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Acabou o carnaval

por Francisco Galego, em 27.02.07
Quando escrevo este texto é Quarta-feira de Cinzas. Terminou o Carnaval. Guardadas as máscaras e os trajes exibidos pelas figuras grotescas do Entrudo, a vida vai agora voltar à normalidade.
            Aqui em, Campo Maior, o Carnaval decorreu com alguma animação, mas sem as grandes manifestações de festa que eram os Carnavais de outros tempos.
 Os desfiles que percorreram as ruas foram interessantes e animados. O de sexta-feira, dedicado às escolas do concelho, teve a função pedagógica de levar as crianças a participar na criação e preservação das tradições culturais da comunidade a que pertencem. O de sábado, para os adultos, foi bastante animado e participado. De acordo com a sociedade democrática em que vivemos, perdeu por completo o carácter elitista que tinha em meados do século passado.
            Por razões que se podem facilmente entender, o Carnaval campomaiorense que, por tradição e por natureza tem um carácter muito “caseiro”, começa cedo e cedo acaba. Evita assim entrar em concorrência desigual com manifestações semelhantes em terras vizinhas, as quais, com Carnavais mais apelativos, reservam o Domingo Gordo e Terça-feira de Entrudo para as suas realizações.
            As manifestações carnavalescas no tempo da minha juventude aqui, em Campo Maior, tinham como já referi na minha colaboração anterior neste jornal, as marcas do tempo que então se vivia no nosso país e que se traduziam numa profunda estratificação social baseada no poder económico e político e na importância social que esse poder conferia às pessoas. Daí que entre o Carnaval das elites e o Entrudo dos pobres, existisse uma completa separação. Contudo, noutros tempos bastante anteriores, o Carnaval tinha tido um fulgor e intensidade muito maior. Vejamos como o primeiro jornal que se publicou em Campo Maior, o “Campomaiorense” descreveu o Carnaval de há oitenta anos:
            “A época carnavalesca teve este ano um brilho desusado e que há muitos anos não tinha nesta vila … Fez-se uso dos saudosos pós pretos, malagueta queimada, talos de couve, águas sujas lançadas das janelas sobre os transeuntes, …esguichos e enfarruscadas…arremessaram-se ovos de cinza e até ovos de verdade…
No domingo e na terça-feira de Carnaval houve festivas batalhas de flores no corso elegante da Canada, onde uma enorme fila de algumas dezenas de coches, landaus, berlindas e cadeirinhas, volteavam para baixo e para cima num rodopio de carrossel. Deram viva nota os carros da elite feminina que se esmerou nas ornamentações a capricho e na confecção das toiletes garridas das senhorinhas. As crianças participaram como cúpidos, pierrots e pequenas fadinhas, animando o ambiente com a sua inocente alegria e as suas estridentes risadas.
Muitos caros artisticamente ornamentados, participaram neste cortejo, brincando-se muito por toda a parte, dos carros para as janelas e das janelas para rua, travando uma autêntica batalha de papelinhos, tremoços, violetas, rebuçados e bombons.
 Pelas ruas, mascarados sem conta, luzidias cavalgadas, paródias, cegadas.
