vivem fora da vila da sua origem, virem participar nesta celebração com os seus familiares.

            Com alguma surpresa fui assistindo a esta grande celebração pagã em que transformou a Festa da Enxara. Espero que o termo “pagã” não provoque surpresa ou revolta porque, é evidente para qualquer pessoa de claro juízo que, apesar do período e do nome do lugar em que a festa se realiza, as questões religiosas funcionam apenas como mero pretexto. Embora a festa comece e acabe com procissões, é claro que esses actos de culto têm uma função simbólica mais cerimonial do que religiosa.

A Enxara cresceu tanto que sufocou completamente a romaria ao São Mateus em que participavam massivamente os campomaiorenses. Se a Feira de Elvas foi a grande celebração dos campomaiorenses nos tempos passados em que esta vila era habitada por uma comunidade essencialmente rural, a Páscoa é a celebração desta nova comunidade de gente urbana em que se tornou Campo Maior.

Confesso que recordo com alguma saudade os tempos de outrora. Mas, porque tenho de tentar ser lúcido e racionalizar as mudanças, tenho de compreender que elas decorreram de um processo de transformação para uma sociedade melhor porque mais justa, mais igualitária e propiciadora de melhores condições de vida para um maior número de pessoas.

Felizmente vão longe os tempos da sociedade elitista e segregadora em que tive de crescer. Seria insuportável voltar a assistir ao inaceitável espectáculo da miséria e da opressão em que decorreram a minha infância e a minha juventude.

Mas há aspectos na massificação em que decorre actualmente a celebração da Páscoa que não despertam o meu entusiasmo. Só com muito esforço consigo suportar a, para mim, infernal barulheira dos altos ruídos produzidos pelas aparelhagens dos carrocéis e tendas de negócios vários que rodeiam a simpática Ermida de Nossa Senhora da Enxara. Mas tenho que aceitar que, geralmente, o que se ganha em quantidade implica que haja algumas perdas quanto à qualidade. E, ninguém me obriga a celebrar a Páscoa na Enxara. Há ainda muitos lugares à beira-rio onde poderei estar a meu gosto celebrando o que eu quiser, com quem quiser e à minha maneira.

Que direito tenho de censurar um acontecimento que tanto prazer e contentamento provoca nos meus conterrâneos?

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publicado às 13:40


AS FESTAS DO POVO DE CAMPO MAIOR

por Francisco Galego, em 03.04.07
I – Fantasias e realidades sobre as suas origens
           
Não é fácil demarcar com rigor a data de começo das Festas do Povo de Campo Maior. Como para quase todas as realizações levadas a cabo colectivamente pelo povo, estas festas tiveram a sua génese ao longo de um período largo de tempo. Estas manifestações de cultura popular deixam poucos testemunhos, tornando-se, quase sempre, muito difícil reconstituir a maneira como nasceram e como foram evoluindo.
Mas o povo, quando não sabe inventa. Não por má fé ou censurável intenção, mas porque é próprio do homem buscar explicação para as coisas que lhe despertam interesse ou curiosidade.
As Festas do Povo de Campo Maior têm sido explicadas de muitas maneiras e sempre de modo mais ou menos fantasiado. Segundo alguns, teriam nascido numa determinada rua, a Rua Nova, e ligadas a uma determinada actividade dum grupo, o dos contrabandistas.
Nenhum documento ou facto conhecido, pode confirmar semelhante afirmação. É certo que o contrabando foi sempre uma actividade importante em Campo Maior, como é natural numa terra de fronteira. Mas é também um facto comprovado que os contrabandistas, em anos em que os negócios lhes calhavam mais a jeito, tinham por hábito festejar organizando um desfile e o arraial em honra de São Joãozinho que tomavam como protector e padroeiro das suas arriscadas actividades. Mas estas festas faziam-se em Junho pelo São João e nada tiveram a ver com outras festas que, a partir dos finais do século XIX, se começaram a realizar em Setembro.
Estas festas de Setembro começaram a fazer-se no ano de 1893. Apresentaram-se como Festas em Honra de São João Baptista, dizendo-se que eram o reatar de uma tradição que vinha de tempos antigos. De facto, antes havia o costume institucionalizado de se fazer uma missa solene e uma procissão em 28 de Outubro, em honra de São João Baptista, em que participavam as autoridades municipais que assumiam a organização e despesas de uma festa com iluminação nocturna das ruas, as quais tinham sido decoradas com ramos para que passasse a procissão com a imagem do Santo Padroeiro de Campo Maior.
È, portanto, em volta do culto de São João Baptista que se constituiu uma antiga tradição que consistia na realização de uma festa no dia 28 de Outubro, apesar do calendário litúrgico consagra esta data a um outro santo – São Simão.
Esta data celebrava o fim do Sítio de Campo Maior de 1712, em que a vila estivera na eminência de se render por falta de condições para continuar a resistir ao terrível poder de fogo dos invasores. A maneira como as tropas sitiantes tinham retirado quando a vila já estava praticamente vencida, foi considerada um milagre atribuído à divina intervenção, por interferência de São João, Patrono e Protector de Campo Maior. Daí que o dia ficasse assinalado como feriado municipal e se decidisse que nesse dia se fizessem festejos em honra do Santo Precursor de Jesus Cristo.
Aqui está a explicação de se fazerem festas em honra de São João em dia de São Simão, tanto mais que, em Campo Maior, desde tempos imemoriais, também se comemorava o São João, do dia 23 para 24 de Junho que, pelo calendário litúrgico, lhe é consagrado, com arraial no sítio de São Joãozinho, no recinto onde existe uma capela assinalando o local onde o santo aparecera a um habitante de Campo Maior, no distante século XVI, quando terminava o reinado de D. Manuel e começava o de D. João III.
 
