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Na passada semana, terça-feira, dia 27 do passado mês, o Diário de Notícias ocupava toda a página 20 com o tema das “crianças enjeitadas”. Primeiro com uma notícia proveniente de Itália – A “roda dos enjeitados” regressa em resposta a onda de abandonos de bebés –, depois com uma informação de carácter histórico – Uma prática de séculos pensada para os “bastardos”.
Em Itália, um hospital público nos subúrbios de Roma, estabeleceu um serviço para acolhimento de crianças recém-nascidas abandonadas. Numa dependência criada para o efeito e rodeadas de processos para garantir a discrição e o anonimato, as crianças podem ser deixadas num berço, o qual tem um dispositivo que avisa o pessoal do hospital da sua presença. A partir desse momento, a criança fica totalmente ao cuidado desse pessoal. Ora, isto não passa do retomar de uma instituição criada na Idade Média e que, em muitos países da Europa, sobreviveu até ao século XX.
Desde a aurora das civilizações, existiu o hábito de abandonar crianças. O abandono e o infanticídio existiram mesmo na muito humanista civilização helénica. Na Roma antiga, reconhecia-se ao pater famílias, o direito de enjeitar os filhos, mesmo os legítimos. As crianças “enjeitadas” eram deixadas na columna lactária, onde podiam ser recolhida por casais que as quisessem adoptar ou por quem as pretendesse criar para delas fazerem escravos.
Desde cedo o cristianismo desenvolveu os sentimentos de compaixão e caridade para com os recém-nascidos indesejados. Na Idade Média criou-se o hábito de deixar as crianças nos adros das igrejas ou nas portarias dos conventos. Mas, mesmo assim, muitas crianças eram abandonadas em locais que as colocavam em risco de morrerem de frio, de fome, ou de serem devoradas pelos animais. Começaram a aparecer homens de fé que dedicavam a sua vida à salvação das crianças abandonadas. Eram uma espécie de ermitões que buscavam as crianças para as entregar a instituições que delas cuidassem. Houve mesmo um Papa, Inocêncio III que, no século XII, se dedicou empenhadamente a este problema.
Nos conventos femininos, pela sua particular aptidão para intervirem nesta questão, foi criado um serviço organizado de recolha e assistência às crianças abandonadas. Ficou conhecida pelo nome de roda dos enjeitados ou, simplesmente, a roda. Consistia numa janela aberta para o exterior do convento, onde um cilindro oco, de madeira, girava sobre um eixo e que tinha uma abertura onde as crianças podiam ser deixadas. Bastava tocar uma sineta que estava ao lado, para que a irmã rodeira viesse recolher a criança abandonada.
 
 
 