Bailes em quantidade. Os que se realizaram em casa dos Srs. Viscondes de Olivã primaram pela distinção. Houve também bailes nas casas do Sr. Barbas, do Sr. José Ramos e na do Sr. João Martins Leitão, nos quais se dançou e cantou até altas horas da madrugada.
Os bailes no Teatro do Castelo foram espampanantes de entusiasmo e os concursos de máscaras provocaram grande entusiasmo. Dançou-se o foxtrot, o two-step, o jazz-band, bem como danças regionais e nacionais.
No Grémio brincou-se, riu-se e dançou-se. Disseram-se frases de espírito e esboçaram-se alguns namoros. Várias senhoras da nossa melhor sociedade cantaram árias e canções para deleite dos que as puderam escutar.
Quando o baile terminou – 8 da manhã! – já o sol doirado e brilhante se espraiava alegre e contente pelas ruas da vila.
Para em tudo ser completo, o Carnaval terminou no enterro do Entrudo com a sua imponência macabra e tétrica, como se pode ajuizar pelas centenas de fantasmas envoltos em lençóis brancos, formando duas longas filas, conduzindo tocheiros acesos, numa guinchadeira de pranto infernal…
Atrás o esquife funerário seguido pela banda que executava com muito sentimento e profunda mágoa a marcha fúnebre de Chopin…
De vez em quando o cortejo parava para ser entoada a magistral oração do bacalhau a pataco por um sumo-sacerdote de voz de cana rachada.
Acabou-se o Carnaval. O Entrudo ficou morto e enterrado. Que descanse em paz até ao novo ano.”
Este texto reporta-se aos anos de 1923 e 1924. Portanto, a uma época em que a nível político existia ainda um regime democrático, mas em que começavam a germinar as sementes da situação de crise que iria culminar, três anos depois, numa ditadura de cerca de meio século de duração. Já se antevê a tendência para que uma elite se afirme como grupo dominante na sociedade portuguesa.
Hoje, perdeu-se a tradição de fazer que o Carnaval, chegada a terça-feira, desse ainda um ar da sua graça com uma cerimónia muito solene, mas muito chocarreira, promovendo a sua despedida com o Enterro do Entrudo, também designado como Enterro de Bacalhau.
Depois do Carnaval, a Quaresma. Depois dos excessos e dos exageros de todas as formas, vem um tempo de sossego e de contenção. É desta alternância que se faz a vida dos homens e se organiza a vida em sociedade.
Contudo, à mocidade embalada pelos dias de folia, custava-lhe a despedida do Carnaval. Procurava a todo o custo prolongá-lo evitando mergulhar no período de abstinência que se ia seguir até à Páscoa. Assim, no primeiro domingo da Quaresma, faziam-se nas sociedades recreativas, bailes muito concorridos, os bailes da pinhata.
Esta parece ser uma tradição que se constituiu por influência de Espanha, se nos reportarmos a uma notícia publicada num jornal de Elvas, o Transtagano, de 24 de Fevereiro de 1861, onde se escreveu que este é o nome que tem o baile de máscaras que, no reino vizinho, pelo menos em Badajoz, costuma ter lugar no primeiro domingo de Quaresma. A dar fé neste documento, nessa época a tradição dos bailes da pinhata ainda não estava implantada em Portugal.
E, pronto! Foi-se o Carnaval. Esta crónica que vai ser lida quando o Carnaval já estará morto, enterrado e esquecido, será como que a nossa crónica da pinhata. Até ao próximo ano não voltaremos a falar do Carnaval.