II – As festas dos artistas
            Em 1893, um grupo de jovens ligados às actividades de comércio e aos ofícios artesanais de loja aberta, resolveram reatar a tradição de fazer as Festas em Honra de São João que tinham deixado de se fazer havia cerca de quarenta anos, ou seja, desde meados do século XIX.
Desde logo, traçaram o projecto de ornamentação das ruas e da sua iluminação nocturna, ao mesmo tempo que elaboravam um programa do qual se destacavam as festas de igreja com missa solene e procissão, as arvoradas e os concertos pelas bandas locais ou as convidadas de terras vizinhas, as touradas à vara larga, os bailes, os descantes populares e o fogo de artifício.
            Embora se tratasse de reatar as festas antigas, a festa foi mudada de 28 de Outubro para início de Setembro, parecendo que o motivo desta mudança se poderá justificar por diversos factores entre os quais terão maior peso, as incertezas do clima atreito a ventanias e chuvadas nos finais de Outubro e a ser um tempo em que as actividades do campo, nomeadamente as vindimas, se desenvolvem a partir de meados de Setembro.
            Organizadas pelos estratos da população que não estavam ligados ao trabalho agrícola, as festas desde o seu início foram designadas pelo povo como as Festas dos Artistas. Mas o seu nome oficial, aquele por que são designadas nos programas e nos artigos e notícias dos jornais é o de Festas em Honra de São João Baptista.
Este será o seu nome oficial até ao ano de 1922. João Ruivo, no jornal O Campomaiorense, utiliza pela primeira vez a designação Festas do Povo que nunca mais foi abandonada. As festas não tiveram qualquer outra designação. A tentativa de as associarem pelo nome aos contrabandistas só apareceu nos anos oitenta do século vinte e resulta de um equívoco sem qualquer fundamento.
 
