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“Apesar da fertilidade de seus campos e das suas águas minerais, Ouguela tem descaído muito da sua antiga importância e grande parte dos seus prédios estão em ruínas.
Num desses edifícios desmantelados, foi encontrada uma pedra de forma cilíndrica (o pedestal de uma cruz) com a seguinte inscrição:
Na era de 1475, durante a célebre batalha entre Portugal e Castela, se encontraram neste local, João da Silva, camareiro-mór do príncipe D. João, o Segundo e João Fernandes Galindo, o Terceiro mestre d’Alcântara, sendo ambos capitães. E do encontro morreram ambos: o Mestre logo, e Diogo da Silva aos XVIII dias. E Diogo da Silva, bisneto de João da Silva, passando por aqui, Embaixador ao concílio Tridentino, mandou fazer esta cruz.
Era de 1551 anos.
Darei algumas explicações sobre a matéria desta inscrição.
D. Afonso V casara com sua prima D. Isabel, neta de D. João I e filha de D. Pedro duque de Coimbra (o que morreu em Alfarrobeira), da qual teve – D. João que morreu ainda menino, D. Joana ( a princesa santa), religiosa no Convento de Jesus d’Aveiro, e o que depois foi D. João II.
Falecida a rainha, pretende D. Afonso V ser também rei de Castela e contrata o seu casamento com a princesa D. Joana, filha e herdeira de D. Henrique IV de Castela.
A maior parte dos castelhanos, opõem-se a este casamento e, para criarem mais um obstáculo ao ambicioso monarca português, casaram a segunda irmã de D. Joana[1] - a infanta D. Isabel – com D. Fernando, rei de Aragão, que principiam logo a reinar e são os famosos reis católicos Fernando e Isabel que acabaram com os mouros na Península, conquistando o reino muçulmano de Granada.
D. Afonso V, para sustentar o direito de sua prometida esposa à coroa de Castela, entra naquele reino em 1473, à frente de 20.000 homens.
Em Placência desposa D. Joana e toma então o título de rei de Portugal e Castela, passa à cidade de Toro que se tinha declarado a seu favor.
Pouco tempo depois, seu filho que depois foi D. João II, o qual tinha organizado outro exército, marcha com ele a reunir-se a seu pai.
Samora seguia o partido de D. Isabel e o rei e seu filho foram pôr-lhe cerco. Apareceu o rei de Aragão com um luzido exército de castelhanos e aragoneses e, nos campos entre Samora e Toro, deu-se a célebre Batalha de Toro (Maio de 1476) em que os portugueses foram derrotados.
Foi nesta batalha o heróico feito do nosso legendário alferes-mór, Duarte d’Almeida – O Decepado – que, empunhado o estandarte real, lhe foi pelos castelhanos decepada a mão – mudou-a para a outra que, tendo a mesma sorte, ele o segurou com os dentes (outros dizem que com os cotos) e assim fugindo o pôde salvar.
O rei português deixa a regência do reino a seu filho e foi para França pedir ajuda ao rei Luís XI que, depois de brilhantes promessas, o prende a rogo dos reis católicos, tendo-o mantido recluso por uma ano. A infeliz D. Joana não foi rainha nem de Portugal, nem de Castela. Refugiou-se em Portugal onde foi designada pelo título de Excelente Senhora.  
Foi durante esta guerra, sendo João Fernandes Galindo alcaide-mor de Albuquerque e João Da Silva de Ouguela que teve lugar o desafio singular entre este dois cavaleiros, no qual morreram ambos, fora da muralha desta vila e que a inscrição relata.”
 
In: PINHO LEAL, PORTUGAL ANTIGO E MODERNO (p. 309 e 310)
 
 
 
 
 
 


[1] Pinho Leal estava equivocado: D. Isabel era irmã de Henrique IV e D. Joana (a Beltraneja) era tida como filha resultante da relação adúltera da irmã de D. Afonso V, casada com o rei de Castela, com um fidalgo (D. Beltrão).

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publicado às 16:40


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