Campo Maior, 21 de Fevereiro de 2007     

Região em Notícias de Campo Maior     2 de Março de 2007

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publicado às 10:33


Carnaval de outros tempos II

por Francisco Galego, em 16.02.07
Estamos numa época do ano em que, no meu tempo de infância, as gentes do campo chamavam, segundo uma designação mais antiga, de Entrudo e que a gente que se tinha por mais ilustrada designava por Carnaval.
Por vezes, nos jornais do século XIX que actualmente me entretenho a investigar, encontro referências ao Carnaval de outros tempos, em Campo Maior. São, geralmente, referências a um Carnaval “bem comportado”, de gente séria que não cometia desmandos e que desdenhava e censurava “as grosseiras e violentas diversões das gentes rudes do campo, sem sentido das medidas e sem educação”. Por exemplo:
 No domingo gordo inauguraram-se nesta vila os bailes públicos de máscaras. O primeiro teve lugar no teatro (do castelo), levado a efeito pela Sociedade Artística, auxiliada por alguns não artistas, os quais, em comissão mista, tomaram a direcção do espectáculo. O teatro estava ornado sem luxo, mas com asseio e bom gosto e manteve-se em toda a noite na mais rigorosa decência. À entrada do salão de baile (plateia superior), cada máscara dizia o seu nome ao presidente da comissão.
A filarmónica artística, vestida uniformemente, deu começo ao espectáculo com uma sinfonia: levantado o pano, um artista, moço de merecimento moral e intelectual, entrou em cena com os emblemas que representam o tempo e figurou as quatro estações do ano…com versos alusivos.
Depois começou o baile que durou até às 2 horas da noite. Nos intervalos houve quadros vivos…
“No terceiro dia de Entrudo teve lugar o segundo baile de máscaras. Foi brilhante, foi até esplêndido e houve um grande concurso de espectadores. Desta vez, o número de Máscaras não baixou de sessenta: apareceram costumes variados e de bom gosto e houve muita animação. O ardor dos dançadores chegou a ser por vezes frenético … o movimento e alegria foram constantes…
À comissão que dirigiu os espectáculos, todos os louvores são devidos: nunca os houve em Campo Maior com mais ordem…” (In A Voz do Alentejo, 1866).
Muito raramente aparecem referências às outras manifestações do outro Carnaval, o Entrudo rude e violento, principalmente à celebração da “5ª- feira das comadres”, pela gente mais ligada ao trabalho nos campos e que eu ainda presenciei, em toda a sua pujança, nos tempos da minha infância.
Nesse tempo, quando se começavam a ouvir os estrondos do rebentar das bombas e os gritos chistosos com que a rapaziada perseguia as vítimas das impertinentes partidas, sabíamos que o Entrudo tinha começado.
Os “largalos” consistiam em rabos dos animais esfolados, trapos ou escritos com frases como Sou burro, Fujam que marro, que os brincalhões se entretinham a pregar nas costas dos incautos que eram escolhidos para vítimas. A tarefa de pregar estes objectos nas costas das pessoas sem que estas o pressentissem, exigia descaramento, astúcia, rapidez e perícia. Depois, o desgraçado a que se pregava a partida, ia passando pelas ruas sob a chufa dos gozadores divertidos que gritavam, “Lárga-lo!... Lárga-lo!” evitando que este percebesse que era o alvo desta gozação.
O rapazio adorava o perigoso jogo do lançar de bombas e de fazer rabear os busca-pés, com que procuravam assustar as pessoas. E não apenas nas ruas. O hábito que nesse tempo havia de manter abertas as portas das casas, dava azo a que os mais violentos deitassem esses objectos para dentro das casas o que dava origem a grandes sustos e alaridos. Os gritos das mulheres assustadas e as correrias dos malandros que procuravam fugir sem serem identificados, punham as ruas em alvoroço.
De noite formavam-se as trupes de mascarados que percorriam as ruas metendo-se com quem por eles passava. Caraças, mascarilhas, pinturas e óculos serviam para esconder a identidade, permitindo atitudes que não se assumiam de cara descoberta. Os homens e as mulheres aproveitavam para se travestirem envergando roupas velhas e grotescas, disfarçando a voz, aproveitando este período de maior liberalidade de comportamentos que não eram admitidos em situações normais de convivência em sociedade, como o hábito de mascarrar e de enfarinhar que permitia um contacto físico entre os sexos que estava de todo vedado nas condições normais do resto do ano. Por vezes, esses bandos de foliões entravam de rompante pelas casas, sendo recebidos em alarido pelos moradores e pelos vizinhos que acorriam a participar na festança. Se a trupe ia acompanhada de tocadores, podia mesmo improvisar-se uma bailarada.