III – Inícios modestos, destino de fama e de longa duração
 
            Outra fantasia que se criou acerca das Festas do Povo, foi a de que teriam desde sempre sido programadas para uma periodicidade de quatro anos. Nada mais destituído de fundamento real. Por um lado, as festas começaram por se realizar todos os anos. Depois, os acasos da política ou da boa ou má sorte da população, fez com que conhecessem períodos mais ou menos longos de interrupção. Essas interrupções foram por vezes tão dilatadas no tempo que as festas chegaram a ser dadas por extintas. A seguir à Implantação da República, em 1910, estiveram sem se realizar pelo período de 12 anos. Quando do fim do salazarismo-marcelismo estiveram sem se fazer por um período de dez anos.
            Em Campo Maior costuma dizer-se que as festas se fazem quando o povo quer. Mais adequado seria dizer-se que as festas se fazem quando existem condições para que elas se possam fazer.
            Muitos julgam que as festas tiveram sempre este modelo de ornamentação de ruas que agora as caracteriza. Nada mais longe da realidade. As festas começaram de forma muito modesta. No início não se distinguiam das festas que se realizavam em muitas outras localidades. Havia o hábito no Alentejo de decorar e refrescar o ambiente nos dias de festa decorando os espaços públicos com ramos, sobretudo os espaços onde decorriam as actividades festivas. Daí a designação de enramação para o acto de decorar as ruas e largos, recorrendo a ramos de murta, de buxo e de rosmaninho e, devido à falta de sistemas eficazes ou inexistentes de iluminação pública, as populações utilizavam os seus próprios recursos e criatividade para vencer as trevas da noite em dias de festa.
            Em Campo Maior, começou-se pelo costume de cada um enfeitar a parte da rua fronteira à sua casa e de decorar e expor as partes da habitação viradas ao exterior, apresentando-as assim à vista de quem se passeava pelas ruas nos dias de festa.
            Esta atitude que no começo era de iniciativa particular, foi dando origem a uma colaboração cada vez mais intensificada entre aos vizinhos de cada rua, até que os projectos pessoais deram origem ao projecto comunitário.
            As Festas de Campo Maior adquiriram desde cedo uma certa pujança a nível regional. Esse facto deve-se à grandiosidade de uma festa que consistia em ornamentar as ruas de toda uma povoação ou, pelo menos da maior parte das suas ruas, usando formas elaboradas de decoração e de iluminação recorrendo a vegetação natural e a um material de grande efeito decorativo, o papel utilizado para fazer balões, franjas, lenços, cadeados e bandeirolas.
            Mas as festas, porque exigiam um considerável esforço e investimento à população local, só se podiam fazer porque a população dispunha de condições económicas favoráveis. A isto não poderia ser alheia a sua localização de fronteira e a facilidade com que nesta região se desenvolviam actividades de contrabando. Tratando-se de uma prática ilícita, ela pesava fortemente na economia local por ser muito lucrativa. Todas as oscilações que se verificavam, quer na parte de Portugal, quer na parte de Espanha, afectavam de uma maneira ou de outra a comunidade campomaiorense. Algumas das interrupções das festas são explicáveis por essas oscilações.
           
IV – Que presente e que futuro para as festas de Campo Maior?
 
            Em 111 anos e contando com o último em que se realizaram, ouseja, o de 2004, as festas realizaram-se 33 vezes. Nos primeiros cinquenta anos da sua existência, mantiveram-se com um expressão muito localizada, tendo ressonância apenas nas localidades que lhe ficavam vizinhas.
            Depois da segunda Grande Guerra, mais concretamente, nos anos cinquenta, as Festas do Povo de Campo Maior conheceram um extraordinário desenvolvimento. Rapidamente ganharam fama a nível nacional, com alguma projecção mesmo para lá da fronteira.
            Aproveitando a tendência para a globalização propiciada pela extensão e aperfeiçoamento dos transportes e das comunicações, torna-se um fenómeno significativo da massificada cultura popular, lugar de grande romaria apesar de não estar ligado a qualquer fenómeno de culto ou de peregrinação.
            O desenvolvimento da economia local, mais uma vez devido ao efeito de fronteira com a torrefacção de cafés, constituiu a base de sustentação. A criatividade da população radicada numa tradição secular, criou o milagre destas festas que, apesar de muito copiadas, ainda não foram igualadas.
            Mas, como irão sobreviver as Festas se são tantas as mudanças e tão profundas as transformações que se estão a verificar?
 Como todos os fenómenos humanos, as Festas de Campo Maior vão de ter de evoluir adaptando-se a novas condições para garantirem a sua sobrevivência. Nota-se, neste tempo que vivemos, uma procura ainda imprecisa de novas soluções. Serão as mais adequadas?
            Do acerto das soluções e dos caminhos que se escolherem depende o seu direito a perdurar ou a sentença da sua extinção. A lei findamental que gere a vida e a história não deixa lugar para os inadaptados.
            Será que há futuro para as Festas do Povo? O tempo o dirá.

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publicado às 18:05


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