                            Roda dos Expostos
          Museu Etnográfico González Santana, Olivença
 
Em Portugal, há notícia dos expostos serem entregues ao cuidado dos conventos, desde o início da nacionalidade.
No século XVI, com a criação das misericórdias, são estas instituições de assistência que passam a dedicar-se à acção caritativa da roda dos expostos para utilizar a expressão mais usada em Portugal. Onde não existiam misericórdias, ou onde estas não tivessem capacidade para assumirem este serviço, deviam ser os municípios a encarregar-se de dar solução ao problema.
Em meados do século XIX, com o triunfo do Liberalismo, a questão dos expostos começou a ser posta de maneira muito diferente, acabando por suscitar uma tremenda polémica que transparece na maioria dos jornais da época.
Aconteceu que, precisamente quando eu estava a analisar jornais publicados nos anos 60 do século XIX publicados em Elvas, comecei a deparar com artigos e notícias que versavam sobre esta questão. Simultaneamente estava a ser discutida a questão da intervenção voluntária da gravidez (IVG), com vista à realização do referendo no passado dia 11 de Fevereiro.
Como a questão dos expostos tende a interagir com a questão do aborto, não pude deixar de notar o paralelismo entre as duas questões. Primeiro pelo carácter profundamente polémico que implicam; depois pela maneira como um dos problemas implica o outro; em terceiro lugar pela semelhança dos argumentos utilizados e as posições que estavam a ser tomadas sobre a IVG e os que tinham sido usados no século XIX sobre a questão dos expostos.
Nesse tempo havia os que entendiam que as rodas dos expostos, devido ao seu carácter assistencial e aos imprescindíveis serviços que prestavam à sociedade, deviam ser preservadas, só que a expensas dos serviços do Estado, através das câmaras municipais.
Contrapunham outros que a roda dos expostos era uma instituição própria doutros tempos menos esclarecidos e incompatíveis com o Estado de Direito e com um grau de civilização alcançado pela humanidade. Denunciavam que, sendo os expostos quase sempre o produto de relações ilícitas e a consequência de atitudes imorais, o Estado e a sociedade tudo deviam fazer para as denunciar e obrigar os responsáveis a assumiram os sagrados deveres da sua paternidade.
Foi esta a corrente de opinião que primeiro venceu e as rodas dos expostos foram, por força da lei, condenadas à extinção.
Os efeitos não se fizeram esperar: passado pouco tempo, dispararam tragicamente o número de infanticídios e o número de mulheres que morriam em resultado de abortos mal conseguidos.
Reacendeu-se a polémica. Formou-se um movimento de opinião favorável à reorganização das rodas. Mas porque a sanha dos opositores não abrandava, tentou-se uma conciliação moderadora: as rodas seriam criadas apenas em alguns lugares e funcionariam das nove da manhã às três horas da tarde. Com isto pretendiam alguns levar a que as pessoas, obrigadas a exporem-se publicamente, evitariam recorrer a tal serviço.
No Distrito de Portalegre, só Elvas, Alter do Chão e Portalegre tinham rodas dos expostos.
Os resultados não foram famosos. Para evitar a exposição pública, começaram a aparecer pessoas que, a troco de um pagamento, se disponibilizavam para levar as crianças desde a povoação de origem até aquela onde funcionava a roda. A demora das viagens por péssimos caminhos e as condições inadequadas em que eram transportadas, provocavam a morte de grande número de crianças, sem esquecer os actos criminosos de alguns desses transportadores que, para ganharem mais e com menos esforço, eliminavam as crianças, sabendo que os pais, por quererem manter o anonimato, os não podiam denunciar. Por isso o jornal O Transtagano, de 20 de Maio de 1860, comentava:
Que resultado se pretende tirar da centralização das rodas? Diminuir o número dos nascimentos ilegítimos? Não, porque as causas são outras. A centralização das rodas só diminuiu o número dos nascimentos ilegítimos nas estatísticas porque o número dos infanticídios tem aumentado.
As causas dos nascimentos ilegítimos são o vício, a miséria e a fraqueza do coração humano. …Quando a fome e a desgraça chegam a certo grau…sacrificam-se todos os deveres da honra e do pudor. Quando há homens dispostos a comprar um prazer à custa de um remorso… Não é às pobres mulheres, vítimas da sedução que deveis oprimir com o desprezo e com a vergonha dessa maternidades ilegítimas. O sedutor é o verdadeiro culpado; é que abusa da miséria; é o libertino.
Em tais casos, o fruto do vício, da miséria e das fraquezas do coração deverá ser a vítima expiatória dos seus progenitores?”
As rodas voltaram a funcionar em todas as capitais de concelho. Por testemunhos orais, tenho notícia de que a de Campo Maior funcionava numa casa da Rua de Pedroso. Mas, agora em condições mais humanizadas. As crianças eram entregues a amas que se dispunham a criá-las a troco de um subsídio concedido pela câmara. Mas a instituição roda dos expostos, no meio de tanta polémica,ficara desacreditada. No nosso país, foi declinando a ponto de estar extinta no final do século XIX. Não porque os problemas tivessem sido resolvidos; mas porque, entretanto, surgiram outras instituições de apoio à infância e também por terem mudado algumas das condições da sociedade que determinavam a sua existência.
Evoquei este caso pela importância que pode ter para melhor pensarmos outros factos com muita actualidade. Sobretudo para nos fazer pensar que há certas questões sociais que, pelo seu melindre, não devem ser discutidas em termos ideológicos. Sobretudo quando implicam consequências trágicas para a vida de tanta gente.
Há questões que, mais do que serem acaloradamente discutidas, necessitam de ser, ponderadamente, bem resolvidas.

Campo Maior, 5 de Março de 2007

Região em Notícias de Campo Maior, 9 de Março de 2007   

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publicado às 15:13


5 comentários

De António Pereira a 19.04.2009 às 19:55

Nuns documentos a que tive acesso do concelho de Cabeceiras de Basto, do primeiro quartel do séc. XX, aparece a referência a um indivíduo como "rodeiro" e, num outro, como "dono da roda". Qual o significado dessas expressões?

De dario a 02.08.2010 às 23:57

que coisa

De dario a 02.08.2010 às 23:54

adorei

De lina cruz a 07.01.2012 às 20:09

Foi com agrado que li a sua reportagem, bem esclarecedora sobre a "roda dos expostos" não sei se diga felizmente ou infelizmente, pelo que se passa actualmente e vergonhosa questão do triunfo liberalismo em que vivemos, não deixa de ser pela mesma questão de séculos anteriores; vicio, prazer, adultério, mas principalmente falta de carácter e desumano. Nada adietou o referendo realizado no dia 11 de Fevereiro, ele ditou o NÃO! mas a lei foi realizada ...
Nada justifica os milhares de abortos realizados com tantos sistemas de contraceptivos. Sou casada há 38 anos, tenho três filhos maravilhosos, nunca fiz um aborto e na idade de adolescência de meus filhos, fiz uma reunião para falarmos sobre o assunto transmitindo-lhes a minha posição sobre o aborto e os contraceptivos, hoje todos com mais de 30 anos não tenho conhecimento que algum tenha contribuído para abortos. Sou avó de um lindo bebé nascido a 01-01-2012, uma ternura. Lamento a mentalidade da nossa sociedade.
Obrigada e não se canse de expor suas pesquisas.
Um Feliz Ano de 2012.
carolina cruz

De Teresa Raquel a 16.02.2013 às 15:27

As crianças indesejadas são frutos da luxúria e do Egoísmos de homens e mulheres que infelismente DEUS deu o dom de fecundar ,esses "bois" e essas "vacas" que andam trepando por aí sem consequencia, perdão por ter usado essas palavras, realmente os bovinos não merecem essa comparação, coitadinhos vivem lá no pasto produzindo leite tão útil à nossa sociedade, realmente os bovinos não merecerem serem comparados a esses canalhas e essas putas que deviam serem comparado as monstros.

Atenção: boizinhos e vaquinhas do meu Brasil vocês merecem o meu respeito, os canalhas e as vadias não.

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