 Mandava o decoro que se respeitassem as pessoas e as casas dos que, por razões de doença ou de morte, estivessem em situação de resguardo ou de luto. Aliás, exigia o decoro que essas pessoas se mantivessem o mais distantes possível das manifestações do Entrudo.
Os dias grandes do Entrudo mais ligado à cultura camponesa eram a 5ª- feira das Comadres e a 5ª- feira dos Compadres. Na das Comadres, os homens organizavam-se em bandos para a chocalhada: cobertos de capas oleadas e fazendo soar grandes chocalhos e mangas, iam pelas ruas provocando as mulheres que respondiam ao desfio lançando sobre eles baldes de água, nem sempre limpa, cinza, pó de carvão, farelos e serradura e outras coisas menos próprias que não convém designar. Agrupadas em certas casas, as mulheres colocavam à janela estandartes de panos coloridos, enfeitados com vistosas fitas e outros ornamentos, desafiando os homens a que os tentassem alcançar. Iniciava-se então uma feroz contenda em que os que estavam em baixo procuravam a todo o custo subir para alcançar o apetecido troféu e as que estavam em cima tudo faziam para impedir que tal objectivo fosse concretizado.
Na 5ª-feira dos Compadres o estandarte era substituído por um espantalho e de novo se desencadeava a contenda.
Realizavam-se muitos bailes no Entrudo. Os rurais – jornaleiros, criados e criadas de servir – frequentavam os da “sociedade da música” que, por estar ladrilhada com lajes de xisto negro que largava um pó que se agrava à roupa, era, por graça, designada pelo nome de “casinha do picom” ou por “bailes do assento” devido á localização da sociedade.
Os bailes da “sociedade da praça” eram reservados a uma espécie de classe média que incluía os comerciantes e os homens dos ofícios – ferreiros e ferradores, carpinteiros de “finos” e de “obra grossa”, comerciantes e caixeiros, pedreiros (alvanéus), paneiros e alfaiates, sapateiros, correeiros e albardeiros – enfim, todos os que tinham profissão não relacionada com o trabalho no campo ou que cultivassem apenas terras por sua própria conta, ou seja, os pequenos e médios proprietários.
Por volta de meados do século passado, foi mantido o hábito de se organizarem as Marchas de Entrudo, com algumas semelhanças com as actuais marchas populares – como as de Lisboa - só que com um aspecto mais chocarreiro, de acordo com o carácter carnavalesco da quadra. Deram muito nas vistas algumas marchas organizadas e ensaiadas pelo Carrasco e pela parceria constituída pelo sapateiro Joaquim d’Elvas e pelo, sacristão da Matriz, António Bajé. Estas distinguiam-se pelo brilho dos figurinos, pela perfeição das danças coreografadas e pelo cuidado que punham nas músicas e cantares ensaiados para o efeito. Os dois elementos da parceria referida esforçavam-se sempre por se apresentarem travestidos da forma mais gloriosa que lhes fosse possível, compondo extraordinárias personagens de rainhas, fadas ou princesas, pois, além da marcha que iam cantado e dançando, paravam nos cruzamentos das ruas e nas praças para representarem pequenos entremezes como, por exemplo, a extraordinária saga da “Princesa Magalona”.
Numa sociedade profundamente estratificada como a que nesse tempo habitava Campo Maior, nem no Entrudo eram concebíveis misturas das “pessoas comuns” com as “famílias notáveis”. Estas faziam, à sua maneira, o seu Carnaval: organizavam as suas trupes para irem de casa em casa animar as pessoas do seu “meio”.Os seus bailes eram reservados e realizavam-se em casas particulares – os assaltos -, ou no Grémio, sociedade recreativa muito selectiva, designada por “a sociedade dos ricos”.
Esta “elite social”, durante alguns anos organizou uma espécie de corso local, um cortejo ou desfile que o povo designava por “a batalha das flores” e que consistia em as famílias do “círculo dos importantes” desfilarem ao longo da rua da Canada, em charretes ou noutro tipo de trens de tracção animal, travando uma amável “batalha” de pequenos saquinhos de farinha, grão, feijão, farelo, serpentinas, papelinhos, entre os que circulavam e os que assistiam na rua ou nas janelas. Ao povo cabia o papel de assistir e de se deslumbrar com o brilho dos trajes de dominós, damas antigas, arlequins e columbinas, envergados pelos figurantes.
Hoje, tudo está mais igual. A sociedade está seguramente mais justa e isso é mesmo muito importante. Mas custa um pouco a aceitar que a vida se tenha tornado muito mais interessante.
Campo Maior, 7 de Fevereiro de 2007
(Publicado em Região em Notícias de Campo Maior, 16 de Fevereiro de 2007)

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publicado às 14:46


Carnaval de outros tempos I

por Francisco Galego, em 16.02.07
O Transtagano (1860 – 1863) -  Nº 192,  Elvas - Domingo, 2 de Março de 1862
 
            “O Carnaval, pelo menos aquele que se mostra nas ruas e praças, vai definhando cada vez mais…
            Com efeito, aquele buliçoso Entrudo doutras épocas não muito distantes, fugiu de nós espavorido e despeitado pela seriedade dos tempos de agora.
            O que é feito das orgias saturnais que deleitavam os menos escrupulosos?
            Aonde foram refugiar-se esses brinquedos selvagens, não raramente causadores de gravíssimos desgostos, no meio do geral delírio que desvairava as cabeças dos mais circunspectos?
            A brutal laranjada, os ovos arremessados de longe, a água derramada em profusão sobre corpos agitados pelo reboliço da ocasião, deixaram de figurar no catálogo das diversões populares nesses dia de febril loucura em que o ciúme dos maridos, a rigidez dos pais e a gravidade das mães, tinha de fechar os olhos a milhares de atrevimentos, a excessos de licenciosidade que, na véspera, ou dois dias depois, fulminariam com todo o rigor da mais austera moral e castigariam com o brio de quem preza o seu decoro e o da sua família.
            Vendo banidos esses usos grotescos e imorais, não hesitamos em render homenagem à civilização que, pintando-os em toda a sua hediondez, tem chamado gradualmente o nosso povo a melhor caminho.
Hoje não se toleram certas demasias que a boa razão condena. Cada qual procura divertir-se sem descer da sua dignidade, nem permitir que se falte aos deveres da decência e da boa cortesia. As ruidosas bacanais das ruas ficaram reduzidas á aparição de máscaras inofensivas que a polícia vigia cautelosa.
As perigosas e indecentes assaltadas em que, o decoro das famílias e não poucas vezes o pudor, eram atrozmente ofendidos, cederam o lugar a pacíficas reuniões aonde não são esquecidos os ditames da moral e da boa educação. As cidades de maior vulto recreiam-se com os bailes de máscaras e com as representações de peças mágicas ou burlescas, que mantenham o bom humor e a hilariedade. Nas terras de menor vulto, as assembleias ou círculos recreativos, proporcionam às famílias uma distracção honesta e amena em que não se conhece o bulício da época senão por algumas atitudes de maior jovialidade e pela chuva de papelinhos cortados que cobrem as salas.” (RCM – 17/2/07)     

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publicado às 14:44


Variações sobre tempos idos

por Francisco Galego, em 04.02.07
Tanto os leitores como eu estamos um pouco cansados de tanta História. Para descansarmos um pouco, permitam-me que, escrevendo esta crónica, vos diga alguma coisa da minha própria história.
            Nasci em 1 de Agosto de 1941. Fiz há seis meses 65 anos. Entrei na chamada terceira idade da vida. Sou, portanto, a partir de agora, oficialmente, um velho. Estou a tentar aprender a sê-lo com a dignidade que me for possível. Não sinto qualquer angústia, nem a ideia de uma aproximação da morte me provoca medo ou sobressalto. Encaro-a como a coisa natural e certa. Até aqui a vida tem cuidado razoavelmente de mim. Não me apaparicou, mas também não me atormentou com inquietações de monta. Pedi-lhe pouco e ela foi-me dando o necessário para ir vivendo sem ter atormentadas razões de queixa.
 Desde muito cedo fiz a opção essencial que, de forma mais ou menos consciente, todos fazemos a partir de dado momento. Ao prazer preferi o sossego. Preferi o ir sendo razoavelmente, ao muito pretender para muito ter. Entre o servir-me e o compromisso de bem cumprir, escolhi o que me parecia ser o meu dever. De plena consciência, compreendi que não podia aspirar a grandes realizações e a espectaculares sucessos. Pareceu-me mais justo e adequado renunciar a grandes ilusões.
Um destino de aurea mediocritas pareceu-me ser uma possibilidade aceitável para que nasceu com tão poucas condições para muito aspirar. Pior seria a procura insana de uma improvável celebridade. Não tendo a propensão dos grandes sentimentos, preferi os afectos acessíveis, às inatingíveis paixões. Não escolhendo percorrer as vias que me levassem à riqueza, fui conseguindo o que me era indispensável para não sofrer de grandes carências. Para quem foi tão prudente nas suas aspirações, até que acabei por conseguir alcançar bastante. Para ir mais longe, só com um grande rasgo de sorte.
Chego a este patamar da minha existência e posso pensar e sentir que, até ao momento, o projecto concebido e executado pode ser avaliado positivamente. Sei que não depende completamente de mim que assim persista até ao momento final. Mas, enquanto tiver discernimento, procurarei agir para que continue desta feição, este trajecto que vai sendo a minha vida. Não lamento o que não fui e procuro não contabilizar como falhanço não ter alcançado o que não tenho. Porque, a maior parte das coisas que não consegui, foi porque as não desejei. E se outras não logrei foi porque tinha a clara consciência de que não tinha condições para lá chegar.
Esta é a avaliação que penso dever fazer neste início desta idade terceira e a que me parece a mais adequada ao projecto que me foi possível traçar como opção de viver. Porque, passou o tempo de ambicionar. É tempo de deitar contas ao que foi possível fazer.
Seria completamente descabida qualquer pretensão de recomeço. Nem estou zangado com a vida, nem decepcionado com o que da minha vida consegui fazer. Não terei sido excepcional pelo sucesso. Mas, e isso é muito mais importante que os tolos podem conceber, também não devo contar com um balanço final de falhanço. Não tive momentos de exuberante felicidade. Mas, também não conheci o desespero irremediável dos grandes sofrimentos.
Nunca me senti glorificado pela fama. Mas fui premiado com a consideração da grande maioria dos que me foram conhecendo. Posso dizer neste momento: Vivi razoavelmente a vida que me foi possível ir vivendo. Se ainda tiver que me atormentar com inesperados sofrimentos, fica aqui a confissão do balanço positivo que me sinto obrigado a fazer neste momento.
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Nasci nesta vila do Alto Alentejo, mesmo encostada à fronteira, que se chama Campo Maior. Embora colocada num recanto, afastada de vias importantes de passagem, foi, no passado, povoação de considerável importância militar, económica e demográfica. A presença num ponto bastante frágil, em termos de estratégia de defesa, constituiu-a como importante praça de guerra enquanto existiu o perigo de invasões a partir do território do poderoso vizinho que fica do outro lado. Mas a fronteira teve também efeitos positivos em termos económicos. O contrabando foi sempre fonte de consideráveis rendimentos e houve mesmo épocas em que se tornou fonte de fácil e rápido enriquecimento.
 Sendo de pouca extensão, o concelho, pela variedade das terras que o compõem, sustentou uma agricultura próspera em tempos em que predominava uma economia de subsistência, em regime de quase total autarcia. Foi o café, produto essencial do contrabando depois da guerra civil de Espanha, que lançou as bases da economia campomaiorense na actualidade. Do contrabando veio a acumulação de capitais que gerou a produção que, actualmente, constitui a base da sua prosperidade: a torrefacção de cafés.
            Nasci numa rua modesta como modesta foi a minha origem familiar: os meus quatro avós e as duas bisavós que ainda conheci, estavam ainda muito envolvidos na sua condição campesina. Os avós maternos vinham directamente de gente secularmente ligada ao trabalho nos campos. A mãe da minha mãe, minha avó Maria Catarina Cainço, descendia de uma família de camponeses naturais e residentes na pequena aldeia de Degolados, muito próxima de Campo Maior e que, à época do seu nascimento, estava administrativamente ligada ao concelho de Arronches. Esta minha avó veio com seus pais residir num monte em Campo Maior, onde conheceu o jornaleiro Jacinto de Jesus, natural de Elvas, freguesia de S. Pedro. Do casamento de minha avó Maria com o meu avô Jacinto, nasceram12 filhos, dos quais, como era muito usual entre a gente pobre, devido às doenças epidémicas que grassavam por aquele tempo, mormente a pneumónica, apenas sobreviveram quatro filhas: Palmira, minha mãe, era a mais velha, seguindo-se Mariana, Alice e Ana Maria. O meu avô Jacinto era, em toda a família da parte de minha mãe, o único que tinha frequentado regularmente a escola e que, por conseguir escrever e ler razoavelmente, largou a enxada ingressando na Guarda Nacional Republicana. Minha mãe, por vontade e esforço pessoal conseguiu tornar-se modestamente letrada.
Da parte de meu pai, os meus avós eram gente já bastante desligada do trabalho agrícola. Minha avó Ana do Carmo Serra era, como as duas gerações anteriores na sua família, basicamente uma contrabandista, actividade que, na nossa terra, como bem sabem todos os meus conterrâneos, era tão digna como qualquer outra e que só podia ser exercida por gente de coragem e de grande seriedade. Aliás, aqui na raia de Espanha, todos éramos um pouco contrabandistas e o contrabando gerou sólidas fortunas, tanto no domínio da agricultura, com no campo das indústrias.
Tal como minha avó, também meu avô, Francisco Martins Galego, fazia do contrabando a sua principal ocupação, se bem que este tivesse sido arrastado para esta actividade pelo casamento com minha avó Ana – os seus irmãos eram, na sua maioria, gente ainda ligada ao trabalho nos campos.
 Embora analfabetos, os meus avós paternos cuidaram de escolarizar os seus dois filhos varões: meu pai, José e meu tio Francisco; de minha tia Maria foi entendido por meus avós que, sendo rapariga, não necessitaria de tal investimento.
Minha mãe, sendo a primogénita dos filhos sobreviventes, aprendeu o ofício de costureira de alfaiate, ou seja, de vestuário masculino. Meu pai que tinha mais dois irmãos, minha tia Maria mais velha dois anos e meu tio Francisco mais novo cinco anos, nunca aceitou o destino de contrabandista que o fatum familiar lhe parecia traçar – o risco e a incerteza desse tipo de vida, não quadravam com a timidez e a ânsia de segurança que lhe moldavam o feitio. Por isso, desde muito cedo, foi destinado ao comércio. Daí que, depois de um longo aprendizado de mais de seis anos em loja alheia, pôde, com o apoio dos pais, estabelecer-se por conta própria pouco antes de casar e de eu ter nascido.
            A rua onde nasci era modesta, encostada às muralhas que ainda limitavam o perímetro da vila em muitos pontos. Ficava, contudo, entre as casas dos meus avós, quase a igual distância de ambas, o que foi estrategicamente muito importante no quadro do mapa dos meus afectos. Subindo a rua chegava a casa de minha avó Ana. Descendo-a e virando a esquina, chegava a casa de minha avó Maria. Entre o tesouro de afectos que encontrava numa e a largueza de recursos que outra me propiciava, a minha infância decorreu de forma muito favorável. De certo modo, não sentia falta de quem me apaparicasse: era filho único, sobrinho único, neto e bisneto único de um grupo considerável de gente.
Nessa época, havia apenas dois primos – A Ana Rita e o Chico, filhos de Maria, irmã de meu pai – mas ambos, por razões diferentes, estavam afastados, enquanto eu estava constantemente próximo e presente. Assim, sem ninguém a disputar-me carinhos, a vida só podia correr-me facilmente. A própria vizinhança desenvolvia laços de grande familiaridade o que alargava ainda mais o extenso mapa dos meus afectos de criança.

Campo Maior, 24 de Janeiro de 2007

(publicado em Região em Notícias - Campo Maior, em 2 de Fevereiro de 2007)

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